O Segredo da Açucareira

Capítulo 4 — A Noite da Fuga

por Vitor Monteiro

Capítulo 4 — A Noite da Fuga

A noite pairava sobre a Fazenda Santa Bárbara como um manto escuro e pesado. A lua, uma fatia fina e pálida no céu, mal conseguia perfurar a escuridão, lançando apenas um brilho fantasmagórico sobre os campos de cana e os telhados das construções. O ar estava carregado de um silêncio tenso, prenúncio de algo grandioso e aterrador.

Os preparativos para o casamento de Isabela e Elias Vasconcelos atingiram seu ápice. A casa grande fervilhava de atividade: criados corriam de um lado para o outro com bandejas de comida e bebida, músicos afinavam seus instrumentos em um canto do salão principal, e Dona Eulália, com sua impassibilidade habitual, supervisionava os últimos detalhes com um olhar de satisfação fria. Para ela, o casamento era um triunfo da sua astúcia e do poder de sua família.

Isabela, em seu quarto, sentia o coração martelar contra as costelas. Vestida com um sobressalente traje de viagem, escuro e discreto, ela alisava o tecido com as mãos trêmulas. O vestido de noiva, um espetáculo de seda e renda, jazia sobre a cama, um símbolo macabro do destino que a esperava. Ela o olhava com repulsa, como se fosse um sudário.

Em sua mão, segurava o pequeno punhal que Matias lhe dera. O metal frio era um conforto sombrio. Ela sentia a força que ele representava, a promessa de autodefesa, a certeza de que não seria mais uma vítima indefesa.

Um batida suave na porta a fez saltar. Era Matias. Ele havia conseguido infiltrar-se na casa grande, aproveitando a confusão e a distração dos preparativos. Seus olhos escuros brilhavam na penumbra do quarto, cheios de urgência e paixão.

"Você está pronta?", ele sussurrou, sua voz um murmúrio rouco de emoção.

Isabela assentiu, incapaz de falar. Ela o abraçou com força, buscando nele a coragem que lhe faltava. O cheiro de suor e terra que emanava dele era o cheiro da liberdade, o cheiro da vida real.

"Meu pai já adormeceu?", ela perguntou, a voz embargada.

"Sim. Acredito que a bebida forte e a excitação do dia o deixaram exausto. Dona Eulália também. Os capatazes estão todos no pátio, supervisionando a segurança. É a nossa chance, Isabela. Agora."

Ele pegou sua mão e a guiou para fora do quarto. Desceram as escadas com a cautela de ladrões, cada degrau rangente soando como um trovão em seus ouvidos. O salão principal estava escuro, iluminado apenas pelos poucos candelabros que ainda ardiam, projetando sombras dançantes nas paredes. O eco de suas próprias respirações parecia alto demais.

Ao chegarem ao corredor que levava às cozinhas e à porta dos fundos, um som inesperado os fez congelar. Era o choro de uma criança.

"Anastácia", Isabela sussurrou, reconhecendo a voz da jovem escrava que ela havia tentado ajudar.

Matias franziu a testa. "O que ela está fazendo aqui?"

Eles se aproximaram cautelosamente. Anastácia estava encolhida em um canto, as lágrimas rolando livremente por seu rosto. Ela parecia assustada, mas resoluta.

"Anastácia? O que houve?", Isabela perguntou, baixando a voz.

A jovem levantou o olhar. "Eu vi vocês, senhora. Eu vi quando o senhor Matias entrou no seu quarto. Eu sei para onde vocês vão."

Isabela sentiu um aperto no peito. "Você não deveria estar aqui. É perigoso."

"Eu quero ir com vocês", Anastácia disse, com uma firmeza surpreendente em sua voz. "Eu não aguento mais viver assim. Eu quero ser livre."

Matias olhou para Isabela, um lampejo de dúvida em seus olhos. Levar uma escrava fugitiva seria um risco ainda maior. Poderia comprometer toda a operação. Mas ele viu a determinação no rosto de Anastácia, e lembrou-se da fragilidade com que ela o havia olhado dias antes.

"Isabela?", ele perguntou, buscando sua aprovação.

Isabela olhou para Anastácia, vendo nela o reflexo de seu próprio desejo de liberdade, de escapar da escravidão, mesmo que fosse a escravidão das convenções sociais.

"Ela lutou por sua liberdade hoje, Matias", Isabela disse, sua voz firme. "E nós não podemos deixá-la para trás."

Matias suspirou, um misto de resignação e admiração. "Tudo bem. Mas você precisa ficar em silêncio. O menor barulho pode nos condenar a todos."

Anastácia assentiu com gratidão, um sorriso tênue iluminando seu rosto. Ela se levantou e seguiu os dois para a porta dos fundos.

O ar da noite os acolheu, fresco e libertador. Os cavalos, já preparados por Matias e seus aliados, estavam amarrados a uma árvore próxima. Eram animais fortes e velozes, a promessa de uma fuga rápida.

Eles montaram rapidamente. Isabela em seu cavalo, Matias em outro, e Anastácia, com um misto de medo e excitação, montada atrás dele.

"Para onde vamos agora?", Isabela perguntou, a voz mal audível sobre o vento.

"Para o bosque. A noite é nossa aliada. Vamos nos misturar com as sombras", respondeu Matias, seu olhar varrendo a escuridão ao redor. "Eu tenho aliados que nos aguardam. Eles nos guiarão para longe daqui."

Com um aceno, Matias deu o sinal. Os cavalos começaram a trotar, depois a galopar, afastando-se da casa grande, em direção à vasta e escura vegetação da mata. Os latidos dos cachorros da fazenda começaram a soar, alertando para a fuga. Logo, gritos de homens e o barulho de botas correndo pela terra úmida se fizeram ouvir.

"Eles nos descobriram!", Isabela exclamou, o pânico tomando conta dela.

"Não se preocupe!", Matias gritou de volta, sua voz firme e confiante. "Eu sabia que isso poderia acontecer. Sigam-me! Rápido!"

Ele os guiou por um caminho sinuoso e desconhecido, através da densa mata. Os galhos arranhavam seus rostos e braços, mas eles não ousavam diminuir a velocidade. Os gritos de seus perseguidores se aproximavam, o som de cavalos correndo atrás deles.

"Eles estão perto!", Anastácia gritou, agarrando-se a Matias.

"Aguentem firme!", Matias ordenou.

De repente, eles emergiram em uma clareira onde uma figura sombria os aguardava. Era um homem negro, de porte altivo e olhar penetrante, com uma lança na mão. Ao seu lado, outros homens armados com facões e arcos.

"Senhor Matias?", o homem perguntou, sua voz grave e respeitosa.

"Sim, Jeremias. Precisamos de ajuda. Estamos sendo perseguidos."

Jeremias sorriu, um sorriso que não mostrava seus dentes, mas que irradiava força. "Nós cuidaremos disso. Os homens do Coronel não se atreverão a entrar em nosso território."

Ele fez um sinal para seus homens, que se posicionaram rapidamente, bloqueando o caminho de volta.

Os capatazes do Coronel Afonso surgiram na beira da clareira, seus rostos iluminados pelas tochas que carregavam. Bartolomeu estava na frente, com o chicote em punho.

"Parem! Entreguem a garota e o traidor!", Bartolomeu gritou, sua voz cheia de fúria.

Jeremias deu um passo à frente, sua lança apontada para Bartolomeu. "Vocês não passarão. Esta terra pertence a nós."

Bartolomeu hesitou. Ele conhecia Jeremias e a reputação do quilombo que ele liderava. Entrar ali seria um suicídio.

"Nós voltaremos, Coronel! E vocês pagarão por isso!", Bartolomeu gritou, recuando junto com seus homens.

Isabela soltou um suspiro de alívio. Eles estavam a salvo, por ora.

Jeremias se voltou para eles, um sorriso confiante em seu rosto. "Bem-vindos. Aqui, vocês estarão seguros. E encontrarão o caminho para a liberdade."

Ele os guiou para o interior do quilombo, um lugar que para Isabela parecia um santuário. As casas eram simples, feitas de barro e palha, mas o ar estava carregado de uma energia diferente. Havia cânticos, risos, um senso de comunidade e dignidade que Isabela nunca havia presenciado na fazenda.

Matias segurou a mão de Isabela, seus olhos encontrando os dela. "O primeiro passo foi dado, meu amor. Agora, nosso destino está em nossas próprias mãos."

Anastácia olhava ao redor, maravilhada, com um brilho de esperança genuína em seus olhos. Ela finalmente sentia o gostinho da liberdade.

Isabela sentiu um misto de alívio e apreensão. A fuga fora bem-sucedida, mas o futuro ainda era incerto. Ela havia deixado para trás sua vida de luxo, sua família, tudo o que conhecia. Mas ao lado de Matias, no coração do quilombo, ela sentia que estava no caminho certo. O caminho para um amor verdadeiro e uma vida com propósito. A noite da fuga havia sido a noite em que ela finalmente começou a escrever sua própria história.

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