A Dama do Ouro Negro
A Dama do Ouro Negro
por Caio Borges
A Dama do Ouro Negro
Autor: Caio Borges
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Capítulo 1 — O Chamado da Terra Molhada
O sol causticante do sertão impiedoso beijava a pele de Clara com a ferocidade de um amante possessivo. Cada raio parecia querer arrancar-lhe a alma, deixando para trás apenas a casca ressecada de uma mulher acostumada a ventos mais amenos e à chuva generosa que, por ora, parecia ter esquecido a fazenda São Francisco. A poeira avermelhada subia em nuvens preguiçosas a cada passo de sua égua, Dama, o único ser a compartilhar seu fardo naquela manhã. Seus olhos, cor de azeitona madura, perscrutavam o horizonte em busca de qualquer sinal de vida, de qualquer indício de que o gado, outrora farto, ainda resistisse à seca implacável.
Clara tinha vinte e cinco anos, mas a melancolia precoce pintava rugas finas ao redor de sua boca, um traço que não pertencia à juventude. A morte do pai, o Coronel Ramiro de Andrade, há menos de um ano, a forçara a assumir o comando da fazenda. Um fardo pesado demais para seus ombros delicados, mas que ela carregava com a teimosia de quem sabe que a terra, por mais cruel que se mostrasse, era seu legado, sua identidade. O Coronel, um homem de pulso firme e barba grisalha, a criara como seu igual, ensinando-lhe os segredos da pecuária, o valor do suor e a importância de honrar o nome dos Andrade. E Clara, com sua inteligência aguçada e coração resiliente, aprendera bem.
— Dama, minha amiga, será que o destino nos reserva apenas poeira e desespero? — sussurrou Clara, a voz embargada pela emoção contida. A égua relinchou suavemente, como se compreendesse a angústia de sua dona.
O gado estava dizimado. As chuvas escassas dos últimos anos haviam transformado os pastos verdejantes em extensões áridas e rachadas. Os bezerros nasciam fracos, e as vacas, magras, mal conseguiam produzir leite. O desespero começava a se instalar nos corações dos poucos peões que ainda restavam na fazenda. Muitos, sem ver outra saída, haviam partido em busca de trabalho nas cidades do litoral, deixando Clara com um punhado de homens leais e uma dívida crescente.
O sol atingiu o zênite, e o calor se tornou insuportável. Clara sabia que precisava voltar para a sede, para enfrentar as planilhas que se acumulavam sobre a escrivaninha de seu pai. Havia contas a pagar, fornecedores a tranquilizar e, acima de tudo, a difícil tarefa de manter a esperança viva em meio à desolação.
Ao avistar a casa grande, imponente em sua simplicidade, Clara sentiu um aperto no peito. As paredes brancas, outrora vibrantes sob o sol, agora pareciam cansadas, como se também sofressem com a aridez da terra. A varanda de madeira, palco de tantas histórias e decisões importantes de seu pai, a esperava com a sombra acolhedora, mas que agora parecia um convite à melancolia.
Ao desmontar, foi recebida por Dona Ermelinda, a governanta da casa e a quem Clara considerava uma segunda mãe. Com seus cabelos brancos presos em um coque impecável e o avental sempre engomado, Dona Ermelinda era o pilar de estabilidade naquela fazenda.
— Minha filha, você está vermelha como um pimentão! Sente-se um pouco, vou buscar um copo de água fresca. — disse Dona Ermelinda, com a voz doce e preocupada.
— Obrigada, Dona Ermelinda. A situação… está difícil. — Clara respondeu, a voz falhando ligeiramente.
Sentada na cadeira de balanço da varanda, Clara observou os poucos peões que ainda trabalhavam nos arredores. Rostos marcados pelo sol e pela labuta, mas com um brilho de lealdade nos olhos. Eram os que haviam ficado, os que acreditavam em sua força, em sua capacidade de reerguer a São Francisco.
— Pensei que seria mais fácil, Dona Ermelinda. Pensei que o amor pela terra e pela memória de meu pai me daria a força necessária. Mas a seca… ela é implacável. — Clara confessou, acariciando o pescoço de Dama.
Dona Ermelinda retornou com um copo de água e um pratinho com pedaços de queijo fresco e goiabada.
— A terra é mãe, Clara, mas também pode ser madrasta. No entanto, a senhora tem o sangue dos Andrade correndo nas veias. Seu pai sempre dizia que a esperança é a última que morre. E eu vejo essa chama nos seus olhos, mesmo quando a poeira tenta apagá-la. — a governanta disse, sentando-se em um banquinho próximo.
Clara bebeu a água com avidez, sentindo o frescor descer por sua garganta. A doçura do queijo e da goiabada era um contraste bem-vindo à amargura que sentia.
— Mas como, Dona Ermelinda? Como manter a esperança quando o poço está quase seco e o gado se perde aos poucos? Preciso de uma solução, e logo. Os credores já começam a apertar.
Dona Ermelinda suspirou, seus olhos experientes fitando a vastidão da paisagem desértica.
— Seu pai, antes de… partir, mencionou algo. Algo sobre uma terra que ele conhecia, distante daqui, onde a terra é rica e a água é farta. Ele a chamava de "o ouro negro", um lugar onde o café cresce como ouro em pó. Falava em investimentos, em novas lavouras. Mas o tempo… o tempo não permitiu que ele explorasse isso.
O interesse de Clara foi despertado. "Ouro negro"? Café? Ela sabia que o café era a nova promessa do Brasil, a commodity que fazia fortunas e transformava fazendeiros em barões. Mas a ideia de deixar a São Francisco, seu lar, sua história, parecia quase uma traição.
— Onde ficaria essa terra, Dona Ermelinda? Onde seria esse "ouro negro"? — perguntou Clara, com um misto de curiosidade e apreensão.
— Na Província do Rio de Janeiro, minha filha. Em terras que seu pai visitara em sua juventude. Ele tinha um contato, um homem chamado Matias de Albuquerque, que lhe falava das oportunidades por lá.
Clara ficou pensativa. A Província do Rio de Janeiro. Era um mundo distante, diferente do sertão que ela conhecia. Um lugar de mar, de cidades movimentadas, de escravos em grande número trabalhando nas lavouras. A ideia de se aventurar em um território desconhecido, longe de tudo o que lhe era familiar, a assustava. Mas o desespero era um veneno que corroía qualquer resquício de conformismo.
— Preciso pensar nisso, Dona Ermelinda. Preciso analisar os números, ver se há alguma possibilidade. Se não pudermos salvar a São Francisco com o gado, talvez… talvez tenhamos que olhar para outras terras.
— A senhora é forte, Clara. Mais forte do que imagina. Seu pai sabia disso. E eu também. — Dona Ermelinda disse, colocando a mão reconfortante sobre o ombro de Clara.
O sol começava a declinar, pintando o céu com tons alaranjados e avermelhados. Clara sentiu uma fagulha de esperança acender em seu peito, uma pequena chama que teimava em brilhar em meio à escuridão da incerteza. O "ouro negro" de seu pai. Seria essa a salvação que ela tanto buscava? Seria essa a chance de reerguer o nome dos Andrade e provar a si mesma que era capaz de enfrentar qualquer desafio? A terra molhada da Província do Rio de Janeiro a chamava, e Clara, a dama do sertão, sentia que não podia ignorar esse chamado.