A Dama do Ouro Negro

A Dama do Ouro Negro

por Caio Borges

A Dama do Ouro Negro

Autor: Caio Borges

Capítulo 16 — O Sussurro da Morte

O sol da Bahia, implacável e dourado, beijava as terras de Pirajuba com um calor que parecia penetrar até os ossos. Mas em alguns corações, o ar estava gélido, preenchido pelo espectro da morte. Sofia, com os olhos marejados e a respiração entrecortada, observava a figura pálida e frágil de seu pai, Bento, estendida na cama. Os olhos antes vibrantes, cheios da malícia e da sabedoria que a haviam moldado, agora estavam turvos, fixos em um ponto indistinto no teto de madeira escura. O Dr. Américo, com seu jaleco impecável e um ar de profunda preocupação, murmurava termos médicos que soavam a Sofia como um presságio funesto.

“A febre é alta, minha jovem. A gangrena avança insidiosamente. Fizemos tudo o que podíamos, mas o corpo… o corpo é um guerreiro cansado.”

Sofia apertou a mão enrugada de Bento, sentindo a pele fria e a pulsação fraca. As memórias invadiram sua mente em um torvelino: o sorriso de Bento quando lhe ensinara a montar a cavalo, o abraço forte quando ela anunciou seu casamento com Gabriel, a voz rouca de orgulho ao falar do engenho de cana-de-açúcar que ele tão arduamente construíra. E agora, tudo parecia esvair-se como a água por entre os dedos.

Do outro lado do quarto, Dona Eulália, com seu vestido preto de luto perpétuo, mantinha uma postura de resignação calculada. Seus olhos, no entanto, brilhavam com uma luz fria, observando cada reação de Sofia. A dor genuína da filha era evidente, mas Eulália via nela também uma fragilidade que poderia ser explorada. Havia planos em andamento, e a iminente partida de Bento era um elo que precisava ser cortado, mas com a devida atenção aos rendimentos que a morte dele traria.

“Ele lutou bravamente, Sofia”, disse Eulália, a voz melodramática, como se estivesse encenando uma tragédia. “Um homem forte, assim como seu pai. A vida, minha querida, às vezes nos rouba os mais valiosos tesouros sem aviso.”

Sofia não conseguia responder. As palavras de Eulália soavam vazias, insinceras. Ela sabia que, sob a fachada de compaixão, havia uma fome insaciável. Gabriel, que se mantivera ao lado de Sofia, colocando um braço protetor em volta de seus ombros, sentiu a tensão no ar. Ele conhecia a sagacidade de Dona Eulália e desconfiava de suas reais intenções. O sofrimento de Sofia era palpável, mas o interesse velado de sua madrasta o alarmava.

“Precisamos manter a calma, Sofia”, disse Gabriel, com a voz firme e reconfortante. “Seu pai te ama e precisa de sua força agora.”

De repente, Bento murmurou algo inaudível. Sofia se inclinou, o coração acelerado.

“O quê, papai? O que o senhor quer?”

Seus lábios secos e rachados se moveram novamente. “O… ouro… negro…”

O silêncio que se seguiu foi pesado. Sofia olhou para Gabriel, confusa. Ouro negro? Que ouro negro? Bento nunca falara de ouro negro. Seria delírio? Ou uma última confissão?

“Ouro negro, Gabriel”, Sofia sussurrou, a voz embargada. “Ele disse ouro negro. O que será que ele quis dizer?”

Gabriel franziu a testa, pensativo. Ouro negro. A expressão lhe soava familiar, mas não conseguia associá-la a nada concreto. Bento era um homem prático, um homem de terra, não de segredos obscuros. A menos que… a menos que houvesse algo que ele nunca lhe contara.

“Pode ser apenas o delírio da febre, meu amor”, disse Gabriel, tentando amenizar a apreensão dela. “Não se preocupe com isso agora. Concentre-se em seu pai.”

Mas a semente da dúvida havia sido plantada. Ouro negro. Um segredo? Uma herança oculta? Ou um aviso? O som da tosse seca e raspante de Bento quebrou a quietude. O médico fez um sinal discreto a uma das criadas, que trouxe uma poção escura e espessa.

Enquanto o remédio era administrado, os olhos de Sofia percorriam o quarto, pousando em cada detalhe: as gravuras antigas nas paredes, os móveis pesados e escuros, a pequena caixa de madeira que ficava na mesinha de cabeceira de Bento, um objeto que ela nunca vira antes. O que poderia haver ali?

Naquela noite, o silêncio da casa foi quebrado apenas pelo ressonar fraco de Bento e pelos soluços contidos de Sofia. Ela não conseguiu dormir. A imagem do pai definhando e as palavras enigmáticas ecoavam em sua mente. O ouro negro. Era um código? Um esconderijo? Ou uma referência a algo mais sinistro?

No dia seguinte, a notícia se espalhou como fogo pela fazenda. O velho Bento, o patriarca, o homem que fora o alicerce de Pirajuba, estava entre a vida e a morte. Os trabalhadores, a maioria deles com gratidão e respeito pelo patrão, reuniram-se nos arredores da casa grande, os semblantes carregados de preocupação. Havia boatos de que o Dr. Américo havia tentado uma nova intervenção, mas que o corpo de Bento não respondia.

Eulália, habilmente, usava a situação a seu favor. Ela aparecia nos corredores, os olhos vermelhos e inchados, consolando os trabalhadores, transmitindo uma imagem de profunda tristeza e preocupação. Mas seus sorrisos discretos quando ninguém a via, e os sussurros que trocava com o Sr. Valadares, o contador da fazenda, não passavam despercebidos por Gabriel.

“O que eles tanto conversam, Sofia?”, perguntou Gabriel, com um tom de desconfiança crescente. “Parecem… muito interessados nos negócios.”

Sofia, exausta e com a alma pesada, apenas balançou a cabeça. “Não sei, Gabriel. Minha cabeça não está funcionando direito. Meu pai… meu pai está morrendo.”

Ela voltou para o quarto de Bento, onde a atmosfera estava ainda mais carregada. O Dr. Américo havia saído, deixando um suspiro de derrota. Bento respirava com dificuldade, e Sofia sabia que o fim estava próximo.

“Papai”, ela disse, a voz embargada. “Por favor, se houver algo que o senhor queira me dizer… é agora.”

Os olhos de Bento se abriram com um esforço visível. Ele olhou para Sofia, e um lampejo de lucidez pareceu atravessar a névoa da doença. Ele estendeu a mão trêmula para a pequena caixa de madeira sobre a mesinha. Sofia a pegou, sentindo o peso da madeira antiga.

“Dentro”, ele sussurrou, a voz rouca como areia. “Segredo… da… família.”

Com os dedos trêmulos, Sofia abriu a caixa. Lá dentro, não havia joias, nem ouro comum. Havia um pequeno e pesado medalhão de metal escuro, quase negro, incrustado com pedras que brilhavam com um reflexo oleoso. Junto a ele, um pequeno pergaminho amarelado. Ao desenrolá-lo, Sofia viu um mapa rudimentar, marcado com um X e uma inscrição em uma letra antiga e cursiva: “O Coração de Pirajuba”.

Gabriel, que observava tudo de perto, pegou o medalhão. Era estranhamente pesado, com uma frieza incomum. As pedras, sob a luz fraca, pareciam conter profundidades insondáveis.

“O que é isso, pai?”, Sofia perguntou, com a voz quase inaudível.

Bento apenas fechou os olhos com força, um último suspiro escapando de seus lábios. O som do seu coração parou. O Dr. Américo entrou apressadamente, mas era tarde demais. O silêncio que se instalou no quarto era absoluto, um silêncio que gritava a ausência. Bento, o patriarca, havia partido. Sofia caiu de joelhos, o medalhão e o mapa escorregando de suas mãos. A dor da perda a consumiu, mas em meio ao desespero, uma nova inquietação tomava forma: o mistério do ouro negro, o coração de Pirajuba, e a verdade que seu pai levara consigo para o túmulo. O que ele quisera dizer com aquelas palavras? E o que aquele medalhão escondia? A teia de segredos estava apenas começando a se desenrolar.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%