A Dama do Ouro Negro

Capítulo 17 — As Sombras da Ganância

por Caio Borges

Capítulo 17 — As Sombras da Ganância

O luto em Pirajuba era genuíno. A notícia da morte de Bento Correia se espalhou como um véu sombrio sobre as terras. Os trabalhadores, os colonos, até mesmo os poucos habitantes da vila vizinha, lamentavam a perda de um homem que, apesar de suas falhas, era respeitado pela sua força e pela sua ligação com a terra. Sofia, envolta em um casulo de tristeza, mal conseguia articular palavras. A dor da perda de seu pai, um homem que ela amava profundamente, era um fardo pesado demais para carregar. Gabriel, com sua presença forte e serena, era seu porto seguro, tentando ampará-la em meio à tempestade.

No entanto, em meio à comoção geral, havia uma frieza calculista emanando de Dona Eulália. Ela se movimentava pela casa grande como um corvo de mau agouro, seus olhos escuros perscrutando cada canto, cada documento, cada cofre. Sua preocupação com Sofia parecia uma encenação ensaiada, desprovida de qualquer calor genuíno. O Sr. Valadares, o contador de Bento, um homem de feições apagadas e um sorriso servil, tornara-se seu confidente constante.

“É uma tragédia, sem dúvida”, disse Valadares, em um sussurro maquiavélico, enquanto Dona Eulália examinava um grosso livro de contas. “Mas a vida segue, não é mesmo, Dona Eulália? E os negócios… os negócios não podem parar.”

Eulália deu um sorriso fino, que não alcançou seus olhos. “Precisamente, Valadares. Bento era um homem de posses. E com sua partida, Sofia herdará tudo. Mas… ela é jovem, impulsiva. Precisa de alguém para guiá-la, para zelar por seu bem. Alguém que entenda o valor de Pirajuba.”

Valadares assentiu com uma reverência exagerada. “E quem melhor do que sua senhora, Dona Eulália? Sua experiência, sua visão de mundo… Sofia terá sorte em ter sua orientação.”

Enquanto isso, no quarto de Bento, agora transformado em um santuário de luto, Sofia segurava o medalhão escuro e o mapa com a inscrição “O Coração de Pirajuba”. Gabriel observava-a com atenção.

“Você acha que seu pai escondia algo de você, Sofia?”, perguntou ele, com cautela.

Sofia apertou o medalhão em sua mão. “Não sei, Gabriel. Ele sempre foi um homem reservado, mas nunca senti que ele me escondia algo importante. Mas aquelas palavras… ‘ouro negro’. E este mapa… O que será que significa?”

Gabriel pegou o mapa. As linhas eram antigas, e a caligrafia, quase ilegível. Ele apontou para uma área marcada no mapa, perto da nascente do rio que cortava as terras de Pirajuba. “Parece ser por aqui. Uma região que raramente exploramos. Dizem que o solo é instável.”

“Instável?”, Sofia repetiu, franzindo a testa. Ela se lembrou das histórias que os escravos contavam sobre cavernas escondidas e mistérios nas profundezas da mata, histórias que Bento sempre desdenhava como lendas. “Ouro negro… Será que ele se referia a petróleo? Mas isso seria… impossível naquela época.”

“Ou talvez não seja ouro, no sentido literal”, ponderou Gabriel. “Talvez seja algo que ele considerava valioso, mas que não era o que esperávamos. Algo que pudesse ser comparado ao ‘ouro negro’ pela sua raridade ou pelo seu poder.”

Os dias seguintes foram um turbilhão de burocracia e condolências. O juiz da comarca veio para formalizar a sucessão de Bento. Dona Eulália, com a habilidade de uma serpente, garantiu que seu nome fosse incluído em todas as decisões importantes, alegando que era seu dever proteger a “herdeira inexperiente”. Valadares, o contador, forneceu todos os documentos que Eulália precisava para consolidar seu controle.

Gabriel sentia um nó no estômago. Ele via a inteligência e a força de Sofia, mas também via a manipulação sutil de Eulália. Ele tentava conversar com Sofia, mas ela estava imersa em seu luto, e a presença constante de Eulália dificultava qualquer conversa privada.

“Sofia, você confia em sua madrasta?”, perguntou Gabriel, em uma rara oportunidade em que estavam sozinhos no jardim.

Sofia hesitou. “Eu… eu não sei, Gabriel. Ela é minha família. Mas… às vezes sinto que há algo por trás daquelas palavras gentis.”

“Eu também sinto isso”, confessou Gabriel. “E tenho receio que ela e Valadares estejam usando a sua dor para controlar Pirajuba. Precisamos ser cuidadosos.”

Uma noite, enquanto Sofia revirava os pertences de seu pai em busca de qualquer coisa que pudesse dar uma pista sobre o “ouro negro”, ela encontrou uma pequena chave enferrujada escondida no forro de uma velha maleta de couro. A chave parecia antiga, com um desenho intrincado.

“Gabriel, veja isto!”, ela exclamou, correndo até onde ele estava, revisando os livros da fazenda. “Encontrei esta chave. Onde será que ela se encaixa?”

Gabriel examinou a chave. Era diferente de qualquer outra que ele já vira. “Parece uma chave de cofre antigo. Ou de um baú escondido.”

Os olhos de Sofia brilharam com uma nova determinação. O luto ainda estava presente, mas agora havia algo mais: uma faísca de curiosidade, de instinto de sobrevivência. Ela precisava entender o segredo de seu pai, não apenas por ele, mas por si mesma e pelo futuro de Pirajuba.

“Precisamos procurar, Gabriel. Precisamos encontrar o que essa chave abre.”

Dona Eulália, por outro lado, não estava parada. Ela ordenou a Valadares que começasse a catalogar todos os bens de Bento, com ênfase especial nos documentos de propriedade e nos registros financeiros. Ela sabia que o verdadeiro valor de Pirajuba podia estar em algo que não estava escrito nos livros. Ela tinha ouvido sussurros, lendas antigas sobre riquezas ocultas nas profundezas da terra, tesouros que Bento, em sua sabedoria, poderia ter descoberto. O “ouro negro” era um enigma para ela também, mas ela estava determinada a desvendá-lo, e se possível, a tomá-lo para si.

Enquanto Sofia e Gabriel vasculhavam discretamente a casa, procurando por um possível esconderijo, Dona Eulália e Valadares tramavam nos escritórios.

“Valadares, você tem certeza que Bento não deixou nenhum testamento secreto? Nada que possa desviar a herança de Sofia?”

Valadares coçou a cabeça, um brilho de ganância nos olhos. “Tenho certeza, Dona Eulália. Os documentos oficiais são claros. Mas… ele era um homem peculiar. Poderia ter escondido algo. Uma propriedade, um tesouro…”

Eulália sorriu, um sorriso predador. “Exatamente. E nós precisamos encontrá-lo antes que Sofia, a ingênua, se dê conta do que está em jogo.”

Sofia, sem que ninguém soubesse, começou a revistar o antigo escritório de Bento, um local raramente visitado desde a sua morte. Ela procurava por qualquer coisa incomum, qualquer fresta, qualquer compartimento secreto. Seu pai era um homem de hábitos, e talvez um canto esquecido pudesse guardar a resposta.

Enquanto isso, Gabriel, usando suas habilidades de observação, notou uma marca estranha em uma das estantes de livros do escritório de Bento. Parecia um entalhe sutil, quase imperceptível. Com cuidado, ele pressionou a marca. Um leve clique soou, e uma pequena seção da estante se moveu para dentro, revelando um compartimento oculto.

“Sofia! Venha ver isto!”, chamou Gabriel, a voz cheia de excitação contida.

Sofia correu até ele. No compartimento secreto, havia uma pequena caixa de metal, parecida com um cofre antigo. E lá estava, uma pequena fenda que correspondia perfeitamente à chave enferrujada que Sofia encontrara.

Com as mãos trêmulas, Sofia inseriu a chave e girou. O mecanismo rangeu, e a tampa se abriu. Dentro, não havia ouro, nem joias. Havia um diário encadernado em couro escuro, e ao lado dele, um pequeno saco de veludo.

Sofia abriu o diário. As primeiras páginas estavam cheias de anotações sobre a lavoura, o clima, os negócios. Mas à medida que ela avançava, a letra mudava, tornando-se mais frenética, mais secreta. E então, ela viu. As palavras “ouro negro” repetiam-se com frequência, descrições de poços, de uma substância escura e valiosa que brotava das profundezas da terra, algo que seu pai havia descoberto e mantido em segredo. O diário descrevia a localização exata, as dificuldades em extrair o material, os perigos.

“Gabriel… ele descobriu petróleo”, Sofia sussurrou, os olhos arregalados de espanto. “Ele descobriu petróleo, e escondeu isso de todos. A riqueza… a verdadeira riqueza de Pirajuba não é a cana-de-açúcar.”

Ela abriu o saco de veludo. Dentro, havia uma pequena amostra do líquido escuro e viscoso. Era, inconfundivelmente, petróleo bruto. O “ouro negro” de seu pai. A ganância de Eulália e Valadares, que buscavam uma riqueza tangível, não imaginavam a magnitude do tesouro que Bento havia descoberto. A notícia da morte de Bento, em vez de extinguir o segredo, acabara por despertá-lo. Agora, Sofia entendia que o verdadeiro jogo em Pirajuba não era sobre a terra, mas sobre o que jazia em seu subsolo. E ela sabia que precisaria lutar, com todas as suas forças, para proteger esse legado.

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