A Dama do Ouro Negro

Capítulo 3 — A Teia de Vassouras

por Caio Borges

Capítulo 3 — A Teia de Vassouras

A viagem de Clara e Dona Ermelinda de trem até Vassouras foi uma experiência em si. As paisagens do Vale do Paraíba, outrora exuberantes em seus relatos, agora exibiam um verde mais pálido, salpicado pelas manchas escuras das lavouras de café. O aroma adocicado e pungente dos grãos, que se intensificava a cada quilômetro, era um lembrete constante do motivo de sua jornada.

Ao chegarem à estação, foram recebidas por um homem de meia-idade com um chapéu panamá e um sorriso um tanto forçado, que se apresentou como o Sr. Valdemar, o capataz da fazenda em questão, a "Estrela Cadente".

— Bem-vindas, senhoritas. Sr. Matias de Albuquerque me incumbiu de recebê-las e mostrar as terras. — disse Valdemar, com uma voz um tanto rouca, como se estivesse acostumado a gritar ordens no campo.

Clara observou Valdemar com atenção. Seus olhos esquivos e a forma como ele evitava o contato visual direto a deixaram um pouco apreensiva. Dona Ermelinda, com sua sabedoria silenciosa, também parecia desconfiada.

A Fazenda Estrela Cadente não era o que Clara esperava. A casa grande, outrora imponente, exibia sinais de negligência: a pintura descascada, as janelas empoeiradas e um ar de abandono que contrastava com a promessa de riqueza. Os campos de café, embora extensos, pareciam desordenados, com ervas daninhas competindo com os arbustos.

— A fazenda esteve um tempo sem a devida administração, senhoritas. Mas com novo investimento, tenho certeza que voltará a ser a potência que foi. — Valdemar explicou, como se lesse os pensamentos de Clara.

Clara percorreu as terras com um misto de decepção e determinação. A terra era, de fato, fértil. O solo escuro e úmido prometia abundância, mas a falta de cuidado era evidente. Ela imaginou o trabalho que teria pela frente para transformar aquele lugar em algo que honrasse o nome de seu pai e o investimento de Matias.

Enquanto caminhavam por uma das aléias de café, um vulto apareceu entre os arbustos. Era um jovem negro, de ombros largos e olhar assustado, que tentou fugir ao avistar o capataz.

— Parado aí, moleque! O que faz rondando por aqui? — Valdemar gritou, a voz autoritária.

O jovem, com o corpo trêmulo, murmurou algo ininteligível.

— Ele… ele está roubando café, senhorita Clara. Essa gente não tem juízo. — Valdemar disse, dirigindo-se a ela com um tom de desagrado.

Clara sentiu um aperto no coração. A escravidão, embora oficialmente abolida em 1871, ainda pairava como uma sombra sobre a região. A Lei do Ventre Livre não mudara a realidade de tantos.

— Deixe-o ir, Sr. Valdemar. — Clara disse, surpreendendo a si mesma e ao capataz. — Ele deve estar com fome.

Valdemar olhou para ela incrédulo.

— Mas, senhorita…

— Deixe-o ir. Não quero problemas. — Clara repetiu, com firmeza.

O jovem, com um olhar de gratidão que não ousou expressar em voz alta, desapareceu entre as árvores. Valdemar resmungou algo incompreensível, mas obedeceu.

Naquela noite, enquanto jantavam na casa grande, Clara sentiu a presença de algo mais do que apenas a negligência. Havia um clima de tensão, um silêncio pesado entre os poucos empregados que serviam a mesa.

— O Sr. Matias mencionou que a antiga proprietária, Dona Aurora, faleceu em circunstâncias misteriosas. — Clara comentou, tentando quebrar o gelo.

Valdemar se encolheu ligeiramente.

— Sim, senhorita. Foi… um acidente. Uma queda da escada. Uma mulher solitária, vivia para seus cafés.

Dona Ermelinda trocou um olhar com Clara. Havia algo naquele "acidente" que não soava bem.

Nos dias seguintes, Clara explorou a fazenda com mais profundidade, acompanhada por Dona Ermelinda. Descobriram que a estrutura da casa grande era sólida, mas que a mobília estava em péssimo estado. Os galpões de secagem de café precisavam de reparos urgentes, e os depósitos estavam quase vazios.

Um dia, enquanto examinavam um antigo escritório na casa grande, Clara encontrou uma caixa de madeira trancada. Com um grampo que Dona Ermelinda sempre carregava, ela conseguiu abri-la. Dentro, havia cartas antigas, diários e um medalhão com um retrato de uma mulher bonita e de olhar triste: Dona Aurora.

As cartas revelavam uma história de amor proibido, de um homem por quem Dona Aurora era apaixonada, mas que pertencia a uma família rival, os Vasconcelos. Havia também menções a dívidas crescentes e a ameaças veladas de pessoas que queriam se apossar de suas terras. O nome de Dr. Horácio Neves aparecia com frequência, sempre em tom de desconfiança e medo.

— Meu Deus, Clara! Esta mulher estava em apuros. — Dona Ermelinda murmurou, lendo um dos diários. — Ela mencionava que Dr. Horácio estava pressionando-a para vender a fazenda. E falava de um jovem que a ajudava secretamente, que compartilhava seu amor pelo café.

Clara sentiu um arrepio. O jovem que a ajudava… seria ele o mesmo rapaz negro que ela havia visto?

Naquela tarde, Clara decidiu confrontar Valdemar.

— Sr. Valdemar, quem era o homem por quem Dona Aurora era apaixonada? — ela perguntou diretamente.

O capataz hesitou, o rosto pálido.

— Eu… eu não sei, senhorita. Não me dizia essas coisas.

— E o jovem que a ajudava? Ele era negro? — Clara insistiu, observando a reação dele.

Valdemar engoliu em seco.

— Havia um rapaz, sim. Um… um escravo de um fazendeiro vizinho. Mas ele fugiu há algum tempo. Acho que foi isso que a deixou tão triste.

Clara sabia que não estava ouvindo toda a verdade. Havia mais naquela história. A "Estrela Cadente" não era apenas uma fazenda em declínio; era um lugar onde segredos sombrios e paixões proibidas se entrelaçavam.

Naquele mesmo dia, enquanto voltavam para a casa grande, um cavaleiro apareceu no portão. Era Dr. Ricardo Bastos. Ele trazia um convite para um jantar em sua própria fazenda, a "Fazenda das Acácias", localizada nas proximidades.

— Sr. Matias me pediu para vir recebê-la. Ele acha que o contato pessoal é fundamental para bons negócios. — Ricardo explicou, seu olhar pousando em Clara com uma intensidade que a fez corar. — Espero que a senhorita aceite. Será uma boa oportunidade para discutirmos as possibilidades em Vassouras.

Clara aceitou o convite, sentindo uma mistura de apreensão e excitação. Ricardo Bastos era um enigma, um homem que parecia carregar o peso do mundo em seus ombros, mas cujos olhos a fitavam com uma vulnerabilidade inesperada.

Na noite do jantar, a Fazenda das Acácias se revelou um contraste impressionante com a Estrela Cadente. Uma casa grande suntuosa, jardins bem cuidados e um ambiente de fartura e prosperidade. Ricardo Bastos, em seu traje elegante, recebeu Clara com uma hospitalidade calorosa.

— Clara, é um prazer tê-la em minhas terras. Sei que está aqui para avaliar a Estrela Cadente. É uma propriedade com potencial, mas que precisa de mãos firmes.

— É o que pretendo fazer. — Clara respondeu, enquanto observava o ambiente ao redor, tão diferente da aridez de sua São Francisco.

Durante o jantar, Ricardo lhe contou sobre a região, sobre os desafios e as oportunidades do cultivo de café. Falou sobre a rivalidade entre as famílias de fazendeiros, sobre a influência política dos grandes cafeicultores e sobre a complexidade do sistema escravista que ainda moldava a sociedade.

— A região é bela, mas traiçoeira. Muitas vezes, o que parece prosperidade esconde dívidas e intrigas. E a competição é acirrada.

Clara sentiu que Ricardo falava com conhecimento de causa, talvez com uma ponta de amargura. Seus olhos, ao pronunciar essas palavras, carregavam uma melancolia profunda.

— O senhor parece conhecer bem essa… traiçoeira beleza. — Clara comentou, percebendo um tom de confidência em sua voz.

Ricardo sorriu, um sorriso triste.

— Minha família tem raízes profundas aqui, Clara. E nem todas as histórias são felizes. Minha mãe… ela era uma mulher forte. Amava este lugar. E ela também tinha seus segredos.

Ele fez uma pausa, seus olhos fixos em um ponto distante.

— Sabe, a Fazenda Estrela Cadente… ela pertencia a uma amiga dela. Dona Aurora. Uma mulher gentil, mas… com muitos inimigos. Acredita-se que sua morte não foi um acidente.

Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— Quem a teria matado?

— As especulações são muitas. Dívidas, disputas de terra… A família Vasconcelos sempre teve interesse em suas terras. E Dr. Horácio Neves… ele era um homem implacável.

Clara sentiu a teia de Vassouras se fechar ao seu redor. A Estrela Cadente não era apenas um investimento; era um lugar envolto em mistério, onde a ganância e a paixão haviam levado a uma tragédia. E ela, a dama do sertão, estava prestes a se envolver nesse perigoso jogo.

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