Sob o Céu de Ouro Velho
Sob o Céu de Ouro Velho
por Caio Borges
Sob o Céu de Ouro Velho
Capítulo 16 — O Segredo da Carta Roubada
O sol de Minas Gerais, implacável e dourado, banhava as ruas de Ouro Preto, pintando de um brilho febril os casarões coloniais e as igrejas barrocas. Para Clara, no entanto, aquele sol parecia ter perdido seu encanto. Seus dias haviam se tornado um borrão de ansiedade, de esperança e de um medo que roía sua alma como traça em seda antiga. A carta de seu irmão, Domício, enviada de Portugal, era um bálsamo e um veneno. Nele, o reconhecimento de sua legitimidade como herdeira, a promessa de retorno e a menção a um tesouro que poderia mudar o destino de sua família. Mas havia também um tom de urgência, um aviso velado sobre perigos iminentes, e a sugestão de que a carta era um segredo a ser guardado a sete chaves.
Ela relia as palavras de Domício pela milésima vez, os dedos delicados traçando a caligrafia elegante que lhe trazia tantas lembranças. Estava sentada em seu quarto, a janela aberta para o jardim, onde as roseiras desabrochavam em um profuso espetáculo de cores. A brisa, que antes trazia o perfume doce das flores, agora parecia sussurrar ameaças. O que Domício temia? Que perigos espreitavam em Ouro Preto, uma cidade que, apesar de sua riqueza, era também palco de intrigas e ambições desenfreadas?
“Clara?”
A voz de Mariana, melodiosa e preocupada, rompeu o silêncio. A aia, fiel companheira desde a infância, entrou no quarto com uma bandeja de prata onde repousava uma xícara de chá fumegante e algumas frutas frescas.
Clara dobrou a carta com cuidado e a guardou em um compartimento secreto de seu peito de costura. “Estava apenas… pensando, Mariana.”
Mariana aproximou-se, o olhar perspicaz varrendo o rosto de Clara. “Seu pensamento não lhe traz paz, minha menina. Sinto isso em seus olhos.”
Clara hesitou por um instante, lutando contra o impulso de compartilhar seu fardo. Mas Domício fora categórico: o segredo era apenas dela. “É apenas… a saudade de meu irmão. E a incerteza de seu retorno.”
“Domício é um homem forte e astuto”, disse Mariana, colocando a bandeja sobre a cômoda. “Ele saberá se cuidar. O que lhe aflige de verdade é outra coisa.” Seus olhos pousaram no peito de costura. “Essa carta que o trouxe de volta de Lisboa com tanto alvoroço… é dela que se trata?”
O coração de Clara deu um pulo. Ela sabia que não podia mentir para Mariana, mas também não podia desobedecer às ordens de Domício. “É uma carta dele, sim. Traz notícias… e conselhos.”
“Conselhos que a deixam pálida?” Mariana sentou-se na beira da cama, sua postura transmitindo conforto e sabedoria. “Fale-me, Clara. Talvez eu possa ajudar a clarear essa névoa em seu espírito.”
Clara suspirou, a necessidade de desabafar vencendo a prudência. “Domício me fala de um tesouro, Mariana. Algo que pode nos tirar desta situação precária. Mas ele também me adverte sobre… pessoas. Pessoas que não desejam nosso bem.”
Os olhos de Mariana se estreitaram ligeiramente. “Pessoas que não desejam o bem dos Lacerda? Em Ouro Preto, isso não é novidade. Mas quem, minha menina? Quem poderia ter tanto interesse em seu infortúnio?”
“Ele não especifica. Apenas diz para eu ter cuidado. Para não confiar em ninguém que se aproxime querendo saber sobre a herança ou sobre… antigas dívidas.”
O nome “Lacerda” ecoou na mente de Mariana, um nome outrora respeitado, agora envolto em desgraça e dívidas. Ela se lembrou do escândalo que levara o pai de Clara à ruína, das fofocas que correram pelas ruas como fogo em capim seco. Havia muitos que se beneficiavam da queda dos Lacerda, e muitos que poderiam desejar que a família jamais se reerguesse.
“Seu pai”, começou Mariana, com cautela, “ele tinha muitos desentendimentos com o Barão de Alvorada, não é mesmo? E com o Coronel Matias.”
Um arrepio percorreu a espinha de Clara. O Barão de Alvorada, um homem rico e influente, conhecido por sua crueldade e por sua ambição insaciável. E o Coronel Matias, um homem rude, mas com contatos perigosos no submundo da cidade. Ambos haviam prosperado com a queda dos Lacerda.
“Sim”, respondeu Clara, a voz embargada. “Eles eram… rivais. Mas Domício disse para eu ter cuidado com todos que se aproximam, sem exceção.”
Naquela mesma tarde, enquanto Clara tentava organizar seus pensamentos, uma sombra inesperada adentrou a senzala. Era Sinhá, uma escrava que trabalhava na casa do Barão de Alvorada, conhecida por sua língua afiada e por sua capacidade de ouvir o que não devia. Ela aproximou-se de Mariana com uma urgência discreta, os olhos arregalados em uma mistura de medo e excitação.
“Mariana, minha senhora”, sussurrou Sinhá, puxando a aia para um canto mais afastado. “Ouvi coisas. Na casa do Barão. Sobre a senhora Lacerda.”
Mariana sentiu o estômago gelar. “O que ouviu, Sinhá?”
“O Barão… ele andava falante. Diz que a herança dos Lacerda é sua por direito. Que ela deve ser dele, e não de crianças. E que ele sabe que a moça tem um documento. Um documento que prova tudo isso.” Sinhá engoliu em seco, o corpo tremendo. “Ele falou em… ‘recuperar o que é seu’. E que o Coronel Matias o ajudará a encontrar esse documento.”
O sangue de Mariana gelou. A carta de Domício. A carta que falava de um tesouro e de perigos. Era disso que Sinhá estava falando. O Barão de Alvorada e o Coronel Matias estavam atrás da carta. E, consequentemente, do que ela representava.
“E quando ele disse isso?”, perguntou Mariana, a voz tensa.
“Hoje de manhã. Ele estava discutindo com o Coronel Matias na sala de jantar. Pude ouvir de trás da porta da cozinha. O Barão estava furioso. Disse que não vai esperar mais. Que se a moça não entregar a carta voluntariamente, eles a tomarão.”
Mariana olhou para Clara, que voltara a se sentar perto da janela, absorvida em seus pensamentos. A inocência em seu semblante contrastava brutalmente com a ameaça iminente. A carta de Domício não era apenas uma promessa de salvação, mas um alvo que atraía a cobiça e a violência.
“Obrigada, Sinhá”, disse Mariana, recuperando a compostura. “Você fez um grande serviço. Continue a me informar de tudo o que ouvir.”
Sinhá assentiu, aliviada por ter cumprido sua missão, e desapareceu tão discretamente quanto havia chegado. Mariana voltou-se para Clara, o peso da verdade em seus ombros. Ela precisava agir, e precisava agir rápido. A carta, o segredo de Clara, agora era uma questão de vida ou morte. Aquele sol de ouro velho, que antes trazia a promessa de um futuro brilhante, agora parecia iluminar o perigo que se aproximava, disfarçado nas sombras da ambição e da crueldade.