Sob o Céu de Ouro Velho

Capítulo 17 — A Sombra do Barão

por Caio Borges

Capítulo 17 — A Sombra do Barão

A noite em Ouro Preto desceu como um manto escuro, pontilhado pelo brilho melancólico das estrelas e pelo cintilar bruxuleante das lamparinas. As ruas, outrora vibrantes com o burburinho do dia, agora ecoavam apenas os passos solitários de guardas e os lamentos distantes de cães vadios. Clara, porém, não conseguia encontrar o repouso que a escuridão prometia. Seu coração batia em um ritmo frenético, ecoando as palavras de Sinhá e os avisos de Domício. O Barão de Alvorada, aquele homem temido e respeitado, estava atrás da carta.

Ela se levantou da cama, a seda fina de seu roupão roçando o chão de madeira. Caminhou até a janela, o peito de costura cuidadosamente escondido sob o colchão de sua cama. O que fazer? Entregar a carta seria entregar a si mesma, a esperança de sua família, nas mãos de um homem sem escrúpulos. Guardá-la significava viver sob a ameaça constante de ser descoberta e roubada.

Mariana, que dormia em um aposento adjacente, foi alertada pelo movimento de Clara. A aia entrou no quarto silenciosamente, uma lamparina fraca em mãos, iluminando apenas um círculo íntimo de luz.

“Minha menina, não consegue dormir?”, perguntou Mariana, a voz suave, mas carregada de preocupação.

Clara se virou, o rosto pálido sob a luz trêmula. “Como poderia, Mariana? Se o Barão de Alvorada sabe da carta… ele não desistirá. Ele é um homem implacável.”

“É por isso que precisamos ser mais astutas”, disse Mariana, aproximando-se de Clara. “Ele pode ter o poder e a influência, mas nós temos algo que ele não possui: cautela e a verdade. Sinhá nos deu um aviso precioso. Agora precisamos agir.”

“Mas como? Se ele virá nos buscar, onde podemos nos esconder? E a carta… como protegê-la?” Clara sentia-se pequena diante da magnitude da ameaça.

Mariana colocou uma mão reconfortante no ombro de Clara. “Não se desespere. O Barão é poderoso, mas seus métodos são conhecidos. Ele prefere a intimidação e a negociação forçada. Ele não ousaria invadir esta casa à luz do dia, não sem ter uma desculpa formal. Mas à noite… à noite, tudo é possível.”

Um silêncio pesado se instalou entre elas, quebrado apenas pelo som distante de um sino marcando as horas. Clara sentiu um arrepio de medo. Ela lembrou-se das histórias que ouvira sobre a violência do Barão, sobre como ele lidava com seus inimigos.

“Ele é capaz de qualquer coisa”, sussurrou Clara, as palavras carregadas de pavor.

“E nós também devemos ser”, respondeu Mariana, sua voz adquirindo um tom de firmeza que Clara raramente ouvira. “Temos que ser mais esperta que ele. Onde ele esperaria que guardássemos algo tão valioso?”

Clara pensou no peito de costura, no esconderijo sob o colchão. Eram os lugares mais óbvios. Lugares que o Barão revistaria primeiro.

“Ele vai revistar tudo”, disse Clara, quase sem esperança.

“Sim, se ele chegar a esse ponto. Mas antes disso, ele tentará outras formas. Ele pode vir aqui pessoalmente, fingindo preocupação, oferecendo ajuda. Ou pode enviar alguém de confiança. O Coronel Matias, por exemplo.”

A menção ao Coronel Matias fez Clara estremecer. Um homem com um olhar frio e um sorriso que não alcançava os olhos. Ele representava a face mais sombria da justiça, aquela que se curvava à ganância.

“E se ele vier?”, perguntou Clara, a voz quase inaudível.

“Receberemos com polidez. Responderemos com evasivas. E esperaremos. Mas não podemos depender apenas da sorte, minha menina. A carta é a nossa única esperança, e o nosso maior perigo. Precisamos de um lugar mais seguro para ela.”

Mariana olhou ao redor do quarto, seus olhos buscando uma solução no ambiente familiar. A casa Lacerda, outrora um lar próspero, agora carregava as marcas da decadência. Os móveis antigos, as tapeçarias desbotadas, os quadros empoeirados. Havia muitos esconderijos potenciais, mas nenhum que fosse verdadeiramente seguro contra a persistência do Barão.

“E se… e se a entregássemos a alguém?”, sugeriu Clara, uma faísca de esperança em seus olhos. “Alguém em quem possamos confiar?”

Mariana pensou nas poucas pessoas que ainda mantinham um resquício de lealdade à família Lacerda. O Padre Antônio, talvez? Um homem de Deus, mas também um homem de mundo, com ligações fortes na comunidade. Ou o velho Mestre Afonso, o boticário, um homem discreto e sábio, que guardara muitos segredos ao longo dos anos.

“O Padre Antônio é uma opção, mas ele é muito exposto. Todos conhecem sua ligação com a antiga nobreza”, ponderou Mariana. “O Mestre Afonso… ele é mais discreto. E tem um conhecimento profundo de Ouro Preto, de seus recantos e de seus segredos.”

“Mas ele aceitaria? É um fardo pesado, Mariana.”

“Mestre Afonso respeitava seu pai, Clara. E ele sabe que essa carta pode significar a salvação de sua família. Se explicarmos a urgência e o perigo, acredito que ele nos ajudará.”

Um plano começou a se formar em suas mentes. Na manhã seguinte, sob o pretexto de comprar ervas medicinais, Clara e Mariana iriam até a botica do Mestre Afonso. Lá, em segredo, entregariam a carta.

Enquanto discutiam os detalhes, um ruído no corredor fez ambas sobressaltarem. Eram passos. Passos pesados, não os de Mariana.

“Quem está aí?”, chamou Mariana, a voz tensa.

O silêncio se seguiu. Clara sentiu um frio na espinha. Seria o Barão? Seria o Coronel Matias? O medo a paralisou.

Os passos se aproximaram da porta. Clara prendeu a respiração. Mariana, com uma coragem surpreendente, empurrou Clara para trás da cortina da janela e agarrou a lamparina, pronta para qualquer eventualidade.

A maçaneta girou lentamente. A porta se abriu, revelando a figura imponente do Barão de Alvorada, o rosto iluminado pela luz fraca da lamparina de Mariana. Ele estava acompanhado por dois homens musculosos, com rostos impassíveis e mãos que pareciam acostumadas a atos violentos.

“Boa noite, Dona Clara”, disse o Barão, sua voz com um tom de falsa cortesia que não enganava ninguém. “Espero não a ter incomodado em sua paz noturna. Vim pessoalmente para… oferecer meus préstimos.”

Clara emergiu lentamente de trás da cortina, o coração martelando contra as costelas. Mariana permaneceu ao seu lado, um escudo silencioso.

“Barão”, disse Clara, a voz firme, apesar do tremor interno. “O que deseja a esta hora da noite?”

“Nada além de sua segurança, minha cara. Ouvi dizer que a senhora tem em mãos um documento de grande importância. Um documento que pode resolver as pendências de sua família. E temo que haja pessoas menos… escrupulosas… que desejem tomar o que não lhes pertence.” O Barão sorriu, um sorriso frio e calculista. “Eu me ofereço para protegê-la. E, se a senhora me confiar esse documento, posso garantir que ele será bem cuidado. E que seu futuro, e o de sua família, estará assegurado.”

Clara olhou para o Barão, sentindo o peso do olhar dos homens que o acompanhavam. Ela sabia que ali não havia oferta de ajuda, mas sim uma ameaça velada. Ele queria a carta, e não hesitaria em usá-la para obter o que desejava.

“Agradeço sua preocupação, Barão”, respondeu Clara, escolhendo suas palavras com extremo cuidado. “Mas não tenho nenhum documento de importância em minhas mãos. Apenas recordações de meu pai e de meus pertences pessoais.”

O Barão de Alvorada deu um passo à frente, seus olhos fixos em Clara. A falsa gentileza desapareceu, dando lugar a uma expressão de impaciência e ameaça.

“Não me venha com rodeios, Dona Clara. Eu sei que você tem a carta. E eu a quero. Se não a entregar voluntariamente, terei que tomá-la. E acredite, a forma como a tomarei pode não ser tão agradável para você.”

O ar no quarto tornou-se denso, carregado de perigo. O sol de ouro velho, que parecia prometer um futuro brilhante, agora parecia apenas iluminar a escuridão que se abatia sobre Clara, a sombra do Barão de Alvorada pairando sobre sua vida, ameaçando engolir toda a esperança que ela guardava em seu coração.

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