Sob o Céu de Ouro Velho

Capítulo 18 — O Refúgio do Boticário

por Caio Borges

Capítulo 18 — O Refúgio do Boticário

O confronto com o Barão de Alvorada deixou Clara em um estado de choque, a adrenalina correndo por suas veias como um rio selvagem. As palavras ameaçadoras do Barão, o olhar penetrante dos homens que o acompanhavam, tudo ecoava em sua mente, transformando a noite em um pesadelo acordado. Mariana, sentindo a fragilidade de sua protegida, a guiou de volta para a cama, cobrindo-a com um cobertor espesso, como se pudesse protegê-la das sombras que agora assombravam a casa.

“Ele virá de novo, Mariana”, sussurrou Clara, a voz trêmula. “Ele não vai desistir.”

“Não desistirá, minha menina. Mas nós também não. O plano do Mestre Afonso é a nossa única esperança agora.” Mariana sentou-se na beirada da cama, a lamparina lançando sombras dançantes nas paredes. “Precisamos ser rápidas. Ao amanhecer, assim que tivermos certeza de que o Barão se foi, iremos até a botica. Temos que colocar a carta em um lugar seguro antes que ele retorne.”

A noite se arrastou lentamente, pontuada pelos ruídos da casa e pelos pensamentos sombrios que assaltavam Clara. Ela imaginava o Barão de Alvorada, com seu sorriso cruel, tramando seus próximos passos. Imaginava o Coronel Matias, o capanga implacável, pronto para executar suas ordens. Ouro Preto, a cidade que outrora representava a promessa de um recomeço, agora parecia um labirinto de perigos, onde cada sombra escondia uma ameaça.

Ao primeiro raio de sol que rompeu a escuridão, tingindo o céu de tons rosados e alaranjados, Clara e Mariana já estavam de pé. Com cautela, espiaram pela janela. A carruagem do Barão de Alvorada havia partido, deixando para trás apenas a quietude tensa da manhã.

“É agora”, disse Mariana, a voz firme. “Vista-se, Clara. E traga a carta. Apenas a carta.”

Clara obedeceu, o coração acelerado. Com mãos trêmulas, desenterrou o peito de costura e retirou a carta de Domício. O papel parecia mais frágil do que nunca, um testemunho da fragilidade de sua situação. Enrolou-a firmemente e a escondeu em um compartimento secreto de seu vestido, próximo ao corpo, como se pudesse protegê-la com seu próprio calor.

Vestida com um xale discreto e um chapéu de abas largas, Clara seguiu Mariana pelas ruas de Ouro Preto. A cidade, acordando para um novo dia, parecia alheia ao perigo que a cercava. Os mercadores abriam suas lojas, os escravos carregavam cestos de mercadorias, e as crianças corriam pelas calçadas, alheias às intrigas que se desenrolavam nas sombras.

A botica do Mestre Afonso era um pequeno refúgio de tranquilidade em meio à agitação da cidade. O aroma de ervas secas, resinas e especiarias pairava no ar, criando uma atmosfera de paz e sabedoria. Mestre Afonso, um homem de cabelos brancos e barba rala, com olhos que pareciam ter visto séculos de história, estava atrás do balcão, organizando seus frascos.

“Bom dia, Dona Clara, Mariana”, disse ele, um leve sorriso iluminando seu rosto enrugado. “O que os traz à minha humilde botica nesta bela manhã?”

Mariana trocou um olhar com Clara. Era a hora. “Mestre Afonso”, começou Mariana, a voz baixa e séria, “precisamos de sua ajuda. De um favor de extrema importância e urgência.”

Mestre Afonso ergueu uma sobrancelha, percebendo a gravidade em suas palavras. “Falem, minhas senhoras. O que vos aflige?”

Clara deu um passo à frente, seus olhos encontrando os do boticário. “Tenho aqui”, disse ela, retirando a carta de seu vestido, “um documento. Uma carta de meu irmão, Domício. Ela contém informações vitais para o futuro de nossa família. E, infelizmente, há pessoas que cobiçam o que ela revela. Pessoas perigosas.”

Ela estendeu a carta para Mestre Afonso. Ele a pegou com reverência, seus dedos delicados desdobrando o papel com cuidado. Seus olhos percorreram as linhas, a expressão tornando-se cada vez mais séria.

“Domício… sim, lembro-me dele. Um jovem astuto. E a herança dos Lacerda… um fardo pesado para carregar em tempos difíceis.” Ele ergueu os olhos para Clara. “Você fala de perigo. Quem são essas pessoas?”

“O Barão de Alvorada”, respondeu Clara, a voz embargada. “Ele esteve em nossa casa ontem à noite. Ele sabe que tenho a carta e a quer a qualquer custo. Ele ameaçou tomá-la.”

Mestre Afonso suspirou, um som que parecia carregar o peso de todos os segredos de Ouro Preto. “O Barão de Alvorada… um lobo em pele de cordeiro. Ele se beneficia da desgraça alheia. Sei de suas artimanhas.” Ele olhou para a carta novamente, depois para Clara. “Este documento é a sua única esperança. E, se ele cair nas mãos do Barão, será a sua perdição.”

“É por isso que pedimos sua ajuda, Mestre Afonso”, implorou Mariana. “Precisamos que guarde esta carta. Em um lugar onde o Barão jamais a encontrará.”

Mestre Afonso ponderou por um momento, seus olhos perscrutando os rostos ansiosos de Clara e Mariana. Ele sabia dos riscos. Se o Barão descobrisse que ele estava protegendo Clara, sua própria vida e seu negócio estariam em perigo. Mas ele também sabia do que era capaz a família Lacerda, e de como a injustiça havia corroído seu nome.

“A casa de um boticário é um lugar de muitos esconderijos”, disse ele, finalmente. “Ervas secas, poções secretas, recipientes de todos os tamanhos… mas para um homem como o Barão, nada disso seria um obstáculo. Precisamos de algo mais seguro.”

Ele caminhou até os fundos da loja, onde estantes altas guardavam frascos e potes de todos os tipos. Parou diante de um grande tonel de madeira, que continha uma resina especial, usada em rituais de purificação.

“Esta resina”, explicou Mestre Afonso, “é rara e de difícil obtenção. Não é algo que um homem como o Barão se daria ao trabalho de procurar. E a carta, bem protegida dentro de um invólucro especial que farei, pode ser colocada aqui, sob a resina. Ninguém jamais pensaria em procurar em um tonel de resina malcheirosa.”

Ele voltou ao balcão e pegou um pequeno rolo de pergaminho e um fio de seda. Com habilidade, enrolou a carta de Domício firmemente e a amarrou com o fio. Clara observava, o coração apertado, mas com uma centelha de esperança.

“Agora, Clara”, disse Mestre Afonso, entregando a ela o pequeno rolo. “Seu papel é o mais importante. Você deverá colocá-la no tonel, e eu a selarei com a resina. E, quando o perigo passar, você virá buscá-la.”

Clara pegou o rolo, sentindo o peso da responsabilidade. Ela sabia que estava confiando o futuro de sua família nas mãos de um estranho, mas um estranho que demonstrava bondade e sabedoria.

Com passos hesitantes, ela se dirigiu ao tonel e, com um suspiro, deixou o rolo cair em seu interior. Mestre Afonso, com a agilidade de um jovem, pegou uma pá e começou a cobrir o rolo com a resina espessa e escura.

“Pronto”, disse ele, limpando as mãos em um pano. “Está segura. E lembre-se, minha jovem, a paciência é uma virtude que a salvação exige. Não se apresse em recuperá-la. Espere o momento certo.”

Clara sentiu um alívio imenso inundá-la, embora uma pontada de ansiedade permanecesse. A carta estava segura, mas ela estava agora separada de sua única esperança.

“Muito obrigada, Mestre Afonso”, disse ela, a voz embargada de gratidão. “Salvou-me de um grande perigo.”

“Não a mim, Dona Clara. Salvou a si mesma. E a lembrança de seu pai. Agora, vão. E estejam atentas.”

Ao saírem da botica, o sol de ouro velho já estava alto no céu, banhando Ouro Preto com seu brilho familiar. Mas para Clara, aquele sol agora trazia uma nova perspectiva. Ele iluminava não apenas a beleza da cidade, mas também os perigos que se escondiam em suas sombras. A carta estava escondida, o Barão de Alvorada frustrado por ora, mas a luta pela herança, pela verdade e pelo futuro, estava apenas começando. E Clara sabia que, agora mais do que nunca, precisaria de toda a sua coragem e astúcia para sobreviver sob o céu de ouro velho.

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