Sob o Céu de Ouro Velho
Capítulo 19 — O Dilema do Padre
por Caio Borges
Capítulo 19 — O Dilema do Padre
O silêncio na casa Lacerda era mais pesado do que nunca. Clara, com a carta agora guardada no refúgio seguro da botica de Mestre Afonso, sentia um misto de alívio e apreensão. O perigo imediato parecia ter sido afastado, mas a ameaça do Barão de Alvorada pairava como uma nuvem escura no horizonte. A cada batida do coração, ela se lembrava do olhar frio do Barão e das palavras que o acompanhavam.
Mariana, percebendo a inquietude de Clara, tentava mantê-la ocupada com tarefas domésticas, mas seus olhos também denunciavam a preocupação. A aia sabia que a segurança da carta era apenas uma parte da batalha. A verdadeira luta seria provar a legitimidade de Clara e reivindicar o que era seu por direito.
Naquela tarde, o sino da igreja matriz tocou, anunciando a missa das cinco. Clara, sentindo uma necessidade de buscar consolo e orientação, decidiu comparecer. Ao chegar à igreja, encontrou o Padre Antônio, um homem de meia-idade com uma face bondosa e um olhar que transbordava compaixão, organizando os bancos.
“Dona Clara, que grata surpresa vê-la na casa de Deus”, disse o Padre Antônio, com um sorriso acolhedor. “Faz tempo que não a vejo por aqui. Algum motivo especial a traz?”
Clara hesitou por um momento. O Padre Antônio era um homem de confiança, um amigo da família Lacerda em tempos melhores. Mas as palavras de Domício sobre ter cuidado com todos que se aproximam ainda ressoavam em sua mente. No entanto, a necessidade de compartilhar seu fardo era grande.
“Padre, tenho enfrentado tempos difíceis. E preciso de um conselho… e, talvez, de um amigo em quem confiar.”
O Padre Antônio convidou-a a sentar-se em um dos bancos da nave principal, longe dos ouvidos indiscretos. “Diga-me, minha filha. O que a aflige tanto?”
Com a voz embargada, Clara começou a relatar os acontecimentos recentes: a carta de Domício, a promessa de uma herança, a ameaça do Barão de Alvorada e o fato de ter escondido a carta com Mestre Afonso.
O Padre Antônio ouviu atentamente, seu semblante mudando de serenidade para preocupação. Ao ouvir o nome do Barão de Alvorada, seus olhos se estreitaram.
“O Barão de Alvorada… sim, é um homem de muitos recursos e pouca moralidade”, disse o Padre Antônio, sua voz baixa e grave. “Se ele sabe da carta, então o perigo é real. E Mestre Afonso é um homem sábio e discreto. Se ele aceitou guardar o documento, então ele está seguro por ora.”
“Mas o que devo fazer agora, Padre?”, perguntou Clara, a esperança em seus olhos. “Como posso provar meu direito? Como posso reivindicar o que é meu?”
O Padre Antônio suspirou, alisando a barba. “Este é o dilema, Clara. A lei em tempos de crise é um emaranhado de interesses e vontades. O Barão de Alvorada tem influência, tem dinheiro, e tem contatos que podem distorcer a justiça a seu favor. Seu pai, em sua generosidade, deixou muitas dívidas, e isso pode ser usado contra você.”
“Mas a carta de Domício… ela prova tudo! Prova que sou a única herdeira legítima, e que há bens que não foram considerados na falência.”
“E é exatamente isso que o Barão quer impedir. Se essa carta se tornar pública, ele perderá o controle sobre o que ele considera ser seu, ou o que ele ajudou a tomar.” O Padre Antônio olhou para Clara com compaixão. “Eu posso falar com o Barão, tentar apaziguar os ânimos, mas não tenho garantias de que ele me ouvirá. Ele é um homem obstinado e cruel.”
Clara sentiu um nó na garganta. A proteção do Padre Antônio seria valiosa, mas ela sabia que ele, como todos em Ouro Preto, estava sujeito à influência do Barão.
“E se… e se o Coronel Matias?”, perguntou Clara, lembrando-se do nome mencionado por Sinhá. “Ele parece ser um homem com quem o Barão tem dealings.”
O Padre Antônio estremeceu levemente. “O Coronel Matias é um homem perigoso, Clara. Um ex-militar desonrado, que se tornou um mercenário. Ele não tem escrúpulos. Se o Barão o contratar, ele fará o que for preciso para obter a carta. E ele não se importa com a lei, nem com a moralidade.”
Clara sentiu o peso do desespero. Cada caminho que ela imaginava parecia levar a um beco sem saída. O ouro velho de Ouro Preto, que outrora representava prosperidade, agora parecia a cor da ganância e da desgraça.
“Talvez Domício tenha um plano mais concreto quando retornar”, disse o Padre Antônio, tentando soar otimista. “Ele é um homem inteligente e sabe como lidar com essas situações.”
“Mas e se ele não retornar a tempo, Padre? E se o Barão me encontrar antes?” A voz de Clara estava carregada de angústia. Ela sabia que a carta estava segura com Mestre Afonso, mas ela mesma não estava.
O Padre Antônio colocou a mão sobre a de Clara. “Tenha fé, minha filha. Acredite que a verdade prevalecerá. E, se precisar de refúgio, saiba que a igreja sempre estará de portas abertas para os necessitados. Mas, por enquanto, seja discreta. Evite o Barão e seus homens. E confie em quem você sabe que é leal.”
Clara assentiu, sentindo um leve conforto na promessa de refúgio. Mas a incerteza sobre o futuro a consumia. A carta de Domício era a sua salvação, mas também a colocava em perigo constante.
Ao sair da igreja, o sol da tarde lançava longas sombras pelos casarões coloniais. Clara sentiu-se observada. Olhou em volta, mas não viu ninguém suspeito. Apenas as rotineiras atividades da cidade. No entanto, uma sensação de vigilância pairava no ar.
De volta à casa, Mariana a esperava com um semblante preocupado. “O que o Padre Antônio disse, minha menina?”
“Ele me aconselhou a ter cuidado e me ofereceu refúgio na igreja, se necessário. Mas ele também confirmou meus receios. O Barão é implacável, e o Coronel Matias é um perigo ainda maior.”
Mariana suspirou. “Parece que estamos cercadas, Clara. Mas não podemos nos entregar. A carta está segura. E Domício virá. Temos que acreditar nisso.”
Clara olhou para a janela, observando o céu de ouro velho que se preparava para dar lugar à noite. As cores vibrantes do crepúsculo, que antes a encantavam, agora pareciam tingidas de perigo. Ela se perguntava se Domício estaria bem, se sua jornada de volta a Ouro Preto seria segura.
Naquela noite, enquanto Clara tentava descansar, uma figura sombria se esgueirava pelas ruas estreitas de Ouro Preto. Era o Coronel Matias. Ele não era um homem de missas ou de conselhos espirituais. Era um homem de ação, de violência, e de dinheiro. O Barão de Alvorada havia lhe feito uma proposta irrecusável: encontrar e recuperar a carta de Domício Lacerda, em troca de uma quantia considerável de ouro.
Matias não se importava com a legitimidade da herança ou com a inocência de Clara. Seu interesse era puramente financeiro. Ele sabia que o Barão era um homem perigoso para se ter como inimigo, mas também sabia que o dinheiro era o único Deus que ele servia.
Ele havia observado a casa Lacerda desde o dia anterior. Sabia que o Barão havia feito uma visita noturna, e que Clara havia se recusado a entregar o documento. Isso apenas aumentou seu interesse. Se o Barão estava tão desesperado, a carta deveria conter algo realmente valioso.
Seus olhos percorreram a fachada da casa, buscando um ponto vulnerável. A janela do quarto de Clara, que ele sabia estar geralmente aberta para o jardim, parecia a entrada mais promissora. O Padre Antônio e Mestre Afonso eram preocupações secundárias no momento. O foco era Clara e a carta. E ele estava determinado a obtê-la. A noite em Ouro Preto se tornava mais sombria, e os planos do Coronel Matias, a sombra que se aproximava da esperança de Clara.