Sob o Céu de Ouro Velho

Capítulo 2 — O Convite e a Resistência

por Caio Borges

Capítulo 2 — O Convite e a Resistência

Sofia sentia o peso do silêncio naquela casa que, outrora, fora repleta de risadas e da melodia do cravo que sua mãe tocava. Agora, as salas amplas do casarão das Pedras Negras pareciam ecoar apenas a melancolia e a apreensão. Desde a morte do pai, o Coronel Manuel de Albuquerque, cinco anos atrás, a vida se tornara uma luta constante contra as adversidades. A terra, antes fértil, teimava em secar sob o sol impiedoso do sertão, e as dívidas se acumulavam como nuvens de gafanhotos.

Naquela tarde, Sofia estava em seu quarto, um refúgio de paz em meio à angústia que pairava no ar. As janelas emolduravam um céu de um azul vibrante, tingido de tons alaranjados pelo pôr do sol iminente. As flores do seu pequeno jardim, ressequidas pela estiagem, ainda ostentavam a bravura de algumas pétalas teimosas. Ela dedilhava as cordas de sua viola, uma melodia suave e melancólica escapando de seus dedos. Era uma canção de amor, mas um amor que ela ainda não conhecia, um amor que parecia mais um sonho distante do que uma realidade palpável.

A porta se abriu com delicadeza e D. Leonor adentrou o quarto, o semblante carregado. Em suas mãos, trazia um convite bordado em ouro, um documento que, para Sofia, parecia um decreto de condenação.

"Sofia, minha filha", começou Leonor, a voz embargada pela emoção contida. Ela sentou-se na beirada da cama de dossel, os olhos azuis, tão semelhantes aos da filha, fixos nas mãos que repousavam sobre a viola.

Sofia ergueu os olhos, a curiosidade misturada a uma ponta de receio. "Mãe? O que é isso?"

Leonor estendeu o convite. "É um convite. Para o baile de noivado. Com o Dr. Matias de Andrade." As palavras soaram como um suspiro.

Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele nome, Matias de Andrade, já lhe era familiar. Seu primo Afonso, em suas cartas, mencionara o sobrinho em ocasiões anteriores, descrevendo-o como um homem de posses, respeitado, um futuro promissor. Mas a ideia de um noivado, de um casamento… tão repentino, tão… imposto.

"Noivado, mãe? Mas eu… eu nem o conheço!", exclamou Sofia, a voz trêmula. A viola escorregou de seu colo e caiu no chão com um baque surdo, mas ela mal notou.

"Eu sei, minha filha. É tudo muito rápido. Mas as circunstâncias… as nossas circunstâncias… não nos deixam muitas opções." Leonor pegou a mão de Sofia, suas unhas bem cuidadas contrastando com as dela, mais curtas e marcadas pelo trabalho. "Seu irmão Miguel está decidido a ir para as Minas Gerais. Eu não posso permitir que ele vá. Ele é nosso único sustento. E se ele for, e se não voltar… o que será de nós?"

"Mas casar, mãe? Eu sou tão jovem!", Sofia implorou, as lágrimas começando a se formar em seus olhos. Ela olhava para o convite, as letras douradas parecendo zombar de sua juventude roubada. "Eu não quero me casar! Eu quero… eu quero viver! Eu quero cantar!"

"E você viverá, meu amor. E cantará. Mas a vida de uma mulher casada é diferente. O Dr. Andrade é um homem de posses. Ele poderá lhe dar um futuro seguro, uma vida confortável. Uma vida que eu não posso mais garantir aqui." A voz de Leonor era um misto de desespero e resignação. Ela sabia que estava sacrificando a felicidade imediata de sua filha em nome da segurança a longo prazo.

"Mas eu não o amo, mãe! Como posso me casar com um homem que não amo?" A pergunta ecoou no quarto, carregada de dor.

Leonor abraçou a filha com força, o cheiro suave do perfume de Sofia invadindo seus sentidos. "O amor… o amor vem com o tempo, Sofia. A admiração, o respeito, a companhia… são bases sólidas para um casamento. E eu confio em meu primo. Ele não me ofereceria um homem que não fosse digno."

"Mas e se ele não for o homem certo? E se ele me tratar mal? Se ele não me entender?", Sofia sussurrou, enterrando o rosto no ombro da mãe. Ela se sentia aprisionada, como um pássaro em uma gaiola dourada.

"Eu terei conversado com ele. E a mim me parece um homem honrado. E Miguel… ele sabe dos seus planos. Ele ficará furioso. Mas eu não posso deixá-lo ir." Leonor suspirou. "Seu irmão é impulsivo. Ele pensa que encontrar ouro é fácil. As Minas Gerais são um lugar perigoso, Sofia. Eu não quero que ele se perca lá."

"Miguel é bom, mãe. Ele só… ele quer nos proteger. Ele não quer que eu seja vendida como uma mercadoria." As palavras de Sofia soaram amargas.

"Ninguém está vendendo ninguém, Sofia. Estamos garantindo o seu futuro. E o nosso." Leonor afastou-se um pouco, olhando nos olhos da filha. "Pense nisso com calma. Amanhã conversaremos melhor. Eu preciso que você entenda. Que você me ajude."

Sofia assentiu, incapaz de falar. Ela sentiu um nó na garganta, a tristeza transbordando em lágrimas silenciosas. A melodia que antes tocava em sua viola agora parecia um lamento.

Naquela noite, o baile de noivado de Sofia era o único assunto nos salões do casarão. A notícia se espalhara como fogo em palha seca, dividindo opiniões. Enquanto alguns parabenizavam D. Leonor por assegurar um futuro tão promissor para sua filha e para a família, outros cochichavam sobre a pressa, sobre a falta de sentimento em um enlace tão rápido.

Miguel, como esperado, explodiu. Ele invadiu o salão principal, onde Leonor recebia os convidados, com a fúria estampada no rosto. "Mãe! O que você fez? Como pôde prometer a minha irmã a um estranho sem sequer perguntar a ela?"

Leonor suspirou, a dor em seus olhos visível, mas sua voz manteve a firmeza. "Miguel, este não é o lugar nem o momento. Eu agi pensando no nosso bem."

"No nosso bem? Ou no seu medo?", Miguel retrucou, a voz alta o suficiente para ser ouvida por todos. Um silêncio constrangido se instalou no salão. "Você está jogando a felicidade de Sofia no lixo! Você não pode fazer isso!"

"Eu posso, Miguel. E fiz. E você não tem mais o que dizer sobre isso", respondeu Leonor, sua voz fria como o aço. Ela não permitiria que Miguel arruinasse o que ela considerava a única chance de salvação.

Miguel a encarou, a decepção e a raiva lutando em seu olhar. Ele viu em sua mãe uma frieza que o assustou. Ele amava Sofia mais do que tudo. A ideia de vê-la presa a um homem que ela não conhecia, por necessidade, era insuportável. Ele virou-se abruptamente e saiu do salão, o som de seus passos ecoando no silêncio.

Sofia, que assistia à cena de um canto, sentiu uma pontada de culpa e apreensão. Ela sabia que Miguel a defendia, mas também sabia que sua mãe estava desesperada. Ela se sentia dividida entre a lealdade ao irmão e a obediência à mãe.

Mais tarde, em seu quarto, Sofia recebeu a visita de Miguel. Ele estava mais calmo, mas a mágoa ainda era visível em seus olhos. Ele se sentou ao lado dela na cama.

"Sofia, me perdoe por ter falado daquela maneira na frente de todos. Mas eu não posso aceitar isso. Não posso ver você se casar infeliz."

Sofia acariciou o rosto do irmão. "Eu sei, Miguel. E eu agradeço por você se importar tanto comigo. Mas… mãe está sofrendo. E eu também. Talvez… talvez não seja tão ruim assim."

"Sofia! Como você pode dizer isso? Você nem o conhece!", Miguel exclamou, inconformado. "Eu não vou deixar que isso aconteça. Eu vou para as Minas Gerais. Eu vou encontrar ouro e voltarei rico. E então você não terá mais que se preocupar com dívidas ou com casamentos arranjados. Você será livre para amar quem quiser."

Sofia o olhou, um misto de esperança e medo em seus olhos. Ela sabia do desejo de Miguel de ir para as minas, de seu sonho de riqueza rápida. Mas ela também sabia dos perigos. "Miguel, tome cuidado. Por favor. Se for, prometa-me que vai se cuidar."

"Eu prometo, irmãzinha. E voltarei para você. E quando eu voltar, você estará livre. Livre para escolher seu destino." Miguel abraçou Sofia com força. Ele sentiu a fragilidade dela, a resignação que começava a se instalar. Mas ele também sentiu a força que ela, apesar de tudo, ainda possuía.

Naquela noite, a lua cheia banhava o sertão com sua luz prateada, mas para Sofia, a escuridão parecia ter engolido o brilho. O convite bordado em ouro jazia sobre sua mesa de cabeceira, um lembrete cruel de um futuro incerto. Ela fechou os olhos, tentando encontrar consolo na melodia que antes tocava em sua viola, mas agora, apenas o silêncio parecia responder ao seu lamento. A promessa de um noivado, tecida em fios de desespero e necessidade, pairava sobre ela como a tempestade que havia assolado o sertão. E Sofia, em sua juventude e fragilidade, sentia-se presa em meio a ela, sem saber se conseguiria encontrar a calmaria.

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