Sob o Céu de Ouro Velho

Sob o Céu de Ouro Velho

por Caio Borges

Sob o Céu de Ouro Velho

Romance Histórico Colonial

Autor: Caio Borges

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Capítulo 21 — O Segredo da Capela Esquecida

O sol da manhã, preguiçoso e dourado, espreguiçava-se pelos telhados de Ouro Velho, pintando com tons de âmbar as ruas de terra batida. No entanto, a beleza efêmera da aurora mal tocava a alma de Isabela. Ainda em choque pela audácia de seu pai, o Barão de Alencar, e pela crueldade que ele demonstrara, ela mal conseguira dormir. Os lençóis de linho fino pareciam sufocá-la, e o cheiro adocicado das flores do cerrado, que invadia o quarto pelas janelas abertas, trazia-lhe mais agonia do que conforto. Na noite anterior, a revelação de que o Barão mandara armar uma emboscada para Joaquim, o homem que ela amava com a força de uma tempestade tropical, a deixara em frangalhos. A imagem de seu pai, um homem outrora admirado por sua astúcia e sabedoria, agora se desfazia em sua mente, revelando um tirano impiedoso, incapaz de qualquer piedade.

O plano de fuga, arquitetado com a ajuda do boticário Mestre Antero e do Padre Inácio, fora sua última esperança. O refúgio na capela abandonada, um lugar esquecido pelo tempo e pela fé, parecia a única salvação. Mestre Antero, com sua sabedoria peculiar e um coração maior que sua pequena botica, havia providenciado um esconderijo seguro, um porão oculto sob o altar em ruínas. Padre Inácio, dividido entre a obediência à Igreja e a compaixão pelo sofrimento de Isabela, finalmente cedera, concedendo-lhes a bênção e a chave da capela.

Ao amanhecer, Isabela se vestiu com as roupas simples que Mestre Antero lhe trouxera, um vestido de algodão cru que contrastava violentamente com as sedas e rendas a que estava acostumada. Deixou para trás o conforto luxuoso de sua mansão, o cheiro de incenso e o som distante das missas para abraçar o cheiro de terra úmida e a promessa de liberdade, ainda que incerta.

Mestre Antero a esperava nos fundos da propriedade, montado em seu jumento, com uma trouxa de mantimentos amarrada na garupa. Seus olhos, por trás dos óculos grossos, transbordavam uma preocupação silenciosa, mas sua voz, quando falou, era firme.

"Pronta, minha jovem? O caminho é longo e a noite ainda carrega suas sombras. Mas a esperança, essa é uma luz que ninguém pode apagar."

Isabela assentiu, um nó na garganta impedindo-a de articular palavras. A gravidade do momento pesava sobre ela, mas a lealdade de Mestre Antero era um bálsamo para sua alma ferida.

"O Padre Inácio disse que o local é seguro, mas devemos ter cautela", continuou o boticário, ajeitando o chapéu de abas largas. "O Barão é um homem astuto. Não podemos subestimar sua fúria."

A jornada até a capela foi silenciosa, interrompida apenas pelo trotar cadenciado do jumento e pelo chilrear dos pássaros que anunciavam o novo dia. A paisagem se transformou gradualmente. As fazendas imponentes de gado e cana-de-açúcar deram lugar a matas mais densas, com árvores retorcidas e cipós que se entrelaçavam como serpentes adormecidas. O ar ficou mais úmido, o perfume das flores silvestres mais intenso.

Ao chegarem, a capela se materializou diante deles, um esqueleto de pedra desgastada pelo tempo, aninhada em uma clareira isolada, cercada por um matagal que parecia engoli-la. As paredes desmoronadas, o telhado em parte caído, o campanário silencioso – tudo denunciava um abandono profundo. Era um lugar de beleza melancólica, onde a fé outrora fervorosa deixara apenas o eco de antigas orações.

Padre Inácio os aguardava na entrada, a túnica escura em contraste com a luz vibrante que filtrava pelas frestas. Ele parecia mais velho, as linhas de preocupação marcadas em seu rosto.

"Graças a Deus chegaram em segurança", disse ele, a voz embargada pela emoção. "O Senhor sabe o quanto rezei por vocês."

Ele os conduziu para dentro da capela. O interior era escuro e empoeirado, com o cheiro característico de mofo e terra. Um altar de pedra simples se erguia no centro, coberto por teias de aranha e folhas secas. A luz que entrava pelas janelas quebradas criava feixes fantasmagóricos no ar.

"Aqui, o tempo parou", murmurou Isabela, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Era um lugar de desolação, mas também de um estranho conforto. Era um lugar onde ninguém a procuraria.

Padre Inácio se ajoelhou diante do altar, a mão hesitante sobre a pedra fria. "O porão é logo ali", disse ele, apontando para uma pedra ligeiramente deslocada no chão, atrás do altar. "É um esconderijo antigo, usado pelos primeiros colonos quando fugiam de ataques. Ninguém mais se lembra dele."

Com um esforço conjunto, eles removeram a pedra. Uma escada rústica de madeira descia para a escuridão. O ar que subia era frio e úmido, com um odor terroso e úmido.

"Este é o seu refúgio, Isabela", disse o Padre, com uma tristeza profunda nos olhos. "Mestre Antero trouxe o que precisarem por enquanto. Ele virá sempre que puder."

Isabela sentiu as lágrimas molharem seu rosto. A gratidão por aqueles homens bons e a angústia por ter de viver como uma fugitiva a oprimiam. Ela olhou para Mestre Antero, seus olhos verdes marejados.

"Não sei como agradecer, Mestre Antero. Ao senhor e ao Padre Inácio. Vocês estão arriscando tudo por mim."

Mestre Antero sorriu, um sorriso gentil que não alcançou totalmente seus olhos. "Não se preocupe com agradecimentos, minha jovem. Apenas se cuide. E espere. Joaquim virá por você."

A esperança, a que ele se referira mais cedo, acendeu-se em seu peito, uma chama tênue, mas persistente. Ela sabia que Joaquim a amava. Sabia que ele não desistiria dela.

Enquanto Mestre Antero descia a escada com as provisões, Isabela se virou para o Padre Inácio.

"E o senhor, Padre? O que acontecerá consigo? Meu pai... ele não hesitará em retaliar."

O Padre suspirou, um som pesado que ecoou na quietude da capela. "Meu dever é para com Deus e para com o meu rebanho. Fiz o que minha consciência ditou. Que Deus me perdoe se eu estiver errado. Mas não posso, neste momento, virar as costas para o sofrimento." Ele fez uma pausa, sua voz mais baixa. "O Barão é um homem poderoso. Mas mesmo os homens mais poderosos têm seus segredos e suas fraquezas. Eu o conheço há muitos anos. Talvez haja um caminho para apaziguá-lo... ou para expô-lo."

As palavras do padre eram enigmáticas, mas Isabela sabia que havia uma verdade ali. Ela confiou nos homens que a ajudaram, mas a sombra do Barão ainda pairava sobre tudo, uma ameaça constante, como um presságio sombrio no horizonte. Ela desceu para o porão, o cheiro de terra e esquecimento a envolvendo, o único som o eco de seus próprios passos na escuridão, e a promessa de um amor que ela esperava, um dia, a encontraria. Ali, no silêncio sepulcral da capela esquecida, Isabela esperaria. Esperaria por Joaquim, esperaria por justiça, esperaria pela aurora de um novo dia que pudesse dissipar as sombras de Ouro Velho.

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