Sob o Céu de Ouro Velho
Capítulo 22 — A Fúria do Barão
por Caio Borges
Capítulo 22 — A Fúria do Barão
A notícia da fuga de Isabela atingiu o Barão de Alencar como um golpe físico. Sua fúria, contida por anos de disciplina férrea e calculismo político, explodiu em um rugido que abalou os alicerces de sua imponente mansão. As taças de cristal tilintaram nas mesas de mogno, o barulho ecoando o tremor que percorria o corpo do Barão. Seus punhos se fecharam com tanta força que as veias de suas mãos saltaram, azuis e proeminentes.
"Fugiu?", a voz do Barão era um trovão rouco, carregado de descrença e ódio. Ele se virou para o capataz, um homem corpulento e de olhar servil, que tremia diante dele como uma folha ao vento. "Como ela pôde? Como vocês puderam deixá-la escapar?"
O capataz engoliu em seco, o suor escorrendo por sua testa. "Senhor... não sabemos como. O guarda jurou que não viu ninguém. Quando percebemos, o quarto estava vazio."
O Barão deu um passo à frente, os olhos flamejando. "Mentiroso! Alguém a ajudou. Alguém em quem eu confiava." A imagem de seu próprio rosto refletida no espelho ornamentado pareceu-lhe um estranho que ele não reconhecia mais. A raiva o consumia, obscurecendo a razão, deixando apenas o instinto primitivo de possuir e controlar. Isabela era sua propriedade, um bem valioso, e ninguém, muito menos um peão insolente como Joaquim, ousaria roubar o que lhe pertencia.
Ele se aproximou da mesa de bebidas, derramando um copo generoso de aguardente. A bebida queimou sua garganta, mas não o suficiente para apagar o fogo que ardia em seu peito. Ele bateu o copo na mesa com força.
"Joaquim", sibilou, o nome saindo como um veneno. "Sempre foi aquele moleque insolente. Acha que pode desafiar a mim, ao Barão de Alencar? Ele aprenderá. Ele aprenderá quem manda em Ouro Velho."
O Barão se dirigiu à sala principal, onde seus homens mais fiéis estavam reunidos, a apreensão estampada em seus rostos. Havia um silêncio tenso no ar, apenas quebrado pelo tic-tac incessante de um relógio antigo.
"Reúnam todos os homens aptos para o combate", ordenou o Barão, a voz soando com uma autoridade fria e implacável. "Cavalgaremos. Encontraremos Isabela e o desgraçado que a seduziu. E quando os encontrarmos..." Ele fez uma pausa dramática, um sorriso cruel curvando seus lábios. "Quando os encontrarmos, a justiça será feita. A minha justiça."
Ele olhou para cada um de seus homens, seus olhos escuros penetrando suas almas. "Quero o Joaquim vivo. Quero que ele sinta o desespero de vê-la levada de volta para mim. Mas se ele resistir... bem, a terra de Ouro Velho já está manchada de sangue. Mais um pouco não fará diferença."
A notícia da fúria do Barão se espalhou como fogo em palha seca. Os moradores de Ouro Velho, acostumados com a tirania velada de Alencar, agora sentiam o medo em sua forma mais pura. Sabiam que a busca seria implacável e que ninguém ousaria se interpor no caminho do Barão.
Enquanto isso, na modesta casa do boticário, Mestre Antero recebia um visitante inesperado. Era o Padre Inácio, com o rosto pálido e os olhos carregados de uma angústia profunda. Ele havia passado a noite em claro, atormentado pelo peso de suas ações e pela consciência do perigo que corria.
"Antero", disse o padre, a voz baixa e trêmula. "Precisamos conversar. A situação é mais grave do que pensávamos."
Mestre Antero o acolheu com a serenidade que lhe era peculiar, embora a preocupação em seus olhos fosse evidente. "Padre. Sente-se. O que o aflige?"
Padre Inácio sentou-se pesadamente em uma cadeira de balanço, o murmúrio da madeira rangendo em sintonia com seu estado de espírito. "O Barão sabe. Ou pelo menos suspeita que Joaquim teve um papel nisso. Ele está furioso. Ele mandou reunir seus homens. Ele vai caçar Isabela."
Mestre Antero franziu a testa. "Eu sabia que ele não desistiria facilmente. Mas para onde eles poderiam ter ido? Isabela é jovem, mas não é tola."
"Ela está na capela esquecida. Eu a levei até lá. Deixei-a com alguns mantimentos e a promessa de que você a visitaria." As palavras saíram em um suspiro. "Mas o Barão é implacável. Ele não desistirá até encontrá-la."
Um silêncio pesado se instalou entre os dois homens. A capela esquecida, um lugar de refúgio, agora parecia um alvo fácil. A força bruta do Barão era uma ameaça real, e eles, um boticário e um padre, tinham poucos meios de se defender.
"Precisamos avisar Joaquim", disse Mestre Antero, a mente trabalhando em alta velocidade. "Ele precisa saber que Isabela está em perigo. Ele precisa ir buscá-la antes que o Barão chegue lá."
Padre Inácio assentiu. "Eu enviei um dos meus fiéis mais leais para procurá-lo. Um homem de confiança. Ele deve encontrá-lo logo."
"E o que faremos nós?", perguntou Mestre Antero, a preocupação em sua voz. "O Barão não hesitará em nos questionar. Ele sabe que somos amigos de Joaquim."
"Eu sei", disse o Padre, com um suspiro. "Eu terei que enfrentar o Barão. Tentar desviar a atenção, ganhar tempo. É o único caminho que me resta." Uma sombra de resignação pairava em seus olhos. "Se ele me pressionar, eu não poderei negar que conheço Joaquim e Isabela. Mas não direi onde ela está. Não posso."
"Mas se ele descobrir...", começou Mestre Antero.
"Ele descobrirá o que eu permitirei que ele descubra", interrompeu o Padre, com uma força inesperada em sua voz. "Que Deus me proteja e me guie. Pois este é um caminho perigoso, Antero. Mais perigoso do que jamais imaginei."
Enquanto a noite caía sobre Ouro Velho, o cavalo do Barão, um corcel negro e imponente, relinchava impaciente no pátio. Seus homens, armados com espingardas e facões, aguardavam as ordens, seus rostos iluminados pela luz vacilante das tochas. A caçada havia começado. A fúria do Barão era um vendaval que se aproximava, ameaçando varrer tudo em seu caminho. Isabela, escondida na escuridão da capela esquecida, não sabia da tempestade que se formava, mas a sensação de que o perigo estava mais perto do que nunca a mantinha alerta, com o coração batendo acelerado no peito, como um pássaro aprisionado em gaiola. O amor que a impulsionava a fugir agora a colocava em uma situação de vulnerabilidade extrema, e a sombra do Barão, mais longa e ameaçadora do que nunca, se estendia sobre o céu de Ouro Velho.