Sob o Céu de Ouro Velho
Capítulo 23 — O Coração Valente de Joaquim
por Caio Borges
Capítulo 23 — O Coração Valente de Joaquim
Joaquim sentiu a adrenalina correr em suas veias, um misto de medo e determinação que o impulsionava. A mensagem de Mestre Antero, entregue por um garoto pálido e apressado, falava de uma emboscada, de Isabela em perigo e da necessidade urgente de encontrá-la. Cada palavra era um prego em sua alma, e a raiva contra o Barão de Alencar, que ele sempre soubera ser um homem cruel, agora transbordava em um desejo feroz de protegê-la.
Ele estava na fazenda de seu tio, nas terras mais distantes de Ouro Velho, trabalhando na colheita de milho. O sol castigava suas costas, mas o suor que escorria não era apenas de esforço físico, mas de uma preocupação que o consumia. Desde que descobriu a verdade sobre o Barão e a ameaça que ele representava para Isabela, ele sentia que seu tempo era contado.
Assim que recebeu a notícia, deixou tudo para trás. Agradeceu ao tio com um aperto de mão firme e partiu em seu cavalo mais veloz, um baio inquieto chamado Trovão, que parecia sentir a urgência do seu cavaleiro. Ele cavalgou sem parar, o vento em seus cabelos, a terra batida levantando nuvens em seu rastro.
A imagem de Isabela, seu sorriso luminoso, seus olhos verdes que refletiam a esperança, era o seu único guia. A ideia de vê-la em perigo, nas mãos de seu pai, o Barão, era insuportável. Ele sabia da crueldade do homem, de sua obsessão em manter sua filha sob controle, mas nunca imaginara que ele seria capaz de um ato tão covarde.
Ao cair da noite, ele chegou aos arredores de Ouro Velho. A cidade, geralmente iluminada por lamparinas e fogueiras, parecia sombria e silenciosa. Um pressentimento ruim o assaltou. A tranquilidade era enganosa, um véu que escondia a tempestade iminente. Ele sabia que não poderia ir diretamente para a mansão do Barão. Era uma armadilha.
Guiado pela intuição e pela informação fragmentada que Mestre Antero lhe dera sobre a capela esquecida, Joaquim se dirigiu para as terras ermas, onde a civilização se desvanecia e a natureza reinava soberana. O caminho era traiçoeiro, repleto de arbustos espinhosos e raízes que pareciam querer derrubar seu cavalo. Mas Joaquim não desistiu. Cada passo o aproximava de Isabela, e a esperança de encontrá-la em segurança era um combustível poderoso.
Ele cavalgou por horas, a lua cheia lançando uma luz pálida e fantasmagórica sobre a paisagem. O silêncio era quebrado apenas pelo relinchar de Trovão e pelo som de sua própria respiração. De repente, ele ouviu um som distante, um grito abafado. Seu coração disparou. Seria Isabela?
Ele acelerou o passo, guiando Trovão em direção ao som. Ao contornar um aglomerado de árvores antigas, ele a viu. Uma capela em ruínas, suas paredes desmoronadas e o telhado parcialmente caído, como um fantasma esquecido pelo tempo. E perto da entrada, ele viu a figura imponente do Barão de Alencar, cercado por seus homens armados.
"Isabela!", gritou Joaquim, a voz embargada pela emoção e pelo medo.
O Barão se virou, o rosto uma máscara de ódio e surpresa. Seus olhos encontraram os de Joaquim, e um sorriso cruel se espalhou por seus lábios.
"Ora, ora. O moleque insolente resolveu aparecer. Pensei que tivesse fugido como um rato. Mas vejo que a coragem lhe foi mais forte que a prudência."
Joaquim não respondeu. Ele desmontou de Trovão, colocando-se entre o Barão e a capela, como um escudo. "Deixe-a em paz, Barão. Ela não lhe pertence."
O Barão riu, um som seco e sem humor. "Não me pertence? Ela é minha filha, moleque! E você... você é apenas um serviçal que ousou olhar para o que não lhe diz respeito. Um erro que vou corrigir agora."
Os homens do Barão ergueram suas armas, mirando Joaquim. O clima estava carregado de tensão, prestes a explodir.
"Não vou deixar que a machuque", disse Joaquim, a voz firme apesar do temor que o dominava. Ele sabia que estava em desvantagem. Ele era um contra vários, e eles estavam armados. Mas o amor por Isabela lhe dava uma força que ele nunca pensou possuir.
Nesse exato momento, uma figura emergiu das sombras da capela. Era o Padre Inácio, com o rosto marcado pela preocupação, mas com uma determinação surpreendente em seus olhos.
"Barão!", disse o Padre, a voz soando clara na noite silenciosa. "O que está fazendo aqui? Esta terra é sagrada. Não pode profaná-la com violência."
O Barão se virou para o padre, o desprezo em seu olhar. "Padre. A sua interferência não é bem-vinda. Este assunto é entre mim e aquele que ousou roubar o que é meu."
"Nada é seu para ser roubado, Barão", respondeu o Padre, com calma. "Isabela é uma pessoa, não uma propriedade. E Joaquim... ele apenas a ama."
"Amor?", o Barão zombou. "Isso é loucura! O amor não paga dívidas, não garante um futuro. O amor é para os fracos, para os tolos. Eu ofereci a Isabela segurança, um nome, um futuro. E ela me desobedeceu."
"E você a puniu com a crueldade", rebateu o Padre. "Você tentou matá-lo, Barão. Atacou um homem desarmado. Isso não é justiça. Isso é tirania."
A fala do padre parecia atingir o Barão em um ponto sensível. Ele hesitou por um instante, a raiva em seus olhos lutando contra algo mais, uma sombra de dúvida ou talvez de vergonha.
"Chega de conversinha fiada, Padre", disse o Barão, recuperando o controle. "Eu vim buscar minha filha. E se esse moleque tentar me impedir... bem, ele terá o destino que merece."
Ele fez um sinal para seus homens. As espingardas foram erguidas. Joaquim se preparou.
De repente, um som ecoou na mata. Não era o som de animais, mas o de cavalos se aproximando em alta velocidade. Vários cavalos. Vários homens. Eram os homens do tio de Joaquim, avisados por um mensageiro que o próprio Joaquim enviara em sua corrida desesperada.
"Barão de Alencar!", gritou uma voz forte e firme. "Você está em terras que não lhe pertencem. E está ameaçando meu sobrinho. Eu exijo que se retire imediatamente."
O Barão virou-se, o rosto contorcido de fúria. Seus homens também se viraram, as espingardas baixando levemente, a incerteza estampada em seus rostos. O número de oponentes era agora igual, e a vontade de lutar, para alguns deles, parecia diminuir.
Joaquim olhou para o tio, um homem de meia-idade, com a força e a determinação de um lutador nato. Ele sentiu um alívio imenso. O tio de Joaquim, um homem respeitado e temido na região, não permitiria que seu sobrinho fosse atacado impunemente.
O Barão de Alencar viu sua vantagem se esvair. Ele não esperava essa resistência, essa ousadia. Ele sabia que, se a luta começasse, ele poderia perder mais do que apenas a chance de pegar Isabela naquele momento. Ele poderia perder a reputação, o controle.
Com um grunhido de frustração, ele lançou um último olhar de ódio para Joaquim. "Isso não acabou, moleque. Você ainda vai pagar caro por isso."
Ele se virou para seus homens. "Vamos embora. Por enquanto."
O Barão e seus homens se retiraram, desaparecendo na escuridão da noite, deixando para trás apenas o eco de seus passos e a tensão que pairava no ar.
Joaquim suspirou, sentindo as pernas tremerem de alívio e adrenalina. Ele se virou para o Padre Inácio. "Obrigado, Padre. Por tudo."
O Padre assentiu, um leve sorriso em seus lábios. "Você tem um coração valente, Joaquim. E um amor que vale a pena lutar."
Joaquim então olhou para a capela. Isabela. Ele precisava encontrá-la. Ele precisava ter certeza de que ela estava bem. Ele correu para a entrada, o coração batendo com uma esperança renovada. A noite em Ouro Velho ainda era escura, mas para Joaquim, uma nova luz começava a brilhar, a luz do amor que o impulsionara a enfrentar o perigo e a proteger a mulher que amava.