Sob o Céu de Ouro Velho

Capítulo 4 — A Carta Misteriosa e a Sombra do Passado

por Caio Borges

Capítulo 4 — A Carta Misteriosa e a Sombra do Passado

A rotina na Fazenda das Pedras Negras se estabelecera com uma estranha normalidade desde a chegada do Dr. Matias de Andrade. O noivado fora marcado, a data se aproximava, e D. Leonor parecia respirar um ar mais leve, a preocupação com as dívidas diminuindo a cada conversa com o futuro genro. Matias, com sua eloquência e seus planos bem traçados, era a personificação da segurança que ela tanto almejava. Sofia, por sua vez, mantinha uma postura de resignada gentileza. Ela cumpría seus deveres de noiva, recebia os presentes e as palavras de afeto de Matias com um sorriso polido, mas seus olhos, muitas vezes, pareciam perdidos em um passado que a assombrava.

Naquele dia, porém, uma perturbação invadiu a paz precária que se instalara. Um escravo de confiança trouxe a D. Leonor uma carta, lacrada com um selo desconhecido, de um remetente anônimo. A caligrafia era hesitante, mas firme, e o papel, de uma qualidade inferior aos usados nas correspondências usuais. Leonor, com as mãos ligeiramente trêmulas, quebrou o lacre. A mensagem era curta e enigmática:

"Senhora, cuidado com o homem que promete o sol. As Minas Gerais guardam segredos mais sombrios do que o ouro. Um homem que se diz seu salvador pode ser sua ruína. Busque a verdade antes que seja tarde demais."

Leonor releu a carta várias vezes, o coração apertado. Quem seria o remetente? E qual seria a verdade que ele mencionava? As palavras sobre Matias soaram em seus ouvidos como um mau presságio. Ela conhecia a fama das Minas Gerais. Lugar de perigos, de ambição desmedida, de homens que faziam fortuna rapidamente e perdiam a alma no processo. Mas Matias… ele parecia diferente. Ele era polido, educado, respeitoso.

"O que foi, Leonor?", perguntou Matias, percebendo a preocupação no rosto da noiva de sua futura enteada. Ele estava sentado em uma das poltronas da sala de estar, folheando um livro de capa de couro.

Leonor hesitou, o instinto a alertando para a prudência. "Nada, meu caro. Apenas uma carta de minha irmã em Salvador. Notícias sobre a saúde dela. Nada que a preocupe." Ela guardou a carta no bolso do vestido, o papel roçando em sua pele como um lembrete incômodo.

Naquela noite, Leonor não conseguiu dormir. A carta a assombrava. Ela pensava em Miguel, em seu sonho de encontrar ouro, em sua impulsividade. Seria possível que ele, em sua busca, tivesse descoberto algo sobre Matias? Ou seria outra pessoa, alguém com inveja da ascensão de Matias, tentando prejudicá-lo?

Sofia, em seu quarto, também sentia uma inquietação que ia além da ansiedade pelo casamento. Ela havia notado a mudança no semblante da mãe, o silêncio perturbado. Na manhã seguinte, enquanto ajudava a organizar os aposentos de Matias, que se preparava para uma breve viagem à Vila Rica em busca de novas joias para presentear a noiva, Sofia encontrou um pequeno diário escondido entre os livros de Matias. A capa era simples, de couro escuro, e o título, "Memórias de um Garimpeiro", estava quase apagado. Movida por uma curiosidade irresistível e uma pontada de desconfiança, ela o pegou.

Ao abrir o diário, Sofia viu que as primeiras páginas eram preenchidas com relatos sobre a dura vida de garimpeiro, as dificuldades, os perigos, as esperanças de uma grande descoberta. Mas, à medida que avançava nas páginas, a escrita mudava. Tornava-se mais firme, mais confiante. E os relatos não eram mais sobre a busca por ouro, mas sobre negócios, sobre transações, sobre homens que enriqueciam explorando outros. Havia menções veladas a dívidas, a empréstimos arriscados, a acordos duvidosos. E, em uma página específica, ela leu um nome que a fez gelar: "D. Manuel de Albuquerque".

As palavras chocaram Sofia. Matias conhecia seu pai? Ou melhor, ele se envolvera em negócios com ele? Ela leu mais adiante e encontrou um relato detalhado de uma dívida contraída por seu pai com Matias, um empréstimo para tentar salvar a fazenda, uma dívida que, segundo o diário, nunca fora totalmente paga. Havia também uma menção a um acordo que, se não cumprido, levaria à ruína da família Albuquerque.

Sofia sentiu o chão sumir sob seus pés. Seu pai… ele havia se endividado com Matias? E o casamento com Sofia seria a forma de Matias saldar essa dívida? A promessa de segurança, a generosidade, os presentes… tudo era uma fachada? Ela se sentiu traída, enganada. E sua mãe… ela estava prestes a entregar a filha para o homem que, talvez, tivesse contribuído para a ruína de seu pai.

Com o diário escondido em seu vestido, Sofia procurou sua mãe. Encontrou-a na varanda, observando o horizonte com um semblante preocupado.

"Mãe", disse Sofia, a voz embargada pela emoção. "Precisamos conversar."

Leonor se virou, surpresa com a urgência na voz da filha. "O que aconteceu, Sofia?"

Sofia estendeu o diário. "Eu encontrei isso no quarto do Sr. Andrade. Leia, por favor. Leia e me diga se é verdade."

Leonor pegou o diário, seus dedos roçando o couro gasto. Ela abriu nas páginas indicadas por Sofia e começou a ler. À medida que as palavras se desdobravam diante de seus olhos, seu rosto empalidecia. A cada linha, a verdade cruel se revelava. Seu marido, Manuel, em sua tentativa desesperada de salvar a fazenda, havia contraído uma dívida com Matias de Andrade. Uma dívida que ele, em sua honra, tentara honrar, mas que as circunstâncias não permitiram. E agora, Matias estava usando o casamento de Sofia como forma de saldar essa dívida, garantindo a prosperidade da família, mas ao custo da felicidade e da liberdade de sua filha.

"Não é possível...", murmurou Leonor, as mãos tremendo. A carta anônima… ela era verdadeira. O homem que prometia o sol, realmente trazia consigo a escuridão.

"Mãe, o que faremos?", perguntou Sofia, as lágrimas rolando pelo seu rosto. "Ele nos enganou. Ele nos usou."

Leonor fechou o diário com um baque surdo, a raiva e a decepção tomando conta de si. Ela olhou para o local onde Matias estava hospedado, o luxo e a fartura que ele trouxera para a casa agora parecendo macabros. "Eu não sei, minha filha. Mas eu não vou permitir que ele destrua mais uma vez a nossa família."

Naquele momento, o som de cascos de cavalo anunciou a chegada de um mensageiro. Ele trazia uma nova carta, desta vez de Miguel. Leonor a abriu com as mãos ainda trêmulas, o pressentimento de que algo mais estava por vir. A carta, escrita em uma letra apressada e nervosa, dizia:

"Mãe, Sofia. Encontrei ouro! Mais do que esperávamos! Mas há perigo. Um homem chamado Andrade… ele tem sido visto por aqui. Ele procura por mim. Dizem que ele tem cobradores. Ele quer algo de mim. Algo que meu pai lhe devia. Ele se aproxima. Cuidado! Ele não é quem parece ser. Ouro é perigoso. E este homem… este homem é o mais perigoso de todos."

Leonor e Sofia se entreolharam, o horror estampado em seus rostos. Matias estava vindo atrás de Miguel. Ele estava usando Sofia para se aproximar de Miguel e, assim, garantir a dívida de seu pai. A teia de mentiras e manipulações se desdobrava diante delas, mais sombria e cruel do que imaginavam. A sombra do passado de seu pai agora pairava sobre o futuro de Sofia, e a promessa de um "céu de ouro velho" se transformava em um campo minado de perigos e traições.

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