Sob o Céu de Ouro Velho
Capítulo 5 — O Confronto e a Escolha
por Caio Borges
Capítulo 5 — O Confronto e a Escolha
A notícia da carta de Miguel caiu sobre D. Leonor e Sofia como um raio em céu claro. Matias de Andrade, o homem que prometia segurança e prosperidade, revelara-se um predador implacável, usando o afeto e a necessidade de Leonor, e o futuro de Sofia, como isca para saldar uma antiga dívida de Manuel de Albuquerque. A descoberta do diário do garimpeiro e a carta de Miguel confirmavam seus piores temores: a busca por ouro nas Minas Gerais havia se tornado um jogo mortal, e a família Albuquerque estava no centro dele.
"Ele não pode fazer isso!", exclamou Leonor, a voz trêmula de raiva e impotência. Ela apertava a carta de Miguel nas mãos, a tinta borrando sob a pressão de seus dedos. "Usar a própria Sofia para me encurralar? Para alcançar meu filho?"
Sofia, apesar do choque, demonstrava uma serenidade surpreendente. As lágrimas haviam cessado, substituídas por uma determinação fria que Leonor nunca vira nela. "Mãe, não temos tempo para nos desesperar. Miguel está em perigo. E eu… eu não vou me casar com um homem que fez isso com a nossa família. Que fez isso com o nosso pai."
"Mas como, Sofia? Ele está vindo para cá. E você… você é a nossa única chance de protegê-lo. Se eu o enfrentar agora, ele pode se vingar de você. De nós." Leonor sentia o peso da responsabilidade esmagando-a. Ela havia cometido um erro, um erro grave ao acreditar em Matias, ao aceitar sua proposta.
"Não, mãe", respondeu Sofia, com firmeza. "Você não vai se casar com ele. E eu também não." Ela caminhou até a escrivaninha e pegou um pedaço de papel e um tinteiro. Começou a escrever com uma caligrafia elegante, mas decidida.
"O que você está fazendo?", perguntou Leonor, apreensiva.
"Estou escrevendo para o Dr. Andrade", disse Sofia, sem desviar o olhar do papel. "Estou cancelando nosso noivado."
"Sofia, não seja tola! Você não pode fazer isso! Ele é perigoso!", implorou Leonor.
"Ele pode ser perigoso, mãe, mas não mais do que eu. Não mais do que a verdade. Ele pensou que podia nos manipular, que podia usar a mim e a você. Mas ele se enganou. Ele subestimou a força da nossa família." Sofia terminou de escrever e dobrou o papel. "Mandei que o mensageiro que trouxe a carta de Miguel voltasse com esta. Que ele a entregue a Matias assim que o encontrar."
Leonor observou a filha, uma mistura de orgulho e medo percorrendo seu corpo. Sofia estava enfrentando o perigo com uma coragem que ela admirava. Mas o risco era imenso.
No mesmo instante, o som de cavalos se aproximando se fez ouvir. O mensageiro de Matias, um homem de semblante sério e poucas palavras, adentrou a propriedade, desmontando com agilidade. Ele trazia em mãos um envelope, o mesmo selo que Leonor vira antes.
"Dona Leonor", disse ele, a voz grave. "O Dr. Andrade me enviou. Ele pede que a senhora o aguarde na varanda. Ele chegará em breve."
Leonor sentiu um arrepio. Matias estava ali, perto. Ela olhou para Sofia, que assentiu com a cabeça, um brilho de desafio em seus olhos.
"Diga ao Dr. Andrade que o aguardo", respondeu Leonor, sua voz firme, tentando mascarar o turbilhão de emoções que a dominava.
O mensageiro se retirou, e um silêncio tenso pairou no ar. Leonor e Sofia caminharam juntas para a varanda, o sol da tarde banhando a cena em tons dourados, um contraste cruel com a escuridão que pairava sobre seus corações.
Em poucos minutos, Matias de Andrade surgiu no horizonte, montado em seu coche luxuoso, acompanhado por dois homens de aspecto rude, que pareciam capangas. Ele desceu do coche, o sorriso polido em seu rosto, mas seus olhos, agora, carregavam um brilho sombrio, de quem sentiu o cheiro da traição.
"D. Leonor", disse ele, a voz mais fria do que o habitual. "Uma surpresa agradável a sua hospitalidade em plena tarde. Mas confesso que esperava por uma recepção um pouco mais… calorosa."
Leonor sustentou o olhar dele, a carta de Sofia em sua mão, um trunfo silencioso. "Dr. Andrade, devo pedir desculpas. O nosso noivado… ele não poderá mais se concretizar."
O sorriso de Matias vacilou por um instante. "Como assim, D. Leonor? Algum problema com os preparativos?"
"Não, Sr. Andrade. O problema reside em sua própria índole. Descobrimos a verdade. Sobre a dívida de meu falecido marido. Sobre seus planos para usar minha filha para saldar o que meu pai lhe devia." Leonor ergueu a carta de Sofia. "Esta carta é um adeus. Não há mais casamento."
O rosto de Matias endureceu. Ele olhou para Sofia, que estava ao lado de Leonor, de cabeça erguida. "Então foi você, D. Sofia, que plantou essa semente de dúvida em sua mãe?"
"Eu apenas revelei a verdade, Sr. Andrade", respondeu Sofia, sua voz clara e firme. "Uma verdade que o senhor tentou esconder sob um manto de gentileza e promessas vazias."
Matias soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. "Verdade? A verdade é que o Coronel Manuel de Albuquerque me devia uma quantia considerável. Uma dívida que ele não pôde saldar. E eu, como um homem de negócios, precisava recuperar meu investimento. O casamento com sua filha era a solução mais elegante." Ele olhou para os capangas. "Vocês duas me parecem não compreender a gravidade da situação."
"Eu compreendo perfeitamente, Sr. Andrade", disse Leonor, dando um passo à frente. "E sei que o senhor não é o homem que aparenta ser. Meu filho, Miguel, está a caminho, e ele não permitirá que o senhor o persiga."
Matias riu novamente, um riso frio que arrepiou a espinha de Leonor. "Miguel? O meu querido Miguel. Ele realmente pensa que pode me desafiar? Ele tem o meu ouro, D. Leonor. E eu vim buscá-lo." Seus olhos se fixaram em Sofia. "E se ele não me devolver o que é meu, talvez sua noiva tenha que pagar o preço."
Um silêncio pesado se instalou. O sol da tarde parecia ter perdido seu brilho. A ameaça era clara e terrível.
De repente, o som de cascos se aproximando em disparada ecoou pelo ar. Desta vez, era um cavalo conhecido, o baio forte de Miguel. Ele surgiu na curva do caminho, o rosto suado, os olhos arregalados de preocupação. Ao ver Matias e seus capangas, ele não hesitou.
"Deixem minha mãe e minha irmã em paz, Andrade!", gritou Miguel, empunhando uma pequena pistola que ele trouxera consigo.
Matias sorriu, um sorriso cruel. "Ah, Miguel. Vejo que você chegou bem a tempo. Justo agora que eu viria buscá-lo." Ele fez um gesto para seus homens. "Tragam o ouro. E depois, cuidem dos desertores."
Os capangas avançaram em direção a Miguel, mas antes que pudessem alcançá-lo, Sofia agiu. Com uma agilidade surpreendente, ela pegou um vaso de barro pesado que estava próximo e o atirou contra um dos homens, derrubando-o.
"Corra, Miguel!", gritou Sofia.
Leonor, vendo a oportunidade, agarrou uma vassoura e começou a golpear o outro capanga, que se virou surpreso com a resistência inesperada.
Miguel, aproveitando a distração, correu em direção à casa. Matias, furioso, sacou sua própria arma. "Vocês vão pagar por isso! Todas vocês!"
Mas, naquele instante, um grupo de homens armados surgiu do meio da vegetação, liderados por um homem de rosto marcado e olhar severo. Eram homens de Vila Rica, garimpeiros que Miguel encontrara e com quem fizera um acordo. Eles haviam seguido Matias, desconfiados de suas intenções.
"Pare aí, Andrade!", gritou o líder dos garimpeiros. "Não permitiremos que você persiga o jovem Miguel!"
Matias hesitou, percebendo que estava em desvantagem. Seus capangas, assustados com a chegada dos garimpeiros, recuaram.
"Isso não acabou!", rosnou Matias, lançando um olhar de ódio para Leonor e Sofia. Ele montou em seu coche e partiu, seus homens o seguindo de perto.
Miguel, exausto e assustado, correu para os braços de sua mãe e irmã. "Eu sabia que ele não era quem dizia ser. Eu sabia que ele era perigoso."
Leonor abraçou os dois filhos com força, o alívio tomando conta de si. A tempestade havia passado, e o sol, embora ainda tímido, começava a brilhar.
"Você fez bem em vir, meu filho", disse Leonor, a voz embargada. "E você, minha filha, foi a mais corajosa de todas."
Sofia, deitada no ombro da mãe, sentiu um misto de exaustão e alívio. Ela havia escolhido seu caminho. Havia enfrentado o perigo e a mentira. A promessa de um futuro seguro se desvanecera, mas em seu lugar, surgia a promessa de liberdade. A liberdade de escolher seu próprio destino, de amar quem quisesse, de cantar suas próprias canções, sob o céu de ouro velho, mas agora, com um brilho de esperança renovada. A luta pela Fazenda das Pedras Negras estava longe de terminar, mas juntas, elas seriam mais fortes do que jamais haviam imaginado.