O Último Rio da Lua

O Último Rio da Lua

por Danilo Rocha

O Último Rio da Lua

Por Danilo Rocha

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Capítulo 16 — O Fogo Que Arde em Sibila

O ar em Neo-Aurora, outrora carregado com a promessa de um novo começo, agora chiava com a tensão de um campo de batalha prestes a eclodir. Aurora, com os olhos marejados e o coração em disparada, sentia cada batida ecoar como um tambor de guerra em seu peito. A revelação de Silas sobre a verdadeira natureza de Kael e o papel de sua própria família no apocalipse que dizimara a Terra há séculos pesava sobre ela como uma montanha. A lua, pálida e indiferente lá fora, parecia zombar de sua fragilidade.

"Não... não pode ser verdade", murmurou Aurora, a voz embargada, enquanto se afastava de Silas, as mãos cobrindo a boca em um gesto de incredulidade. O salão de estudos de Silas, repleto de hologramas cintilantes e artefatos ancestrais, de repente se transformou em uma câmara de tortura. A verdade, cruel e implacável, desnudara-se diante dela, expondo a podridão sob a fachada de progresso e esperança.

Silas, com seu semblante grave e os olhos que pareciam carregar o peso de eras, observava-a com uma compaixão que mal disfarçava a sua determinação. "Aurora, eu sei que é difícil de aceitar. A história que nos contaram, a que aprendemos desde crianças, é uma mentira cuidadosamente construída. Kael não é um salvador. Ele é o herdeiro de uma linhagem que escolheu a destruição em vez da reconciliação."

Ele gesticulou para um dos hologramas, que agora exibia imagens granuladas e perturbadoras de cidades em chamas, de rostos contorcidos pelo pânico. Eram cenas do "Grande Colapso", o evento cataclísmico que, segundo a narrativa oficial, fora causado por desastres naturais e pela negligência humana. Mas Silas contava outra história.

"Seus antepassados, Aurora, e os de Kael, não eram apenas cientistas. Eram senhores da guerra, obcecados pelo poder. A tecnologia que nos trouxe até aqui, a que nos permitiu sobreviver sob a lua, foi a mesma que usaram para nos escravizar. Eles criaram as 'Correntes de Gênese', um sistema de controle genético que garantisse a submissão das novas gerações. E Kael... ele é o último remanescente dessa linhagem de opressores. Sua 'cura' para a escassez de recursos não é uma solução, é um novo ciclo de dominação."

Aurora sentiu o chão sumir sob seus pés. As lembranças de sua mãe, sempre tão orgulhosa de seu legado científico, de seu pai, que falara com tanta paixão sobre construir um futuro melhor, colidiam com as palavras de Silas. Seriam eles cúmplices? Ou vítimas de um engano ainda maior?

"Minha família... meu pai...", ela sussurrou, a voz quase inaudível. A imagem de seu pai, com seu sorriso gentil e o olhar esperançoso, se distorceu, tingida pela sombra da traição. Ela se agarrou à esperança, à necessidade de acreditar que algo em seu passado era puro, inabalável.

Silas aproximou-se, pousando uma mão reconfortante em seu ombro. "Seu pai acreditava que estava fazendo o certo, Aurora. A maioria das pessoas naquela época acreditava. A verdade foi enterrada sob camadas de propaganda e medo. Mas sua mãe, antes de sua morte, descobriu fragmentos da verdade. Ela deixou pistas, enigmas, para que você os encontrasse quando estivesse pronta."

Ele apontou para um pequeno objeto de metal polido que repousava sobre uma mesa de cristal. Era um amuleto, entalhado com símbolos arcaicos que Aurora vagamente reconhecia dos estudos de sua mãe sobre história antiga. "Sua mãe me procurou. Ela sabia que o tempo de Kael estava se esgotando, que sua ambição não conheceria limites. Ela me confiou este amuleto e uma mensagem: 'Quando a lua sangrar, o último rio acordará'. Ela sabia que você seria a chave."

Aurora pegou o amuleto. Era frio ao toque, mas parecia vibrar com uma energia latente. As palavras de sua mãe, em meio à confusão e ao desespero, ressoavam em sua mente, ganhando um novo e aterrador significado. A "lua sangrando" e o "último rio acordando"... Eram metáforas para algo concreto?

De repente, um som agudo e penetrante ecoou pelo complexo. Alarmes. Luzes vermelhas pulsantes banharam o salão de estudos em um tom sinistro. "Eles sabem que você está aqui", disse Silas, com urgência. "Os guardiões de Kael. Ele não pode permitir que você se alie a mim, que descubra a verdade completa."

No corredor, passos apressados e o som metálico de armas se aproximavam. Aurora sentiu o medo paralisá-la por um instante, mas a imagem de sua mãe, a força em seus olhos mesmo em suas últimas horas, a impulsionou. Ela não podia ceder. Não agora.

"Eu não vou fugir", disse Aurora, a voz firme, uma nova determinação em seus olhos. "Se minha família está ligada a isso, então sou eu quem deve consertar. O que mais há para saber, Silas? O que Kael planeja?"

Silas assentiu, um brilho de orgulho em seus olhos. "Kael planeja reescrever a realidade. Ele acredita que a inteligência artificial que governa Neo-Aurora, a 'Mente Coletiva', está falha. Ele quer 'corrigi-la', o que significa impor sua própria visão de ordem perfeita. Ele vai desativar os filtros de realidade que nos protegem da verdade sobre nosso passado e, em seguida, usará as Correntes de Gênese para moldar a mente de toda a população à sua imagem. Ele quer criar um mundo onde não haja mais questionamentos, apenas obediência. Um paraíso artificial, construído sobre as cinzas da liberdade."

As portas do salão de estudos explodiram com um estrondo ensurdecedor. Guardas de Kael, armados com rifles de energia, invadiram o local. Seus rostos eram mascarados, seus movimentos precisos e brutais.

"O plano dele é a escravidão final, Aurora!", gritou Silas, empurrando-a para trás de uma estante antiga. "Ele não quer apenas controlar nossos corpos, mas nossas mentes. Precisamos sair daqui. Agora!"

Aurora sentiu o amuleto vibrar em sua mão. As palavras de sua mãe, o chamado para a ação, ecoavam em sua alma. O fogo que ardia em Sibila, a busca pela verdade, a luta contra a opressão, tudo isso se fundiu em um só propósito. Ela olhou para Silas, depois para os guardas avançando, e soube que não havia mais volta. A jornada para desvendar o último rio da lua havia começado de verdade.

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