O Último Rio da Lua
Capítulo 4 — A Sombra das Minas e o Contrato Silencioso
por Danilo Rocha
Capítulo 4 — A Sombra das Minas e o Contrato Silencioso
A decisão de Luna de buscar o Rio da Lua e o observatório na Montanha Negra não foi recebida com unânimidade. Enquanto Clara e alguns poucos anciãos, movidos pela fé nas lendas e na esperança de um futuro melhor, apoiavam a iniciativa, a maioria dos habitantes de Nova Aurora via a expedição como um ato de loucura suicida. Jonas, apesar de ter concordado em liderar o grupo, carregava a preocupação de quem sabe que está enviando seus entes queridos para o perigo.
"Precisamos de tudo que pudermos carregar", Jonas disse, enquanto supervisionava o preparo dos suprimentos. "Água, comida desidratada, equipamento de navegação, ferramentas. E para você, Lyra, precisamos adaptar algo que você possa usar para se defender, se necessário."
Lyra, ainda se recuperando, observava a agitação com uma calma incomum. Ela sabia que a confiança em Nova Aurora era um bem escasso, e que sua aparência e origem eram barreiras a serem superadas. Ela se aproximou de Luna, que embalava cuidadosamente o mapa em um invólucro à prova d'água.
"Luna", Lyra disse, sua voz suave, mas firme. "Você acredita que seu pai encontrou o caminho certo?"
Luna olhou para o mapa, sentindo o peso da responsabilidade. "Ele acreditava. E eu preciso acreditar nele. Ele era um homem bom, Lyra. Ele não nos deixaria com um mapa sem esperança."
"Meu povo também busca a água", Lyra continuou, seus olhos violetas refletindo a luz fraca do interior da habitação. "Se o Rio da Lua for real, ele pode ser a salvação para muitos. Mas há aqueles que controlam nossos recursos. Eles não gostariam de compartilhar."
"Quem são eles?", Luna perguntou, uma pontada de apreensão em sua voz.
"Uma corporação. A 'Astro-Resource'. Eles exploram os depósitos subterrâneos e controlam a distribuição de água em nosso sistema. São implacáveis. Se souberem que encontramos uma nova fonte… eles virão."
A menção de uma corporação poderosa em outro sistema estelar fez Luna sentir um arrepio. Em Nova Aurora, a exploração e a escassez eram a norma, mas não havia uma entidade centralizada controlando tudo. A ideia de um poder tão vasto e implacável era assustadora.
"Eles saberiam que você está aqui? Que sua nave caiu?"
"É possível. Nossas naves possuem sistemas de rastreamento de longo alcance. Se a nave foi detectada caindo, eles podem ter uma ideia da localização. Mas a Terra… este planeta é considerado inabitável. Ninguém esperaria encontrar algo aqui." Lyra fez uma pausa. "A menos que… a menos que alguém esteja procurando por algo específico."
Os olhos de Luna se arregalaram. "O Rio da Lua… Meu pai estava procurando por ele. Se eles também soubessem da lenda…"
"É uma possibilidade sombria", Lyra admitiu. "Mas por enquanto, devemos focar em chegar à Montanha Negra. Se encontrarmos o observatório e a verdade sobre o rio, teremos que pensar em como proteger essa descoberta."
Enquanto os preparativos continuavam, um incidente menor, mas significativo, ocorreu. Um grupo de mineiros, liderados por um homem chamado Boris, conhecido por sua ganância e força bruta, tentou invadir o depósito de suprimentos. Eles alegavam que os recursos deveriam ser distribuídos igualmente, mas suas intenções eram claras: saquear o que pudessem. Jonas e seus homens intervieram, e uma luta tensa se seguiu. Lyra, apesar de sua fragilidade, demonstrou uma agilidade surpreendente, esquivando-se dos ataques e usando um pedaço de metal pontiagudo para desarmar um dos agressores. Sua eficiência e frieza chocaram os moradores.
"Você luta como se tivesse nascido para isso", Boris rosnou para Lyra após ser desarmado, seu rosto contorcido de fúria e surpresa.
Lyra o encarou, seus olhos violetas brilhando com uma intensidade fria. "Eu luto para sobreviver. Algo que vocês parecem ter esquecido como fazer."
O confronto deixou um rastro de ressentimento e desconfiança. Boris e seus seguidores se retiraram, mas suas palavras ecoaram na comunidade. Lyra, a estranha que lutava como um predador, era tanto uma maravilha quanto uma ameaça.
"Eles não vão nos deixar em paz", Jonas disse a Luna, mais tarde, enquanto inspecionavam o equipamento. "Boris e os outros mineiros sempre foram problemáticos. Eles se sentem no direito de tomar o que querem."
Luna assentiu, o mapa seguro em sua mochila. "Eles não entendem o que está em jogo. Se encontrarmos o Rio, ele poderá alimentar a todos. Não apenas Nova Aurora, mas talvez até mesmo eles."
"Talvez", Jonas disse, cético. "Mas primeiro, precisamos sobreviver à jornada. E depois, teremos que lidar com aqueles que podem estar nos observando." Ele olhou para o céu, como se pudesse ver além da poeira e das nuvens.
Na manhã seguinte, o pequeno grupo partiu: Luna, Lyra, Jonas e Kael. O resto da comunidade observou em silêncio, alguns com esperança, outros com medo. Clara deu um abraço apertado em Luna, seus olhos marejados. "Que a lua guie seus passos, meu amor", ela sussurrou.
A jornada inicial foi pelas terras áridas que cercavam Nova Aurora. O sol pálido, o vento implacável e a poeira constante eram companheiros indesejados. Lyra, apesar de sua recuperação incompleta, movia-se com uma graça surpreendente, sua resistência física parecendo superar a de seus ferimentos. Ela observava tudo com um olhar analítico, absorvendo cada detalhe da paisagem alienígena.
"Este planeta tem uma história antiga", Lyra comentou, olhando para as formações rochosas desgastadas pelo tempo. "Ciclos de destruição e renascimento. Mas algo… algo interrompeu o ciclo natural."
"A exploração", Luna respondeu, o amargor em sua voz. "Nossos ancestrais esgotaram os recursos, poluíram tudo. Transformaram um mundo verde em um deserto."
Conforme avançavam, a paisagem começou a mudar. As planícies desoladas deram lugar a terrenos mais acidentados, com formações rochosas mais imponentes. A Montanha Negra, um pico imponente e sombrio, começou a se destacar no horizonte. Sua silhueta era ameaçadora, suas encostas cobertas por uma névoa perpétua.
"A Montanha Negra", Jonas disse, sua voz carregada de apreensão. "É daqui que seu pai falava, Luna?"
Luna consultou o mapa. "Sim. O observatório deve estar no topo. Ou perto dele."
Enquanto se aproximavam das bases da montanha, encontraram sinais de atividade. Não eram os moradores de Nova Aurora, mas algo mais sombrio. Eram trilhas de veículos pesados, abandonados e enferrujados, evidências de antigas operações de mineração em larga escala.
"As antigas minas", Jonas murmurou. "Elas foram abandonadas há décadas, quando a terra se tornou muito instável. Mas olha isso." Ele apontou para uma estrutura parcialmente soterrada. "Parece que alguém voltou. Ou está voltando."
Era uma pequena base de operações, com contêineres empilhados e um gerador de energia silenciado. Uma bandeira desbotada, com um símbolo de um olho estilizado dentro de um círculo, estava pendurada em um mastro enferrujado.
"O símbolo da Astro-Resource", Lyra disse, sua voz tensa. "Eu o reconheço. Eles estão aqui."
O coração de Luna disparou. A corporação que Lyra mencionara. Eles estavam na Terra. E pareciam estar interessados nas antigas minas.
"Por que eles estariam aqui, em um planeta desabitado?", Kael perguntou, confuso.
"Talvez eles saibam de algo que nós não sabemos", Luna respondeu, olhando para o mapa e depois para a Montanha Negra. "Talvez o Rio da Lua não seja a única coisa valiosa que este planeta esconde."
Um medo novo e mais profundo tomou conta de Luna. A busca pelo Rio da Lua havia se tornado mais perigosa do que ela imaginara. Não era apenas uma corrida contra o tempo e a natureza hostil, mas também contra uma força poderosa e desconhecida que parecia ter interesse nos segredos da Terra. O contrato silencioso com a Astro-Resource havia começado, e Luna sabia que eles teriam que ser mais astutos e corajosos do que nunca para sobreviver.