O Último Rio da Lua
Capítulo 5 — O Canto da Montanha Negra e a Primeira Revelação
por Danilo Rocha
Capítulo 5 — O Canto da Montanha Negra e a Primeira Revelação
A descoberta da base da Astro-Resource nas proximidades da Montanha Negra lançou uma sombra de apreensão sobre o grupo. Jonas, o mais experiente em lidar com perigos, tomou a dianteira. "Não podemos confrontá-los de frente", ele declarou, sua voz firme, mas cautelosa. "Somos poucos, e eles provavelmente têm armas. Precisamos ser discretos. Usaremos a noite para nos aproximarmos da montanha e evitaremos qualquer contato."
Lyra, cujos sentidos pareciam aguçados para a presença da corporação, concordou. "Eles estão investigando as minas antigas. Talvez estejam procurando por depósitos minerais. Ou talvez algo mais… algo ligado à água, como você teme."
Enquanto o sol se punha, tingindo o céu de tons de laranja e púrpura, o grupo se embrenhou na vegetação rala e nos afloramentos rochosos que marcavam a base da Montanha Negra. A atmosfera mudava drasticamente à medida que subiam. O ar rarefeito tornava a respiração mais difícil, e o vento uivava com uma força renovada, carregando consigo um som estranho, um murmúrio baixo e contínuo que parecia emanar da própria montanha.
Luna sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era um som quase melódico, mas ao mesmo tempo melancólico, como um lamento ancestral. "O que é esse som?", ela perguntou, olhando ao redor com apreensão.
"O Canto da Montanha", Lyra respondeu, sua voz quase um sussurro. "Nossas lendas dizem que as montanhas antigas possuem uma ressonância própria, que reagem às energias celestes e subterrâneas. Este som… é a montanha cantando."
Jonas, mais pragmático, olhou para o céu escuro. "Parece mais o vento canalizando por alguma caverna. Mas não importa. Fiquem atentos. Pode haver patrulhas da Astro-Resource."
A escalada continuou sob o manto da noite, guiada apenas pela luz fraca das estrelas e pela determinação em seus corações. Lyra parecia se mover com uma familiaridade surpreendente, como se os princípios de navegação que ela conhecia em outros mundos se aplicassem também à topografia terrestre. Ela frequentemente parava, examinando formações rochosas e padrões no solo.
"Há sinais aqui", Lyra disse, apontando para uma série de marcas sutis em uma rocha. "Um sistema de marcações antigas. Não é da Astro-Resource. É mais antigo. Mais… natural."
Luna consultou o mapa de seu pai. Os traços eram vagos, mas pareciam indicar um caminho tortuoso. "Este caminho coincide com a rota que meu pai desenhou."
O mapa, que antes parecia um mero esboço de um conto de fadas, agora ganhava vida, revelando-se um guia precioso. Eles seguiram as marcações de Lyra e as linhas de Elias, avançando em direção ao cume da montanha. A cada passo, o "canto" da montanha se tornava mais distinto, mais complexo, como se fosse uma orquestra cósmica executando uma sinfonia esquecida.
Horas depois, exaustos e ofegantes, eles chegaram a uma vasta planície no topo da montanha. A névoa era densa, mas em alguns momentos se dissipava, revelando um céu noturno incrivelmente claro, repleto de estrelas que pareciam ao alcance das mãos. E ali, no centro da planície, parcialmente obscurecido pela névoa e pela erosão do tempo, estava o observatório.
Não era uma estrutura imponente de metal reluzente, como Luna poderia ter imaginado. Era uma construção antiga, feita de pedras maciças e polidas, com uma cúpula quebrada que expunha o céu à sua frente. Parecia ter sido moldada na própria montanha, uma extensão de sua rocha ancestral. As marcas de Lyra estavam por toda parte, indicando a entrada principal, agora parcialmente bloqueada por pedras caídas.
"É aqui", Luna sussurrou, seus olhos fixos na estrutura. "O observatório do meu pai."
Lyra aproximou-se da entrada, sua mão pairando sobre as pedras. "Sinto uma energia… antiga. Concentrada. Este lugar foi construído com um propósito específico."
Jonas e Kael trabalharam para remover as pedras caídas, abrindo caminho para o interior. O interior do observatório era escuro e úmido, com um cheiro de terra e de pedra molhada. No centro, havia uma grande plataforma circular, e acima dela, o que restava da cúpula, permitindo que a luz das estrelas entrasse.
"O que procuramos?", Jonas perguntou, sua voz ecoando no silêncio.
Luna pegou o mapa de seu pai. "Ele mencionou um artefato. Algo que capturava a luz da lua. Dizia que era a chave."
Lyra se aproximou da plataforma central. "Este lugar… ele foi projetado para observar os céus. E para interagir com eles." Ela apontou para uma série de entalhes na plataforma. Eram símbolos complexos, diferentes de tudo que Luna já vira. "São coordenadas celestes. E diagramas de alinhamento lunar."
Enquanto Lyra examinava os entalhes, Luna observou o mapa de seu pai novamente. A linha vermelha do Rio da Lua terminava em um ponto marcado com um símbolo que se assemelhava ao entalhe que Lyra estava analisando.
"Lyra", Luna chamou, apontando para o mapa. "Olhe. Este símbolo no mapa… é igual a este aqui, não é?"
Lyra se ajoelhou e examinou o mapa com atenção. Seus olhos violetas se arregalaram. "Sim. É uma representação simplificada, mas é o mesmo. E este ponto no mapa… ele coincide com uma constelação específica que aparece em um determinado ciclo." Ela levantou a cabeça, seus olhos brilhando com uma nova compreensão. "Seu pai encontrou o caminho. Ele sabia onde procurar."
Enquanto isso, Jonas e Kael, explorando os arredores do observatório, fizeram uma descoberta alarmante. "Luna! Lyra! Venham aqui!", Jonas gritou, sua voz carregada de urgência.
Eles correram para onde Jonas estava. Ele apontava para uma área na lateral do observatório, onde as rochas pareciam ter sido recentemente escavadas. Havia marcas de pneus e equipamentos de mineração modernos.
"Astro-Resource", Jonas rosnou, seus punhos cerrados. "Eles nos seguiram. Ou chegaram aqui antes de nós."
Lyra examinou as marcas com um olhar sombrio. "Eles estão procurando por algo. E é provável que seja a mesma coisa que nós."
De repente, um foco de luz forte iluminou o observatório. Um veículo terrestre da Astro-Resource, equipado com refletores potentes, havia chegado. Várias figuras em trajes escuros e armados desceram do veículo.
"Parados! Mãos ao alto!", uma voz metálica e sem emoção ecoou pelo observatório.
O grupo se encolheu, a adrenalina correndo em suas veias. Eles estavam presos, encurralados pela corporação. Luna apertou o mapa em sua mão, o peso de seu pai e a esperança de seu povo em seus ombros.
"O que vocês querem?", Jonas gritou, protegendo Luna e Lyra.
"O artefato. A fonte de energia. E quem quer que esteja tentando roubá-lo", a voz metálica respondeu. "Entreguem-no, e talvez possamos poupar suas vidas."
Lyra olhou para Luna, seus olhos transmitindo uma mensagem de determinação. Ela sabia que o que eles procuravam não era apenas uma fonte de energia, mas a salvação. E eles não podiam deixar que a Astro-Resource a obtivesse.
"O artefato não é uma arma", Lyra disse, sua voz ecoando no espaço, desafiadoramente. "É a vida."
Naquele momento de tensão máxima, o "canto" da montanha pareceu intensificar-se, um coro de vozes antigas, como se a própria Terra estivesse reagindo à invasão. E com isso, um brilho tênue começou a emanar dos entalhes na plataforma central do observatório, um convite silencioso para desvendar o último segredo guardado pelo Rio da Lua. A revelação estava à espreita, mas o preço para alcançá-la poderia ser mais alto do que qualquer um deles imaginava.