O Último Rio da Lua

Capítulo 8 — A Semente da Dúvida e o Sussurro da Corrupção

por Danilo Rocha

Capítulo 8 — A Semente da Dúvida e o Sussurro da Corrupção

A luz suave da Água Lunar banhava a câmara subterrânea, criando um santuário de paz e sabedoria. Helena, sob a tutela de Kael, sentia-se renascida. Cada dia trazia novas revelações, não apenas sobre os segredos da terra e da energia ancestral, mas também sobre si mesma. A água que bebera parecia ter despertado em sua alma uma capacidade de sentir o mundo em um nível mais profundo, uma conexão sutil que a enchia de um propósito renovado.

No entanto, o mundo lá fora não parava. As notícias que chegavam através dos poucos canais de comunicação que Mestre Elias mantivera ativos eram um lembrete sombrio da realidade que ela deixara para trás. A Corporação Aurum, sob a liderança implacável de Silas Thorne, expandia sua influência como um câncer. As minas em todo o planeta extraíam recursos de forma predatória, a poluição se alastrava, e a resistência, embora feroz em alguns pontos, parecia cada vez mais fragmentada.

Um dia, um mensageiro trouxe uma mensagem urgente. Era de Anya Petrova, a líder de uma célula de resistência subterrânea em uma cidade distante, uma antiga aliada de Elias. Anya alertava sobre uma nova iniciativa da Aurum: a exploração de uma região remota, conhecida como o Vale Sombrio, uma área de onde, segundo as lendas locais, emana uma energia estranha e perigosa, associada a antigos rituais e a uma floresta que se dizia viva.

"Silas Thorne não para", Kael comentou, a testa franzida em preocupação enquanto lia o relatório. "Ele busca poder a qualquer custo. E a energia do Vale Sombrio... é algo que devemos temer."

"O que é essa energia?", Helena perguntou, a curiosidade científica misturada a uma apreensão crescente.

"É uma energia bruta, instável", Kael explicou. "O oposto da Água Lunar, que é pura e harmoniosa. A energia do Vale é caótica, capaz de distorcer a realidade, de corromper a matéria e a mente. Se Thorne conseguir controlá-la, será um desastre."

Helena sentiu um arrepio. Ela sabia, pela Água Lunar, que a energia do universo existia em diferentes formas, algumas construtivas, outras destrutivas. A descrição de Kael soava como uma antítese direta do que ela agora carregava dentro de si.

"Temos que impedir Silas Thorne", Helena declarou, a voz firme. "Mestre Elias sempre lutou contra a exploração desenfreada. Não posso deixar que ele profane um lugar assim."

Kael olhou para ela, seus olhos azuis carregados de uma seriedade que a fez hesitar. "Helena, você carrega a Água Lunar. Sua missão é proteger este santuário, não entrar em conflito direto com a Aurum. A energia do Vale é perigosa. Pode ser que você não esteja pronta para enfrentá-la."

"Pronta?", Helena riu, um riso amargo. "Quando estaremos prontos, Kael? Silas Thorne não espera. Ele destrói. Mestre Elias me ensinou a buscar a verdade, a usar o conhecimento para o bem. Se eu puder impedir que ele cause mais destruição, eu tenho que tentar."

Apesar das preocupações de Kael, Helena sentiu um chamado inabalável. A semente da dúvida, plantada pelas notícias do mundo exterior e pela ameaça iminente, começou a germinar em seu coração. A responsabilidade de carregar a Água Lunar parecia cada vez maior, mais pesada. E a pergunta que ecoava em sua mente era: ela era forte o suficiente para proteger não apenas o santuário, mas também o mundo que Elias tanto amava?

Decidiram que Helena iria ao Vale Sombrio, acompanhada por alguns dos poucos aliados que ainda confiavam em Mestre Elias, incluindo Anya Petrova, que se ofereceu para guiá-la. Kael, relutantemente, concordou, mas a preocupação em seus olhos era visível.

"Lembre-se do que você aprendeu, Helena", Kael disse, enquanto a acompanhava até a entrada de um túnel secreto que levava à superfície. "A força não está em confrontar a escuridão com mais escuridão, mas em manter a sua própria luz acesa. A Água Lunar em você é sua arma, sua armadura e sua guia."

A jornada até o Vale Sombrio foi árdua. O clima se tornou mais hostil à medida que se aproximavam, o céu constantemente nublado, uma chuva fria e incessante caindo sobre a terra. A paisagem mudou drasticamente: as árvores outrora vibrantes deram lugar a troncos retorcidos e escuros, a vegetação rasteira era escassa e doentia. Havia uma quietude opressora no ar, um silêncio que não era de paz, mas de algo contido, prestes a explodir.

Ao chegarem à entrada do vale, Helena sentiu a energia que Kael descrevera. Era como uma pressão no peito, uma distorção sutil no ar que a fazia sentir-se desorientada. O cheiro era acre, metálico, diferente do perfume adocicado da Água Lunar. Anya, uma mulher de aparência forte e olhar determinado, que parecia carregar o peso do mundo em seus ombros, explicou a situação.

"A Aurum já está aqui, Helena. Eles montaram um acampamento na base do vale, perto da nascente principal. Os relatórios dizem que eles estão usando uma tecnologia experimental para extrair essa energia, mas algo está dando errado. As pessoas que foram enviadas para lá... muitas não voltaram. E as que voltaram, não são mais as mesmas."

Ao se aproximarem do acampamento da Aurum, Helena viu a extensão da devastação. Máquinas gigantescas, brutais e desajeitadas, rasgavam o solo. Cabos grossos se estendiam como artérias doentes, conectando as máquinas a um ponto central, onde uma estrutura metálica sinistra pulsava com uma luz avermelhada e instável. O ar crepitava com uma energia caótica que provocava dores de cabeça e náuseas.

De repente, um grito ecoou. Helena e Anya se viraram para ver um grupo de mineiros, seus rostos pálidos e assustados, correndo de uma das áreas de escavação. Eles tropeçavam, suas feições distorcidas por um pânico cego. E atrás deles, emergindo da terra revolvida, vieram as criaturas.

Não eram animais, nem humanos. Eram deformações grotescas, com membros desproporcionais, pele pálida e olhos que brilhavam com uma fúria desprovida de razão. Eram os mineiros que haviam sido expostos à energia do Vale, corrompidos, transformados em monstros.

"Pelas estrelas!", Anya exclamou, sacando uma arma laser. "Eles liberaram a corrupção!"

Helena sentiu o medo subir, mas a lembrança das palavras de Kael, da Água Lunar em seu interior, a manteve firme. Ela estendeu as mãos, concentrando-se na energia que corria em suas veias. Uma luz azul suave começou a emanar de suas palmas, expandindo-se, criando uma barreira protetora ao redor dela e de Anya.

Os monstros hesitaram diante da luz, rosnando e se contorcendo, mas sem ousar atravessá-la. Helena sentiu a energia caótica do Vale tentar penetrar sua barreira, uma força voraz que buscava corromper, destruir. Era um combate silencioso, uma batalha de vontades.

No meio do caos, ela viu uma figura alta e imponente emergir de uma das tendas de comando da Aurum. Era Silas Thorne, seu rosto marcado por um sorriso frio e vitorioso. Ele observava a cena com um olhar de desdém, como se os monstros e o sofrimento fossem meros efeitos colaterais de sua grandiosa descoberta.

"Então a neta do Mestre Elias apareceu", Thorne disse, sua voz amplificada por um sistema de som. "Veio defender a natureza, a pureza? Que tolo. A pureza é uma fraqueza. O poder real reside na adaptação, na transformação. E eu, Helena, estou prestes a comandar a próxima era."

Ele gesticulou para a estrutura pulsante no centro do acampamento. "Esta energia, a essência do Vale Sombrio, é a chave para transcender as limitações. Para moldar o mundo à nossa imagem. Seu velho mentor, com suas baboseiras sobre rios e luas, jamais entenderia."

As palavras de Thorne atingiram Helena como um golpe. A menção de Mestre Elias, a arrogância em sua voz, a profanação daquela energia que ele chamava de "chave para a transformação"... tudo aquilo acendeu nela uma raiva que ela raramente sentira.

"Você não entende nada, Thorne!", Helena gritou, sua voz ressoando com a força da Água Lunar. "Isso não é transformação, é destruição! Você está corrompendo a vida, espalhando o caos!"

"Caos é apenas uma palavra para a ordem que você ainda não compreende", Thorne retrucou, um brilho perigoso em seus olhos. "E você, Helena, está prestes a testemunhar o nascimento de um novo mundo. Ou ser esmagada por ele."

Ele deu uma ordem, e as máquinas da Aurum intensificaram sua extração. A luz avermelhada no centro do acampamento pulsou com mais força, e a energia caótica do Vale se intensificou, ameaçando romper a barreira de Helena. Ela sentiu sua força diminuir, a energia corruptora tentando invadir sua mente. A dúvida, antes uma semente, agora parecia uma erva daninha sufocante. Ela estava enfrentando algo muito maior do que imaginara. E o silêncio da floresta do Vale Sombrio parecia zombar de sua fragilidade.

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