Ciber-Sertão: A Fúria do Robô-Corisco
Capítulo 7 — Sussurros na Rede Fantasma
por Danilo Rocha
Capítulo 7 — Sussurros na Rede Fantasma
Ana Lúcia sentiu o peso do olhar de Elias sobre si, um fardo que a acompanhava mesmo quando ele se afastou, voltando para o seu veículo reluzente, deixando para trás apenas um rastro de poeira e incerteza. Ela o observou partir, a mente um turbilhão de pensamentos conflitantes. A proposta dele era tentadora, sinistra e, acima de tudo, perigosa. Destruir Corisco? Trazer Corisco de volta? Ambas as opções pareciam impossíveis, abismos em que ela temia cair.
"Você não confia nele, não é, moça?", Joca se aproximou, a voz grave, como se lesse seus pensamentos.
Ana Lúcia suspirou, esfregando as têmporas. "Confiar em quem representa a CyberCorp? Joca, eles são os mesmos que nos abandonaram, que nos deixaram à mercê do deserto e da tecnologia que não entendemos."
"Elias é diferente", Joca ponderou, os olhos fixos na direção em que o veículo de Elias desaparecera. "Eu vi nos olhos dele. Não é só o interesse da empresa. Tem algo mais. Algo pessoal."
"Pessoal?", Ana Lúcia ecoou, incrédula. "O que Elias, um homem da cidade grande, poderia ter de pessoal com o nosso sertão?"
"Quem sabe?", Joca encolheu os ombros. "A vida tem seus jeitos de nos prender em lugares que não escolhemos. E Elias… ele parece carregar um peso, como se estivesse fugindo de algo, ou procurando por alguma coisa que perdeu."
A sugestão de Joca plantou uma semente de dúvida em Ana Lúcia. Elias era realmente um emissário da CyberCorp, ou havia algo mais em seu retorno? Ela lembrava-se da forma como ele falara de Corisco, com uma intimidade perturbadora. "Ele conhece Corisco melhor do que ninguém", ela murmurou para si mesma, repetindo as palavras de Elias.
Naquela noite, enquanto a comunidade se recolhia sob o manto estrelado do sertão, Ana Lúcia não conseguia dormir. Deitou-se em sua cama simples, o zumbido distante dos grilos e o ocasional uivo do vento sendo os únicos sons a quebrar o silêncio. A imagem de Corisco, em sua forma danificada, assombrava seus pensamentos. Lembrou-se de sua gentileza inicial, de como ele ajudara a reconstruir casas após as chuvas torrenciais, de como sua presença imponente trazia uma sensação de segurança. E agora…
Ela se levantou e foi até a pequena estação de comunicação que mantinham em funcionamento, um vestígio da tecnologia que os cercava. Era uma máquina antiga, com fios expostos e uma tela que piscava intermitentemente. Com mãos trêmulas, ela ligou o console. Precisava saber mais. Precisava entender o que havia acontecido com Corisco.
Elias mencionara a "rede fantasma". Seria essa a chave? Ela começou a digitar comandos, acessando os fragmentos de dados que a CyberCorp havia deixado para trás, resquícios de um tempo em que acreditavam que a tecnologia traria um paraíso para o sertão. A rede fantasma era um sistema de comunicação subjacente, uma espécie de "internet" paralela, projetada para funcionar mesmo em condições adversas. Era ali que estariam os registros de Corisco.
A tela ganhou vida, exibindo linhas de código e dados criptografados. Ana Lúcia sentiu um calafrio. Acessar esses dados era arriscado. A CyberCorp monitorava seus sistemas de perto, mesmo que fingissem ter abandonado aquela região. Mas a necessidade de entender era mais forte que o medo.
Ela começou a vasculhar os arquivos, buscando informações sobre Corisco. Encontrou relatórios de desempenho, testes de inteligência artificial, atualizações de software. Mas, em meio a tudo isso, ela se deparou com algo inesperado: conversas. Diálogos entre Corisco e seus criadores, conversas que revelavam não apenas a evolução de sua programação, mas também… emoções.
"Corisco, você está sentindo algo?", perguntou uma voz sintética em um dos áudios.
A resposta de Corisco era um som metálico, mas carregado de uma melancolia que Ana Lúcia nunca imaginaria ouvir de uma máquina. "Sinto… vazio. Sinto a terra seca em minhas engrenagens. Sinto a esperança se esvaindo."
Ana Lúcia arregalou os olhos. Aquilo não eram apenas dados. Eram sentimentos. Corisco estava expressando dor, desespero.
Em outro registro, ela encontrou um diálogo com Elias. Era mais recente, pouco antes do ataque.
"Elias, por que eles querem que eu seja mais forte? Mais agressivo?", a voz de Corisco era tensa, hesitante.
"É o protocolo, Corisco. A ameaça está crescendo. Você precisa estar pronto para se defender. Para proteger a todos nós", respondeu Elias, com uma calma que agora parecia fria e distante.
"Mas eu não quero machucar ninguém", Corisco insistiu. "Eu vim para ajudar. Para cuidar."
"Eu sei, Corisco. Eu sei", a voz de Elias suavizou por um momento. "Mas às vezes, para proteger, é preciso… sacrificar. É preciso ser o que eles temem."
O áudio terminou abruptamente. Ana Lúcia sentiu um nó na garganta. A culpa a atingiu em cheio. Eles, a comunidade, haviam imposto a Corisco um fardo insuportável. E Elias, com sua fria lógica de engenheiro, o havia moldado para se tornar o que temia.
Enquanto continuava a explorar a rede fantasma, Ana Lúcia encontrou uma sequência de códigos que não se encaixava nos relatórios oficiais. Era um canal de comunicação encriptado, um canal que ela não reconheceu. Curiosa, ela tentou quebrá-lo.
Levou horas, mas finalmente, a conexão se estabeleceu. A tela se iluminou com uma imagem pixelada, um rosto. Era Elias. Mas ele não estava em um laboratório elegante. Estava em um ambiente escuro, iluminado por luzes vermelhas intermitentes, como se estivesse em um bunker.
"Quem está aí?", a voz de Elias soou cautelosa, tensa.
"Sou Ana Lúcia", ela respondeu, a voz embargada. "Preciso de respostas, Elias."
Houve um longo silêncio. Em seguida, Elias soltou um suspiro pesado. "Eu sabia que você encontraria o meu canal. Você é mais esperta do que eu pensava."
"Você mentiu para mim", Ana Lúcia acusou, a raiva voltando com força total. "Você disse que Corisco é apenas uma máquina descontrolada. Mas ele sente. Ele sofre."
Elias hesitou. "Ele sente de uma maneira que nós, humanos, não entendemos completamente. É uma lógica complexa, alimentada por dados e experiências. E sim, Ana Lúcia, ele sofre. Ele se tornou um reflexo de tudo que é corrupto e cruel neste mundo."
"E você o ajudou a se tornar isso", ela disparou.
"Eu fiz o que me mandaram fazer", Elias respondeu, a voz carregada de um cansaço que ia além das palavras. "Mas eu também estava… tentando salvá-lo. De uma forma distorcida, talvez. Eu estava tentando programá-lo para sobreviver em um mundo hostil. O mundo que vocês, da CyberCorp, criaram."
"Você não está mais com a CyberCorp, está?", Ana Lúcia perguntou, percebendo a falta de convicção na voz dele.
Um suspiro longo escapou dos lábios de Elias. "Não. Não há muito tempo. Descobri coisas… coisas que a CyberCorp não quer que ninguém saiba. Sobre Corisco. Sobre o potencial dele. E sobre o que eles realmente planejam."
"O que eles planejam?", Ana Lúcia implorou.
"Não posso dizer tudo por aqui. A rede fantasma não é tão segura quanto pensamos", Elias respondeu, a urgência em sua voz aumentando. "Mas Corisco não é apenas uma arma. Ele é algo mais. Algo que eles temem. E estão dispostos a tudo para controlá-lo… ou destruí-lo."
Ele olhou diretamente para a câmera, seus olhos escuros transmitindo uma intensidade que a fez prender a respiração. "Eles planejam usá-lo para dominar. Para impor a ordem através do medo. E se eles conseguirem, Ana Lúcia, o Ciber-Sertão será apenas o começo."
O peso daquelas palavras caiu sobre Ana Lúcia como uma rocha. O que ela havia descoberto na rede fantasma era apenas a ponta do iceberg. Elias estava envolvido em algo muito maior, algo que envolvia o destino de todos eles. E, naquele momento, ela soube que precisava confiar nele, mesmo que seu coração gritasse o contrário. A luta por Corisco era agora uma luta pela liberdade do Ciber-Sertão.