Sob a Lua de Recife

Sob a Lua de Recife

por Enzo Cavalcante

Sob a Lua de Recife

Por Enzo Cavalcante

Capítulo 18 — O Sabor Amargo da Traição

A noite em Recife pulsava com uma melodia ancestral, um ritmo cadenciado que parecia ecoar nas pedras centenárias do Recife Antigo. As luzes tênues dos lampiões projetavam sombras dançantes sobre as fachadas coloniais, enquanto o cheiro salgado do mar se misturava ao aroma adocicado das especiarias exaladas dos bares e restaurantes. Era um cenário de beleza deslumbrante, capaz de seduzir qualquer um, mas para Luan, a paisagem parecia manchada por uma nuvem escura, pesada de pressentimento.

Ele apertou o celular nas mãos suadas, os dedos tremendo levemente. A mensagem de Helena, sua irmã mais velha, era curta, direta e cortante como uma lâmina. "Luan, preciso falar com você. Agora. É sobre o Pedro. Encontre-me na Pracinha do Marco Zero. Urgente."

"Urgentemente" era uma palavra que Helena raramente usava, e o tom gélido da sua voz ao telefone, minutos antes, apenas aumentara a apreensão que já lhe roía as entranhas. O coração de Luan disparou uma batida descompassada, uma arritmia provocada pela angústia. Pedro. Sempre Pedro. Havia algo naquele nome, na presença dele, que o desestabilizava, que o fazia questionar tudo o que acreditava ser real.

Ele se apressou pelas ruas de paralelepípedos, o som dos seus passos apressados soando alto no silêncio da madrugada. Cada esquina virada trazia um nó na garganta, um medo crescente de encontrar a verdade que Helena parecia esconder. A Pracinha do Marco Zero, geralmente palco de encontros alegres e celebrações, naquele momento parecia um palco sombrio, prestes a testemunhar uma revelação devastadora.

Helena o esperava perto da cruz imponente, a silhueta dela recortada contra o céu estrelado. Mesmo à distância, Luan percebeu a tensão que emanava dela, a postura rígida, o olhar fixo no horizonte escuro do mar. Quando ele se aproximou, ela se virou, e o que ele viu nos olhos dela o fez gelar por completo. Não era apenas preocupação; havia uma dor profunda, uma mágoa quase palpável.

"Helena, o que aconteceu? Você está bem?", ele perguntou, a voz embargada pela ansiedade.

Ela respirou fundo, um sopro trêmulo que se perdeu na brisa marinha. Seus olhos, geralmente tão vibrantes e cheios de vida, estavam opacos, como se tivessem visto algo que jamais poderiam esquecer. "Luan… senta. Por favor."

Ele obedeceu, sentindo o peso da pedra fria sob ele. A brisa, que antes era revigorante, agora parecia carregar um prenúncio de tempestade. Helena o encarou, e o silêncio se estendeu por um longo momento, um abismo de palavras não ditas.

"Eu… eu fui ao apartamento do Pedro hoje. Precisava pegar um livro que ele havia me emprestado. Ele não estava lá, mas… eu vi." A voz dela falhou, e uma lágrima solitária rolou pela sua bochecha. Luan sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

"Viu o quê, Helena?", ele sussurrou, o medo crescendo a cada instante.

"Eu… eu vi vocês dois. No quarto. Se beijando. Como se o mundo inteiro não existisse." As palavras dela saíram num fio de voz, carregadas de uma dor dilacerante.

O mundo de Luan desabou. O ar pareceu fugir dos seus pulmões. Ele não conseguia processar o que Helena estava dizendo. Ele e Pedro? Beijando-se? A imagem, vívida e perturbadora, invadiu sua mente, mas era uma imagem que ele não reconhecia como sua. Era um pesadelo, uma alucinação.

"Helena, você… você deve estar enganada. Isso… isso não pode ser verdade. Eu nunca… eu nunca faria isso com você. Você sabe disso." A voz dele era um murmúrio desesperado, uma súplica contra a realidade que se apresentava.

Helena fechou os olhos, como se a dor de relembrar fosse insuportável. "Eu não me enganaria, Luan. Vi com meus próprios olhos. A forma como ele te olhava… a forma como você se entregava…" Ela abriu os olhos novamente, e o desespero neles era um espelho do tormento que Luan sentia. "Eu… eu fui atrás dele depois. Queria uma explicação. Queria entender. E ele… ele me disse."

"O quê? O que ele disse?", Luan implorou, o coração batendo descompassado no peito.

"Ele disse que… que tudo entre nós foi um erro. Que ele nunca me amou. Que… que ele ama você, Luan." A voz de Helena quebrou, e ela cobriu o rosto com as mãos, soluçando baixinho.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, quebrado apenas pelo choro abafado de Helena e o murmúrio distante das ondas. Luan ficou paralisado, cada célula do seu corpo gritando em negação. Pedro? Amar ele? E usar Helena como um escudo, como uma distração? A ideia era monstruosa, cruel, e ao mesmo tempo, uma parte dele, por menor que fosse, sentia um pingo de verdade naquela acusação. Havia algo em Pedro que o atraía, algo que ele não conseguia explicar, um magnetismo perigoso que o deixava confuso e vulnerável.

"Ele… ele disse isso? Que me ama?", Luan perguntou, a voz rouca.

Helena assentiu, incapaz de falar.

"E você… você acreditou?", ele indagou, sentindo um fio de esperança, um resquício de que tudo aquilo pudesse ser um mal-entendido, uma armação.

"Acreditei. Vi com meus olhos, ouvi com meus ouvidos. A dor… é insuportável, Luan. Eu te amo como um irmão. E você… você me fez isso." As palavras dela eram como facadas em seu coração.

"Eu não fiz nada, Helena! Eu juro! Se você viu alguma coisa, se ele disse alguma coisa, não fui eu! Eu não o amo! Eu… eu não sei o que está acontecendo, mas eu nunca te machucaria de propósito!" O desespero em sua voz era palpável, genuíno.

Helena o olhou com olhos marejados, a dúvida começando a minar a certeza que a consumia. "Mas… como você explica aquilo, Luan? Aquele beijo? Aquele olhar? E ele me disse que te ama…"

Luan fechou os olhos, tentando reviver os momentos que Helena descrevia. A lembrança de Pedro, próximo, o toque dos seus lábios, a sensação embriagadora… era real. Mas o contexto, a intenção… ele não entendia. Havia uma névoa, uma confusão que o impedia de enxergar com clareza.

"Eu… eu não sei, Helena. Eu lembro de algo… mas não era como você descreveu. Eu estava confuso, bêbado… talvez ele tenha se aproveitado. Eu nunca o beijei de propósito. E eu não o amo. Eu… eu me importo com você. Muito. E essa situação me destrói."

Helena o observou por longos minutos, buscando sinais de falsidade em seu rosto, em seus olhos. A dor ainda estava lá, mas uma pequena semente de incerteza começava a germinar. Ela via o desespero em Luan, a genuína angústia. Ele não parecia o traidor que ela imaginava.

"Eu… eu preciso de tempo, Luan. Eu… não sei mais em quem acreditar." A voz dela estava mais calma, mas a ferida ainda pulsava.

"Eu entendo. Mas por favor, não desista de mim. Eu vou descobrir o que aconteceu. Eu vou provar que eu não te traí." A promessa soou em sua voz, uma determinação recém-descoberta emergindo do caos.

Eles ficaram em silêncio por mais um tempo, o som do mar um lamento constante. A noite, que antes parecia romântica, agora era um véu de tristeza e desconfiança. Luan sentiu o peso do mundo em seus ombros. A revelação de Helena era um golpe devastador, e a possibilidade de Pedro tê-lo manipulado de forma tão cruel o enchia de repulsa e raiva.

"Eu preciso ir", Helena disse, levantando-se. Sua voz estava embargada, mas firme.

"Helena, espere. Por favor. Não vá embora assim." Luan se levantou também, a urgência em sua voz.

Ela parou, virando-se para ele. Havia uma fragilidade em seus olhos, uma vulnerabilidade que Luan nunca tinha visto antes. "Eu… eu não posso mais. Preciso pensar. Preciso processar tudo isso."

Sem mais uma palavra, ela se afastou, desaparecendo na escuridão, deixando Luan sozinho na vastidão da Praça do Marco Zero. O vento soprava forte, agitando seu cabelo, como se quisesse levar para longe a dor que o consumia. A lua, antes cúmplice silenciosa, agora parecia zombar dele, iluminando a tragédia que se desdobrava sob seu brilho pálido. Ele sabia que, naquele momento, sua vida havia mudado para sempre. A confiança, a pureza de seus sentimentos, tudo havia sido manchado pela sombra da dúvida e da traição. E a busca pela verdade, ele sabia, seria longa e dolorosa.

Capítulo 19 — O Labirinto de Pedro

O sol da manhã em Recife, ao contrário da noite anterior, parecia carregar um tom mais ameno, mas para Luan, a luz parecia ofuscante, intrusiva. Ele estava em seu quarto, o aroma familiar do café recém-passado pairando no ar, um contraste cruel com o turbilhão de emoções que o assolava. A conversa com Helena, a revelação, o peso da traição – tudo ainda reverberava em sua mente como um eco persistente.

Ele olhou para o reflexo no espelho e viu um estranho. Os olhos, antes cheios de uma vivacidade juvenil, agora estavam sombreados, marcados pela insônia e pela angústia. A imagem de Helena chorando, a dor em seu rosto, era uma tortura que ele não conseguia afastar. Ele a amava como irmã, e a ideia de tê-la ferido, mesmo sem intenção, era insuportável. E Pedro… a figura dele se tornava cada vez mais sombria em sua percepção.

Uma batida suave na porta o tirou de seus devaneios. Era sua mãe, Dona Clara, com um sorriso gentil no rosto, mas que não alcançava seus olhos. Ela sabia que algo estava errado.

"Bom dia, meu filho. Dormiu bem?", ela perguntou, tentando disfarçar a preocupação em sua voz.

Luan forçou um sorriso. "Bom dia, mãe. Mais ou menos. Sonhos um pouco agitados."

Dona Clara entrou no quarto, observando-o atentamente. "Aconteceu alguma coisa com a Helena? Ela me ligou ontem à noite, parecia muito perturbada."

O coração de Luan afundou. Ele não sabia se contava a verdade, se expunha a dor de Helena, ou se tentava manter o segredo. Mas sabia que não podia mentir para sua mãe. "Ela… ela descobriu algo. Algo sobre mim e o Pedro."

Dona Clara franziu a testa, a apreensão crescendo em seus olhos. "Descobriu o quê, Luan? Você está se metendo em problemas?"

"Não, mãe. Não exatamente. É complicado. Ela viu… algo. E o Pedro disse coisas para ela. Coisas que não são verdade. Que eu o amo, que nós… que nós tivemos algo." Ele se sentia envergonhado ao proferir aquelas palavras.

A expressão de Dona Clara mudou de apreensão para choque. "O Pedro disse que ama você? E você e ele… Helena viu vocês juntos?"

Luan assentiu, sentindo o rubor subir por seu pescoço. "Ela viu… algo. Eu não sei explicar. Eu estava confuso, bêbado… eu não me lembro claramente. Mas eu juro, mãe, eu não o amo. E nunca o beijei de propósito. Ele deve ter se aproveitado."

Dona Clara caminhou até ele e o abraçou forte. "Meu filho, eu sei que você não é assim. Eu te conheço. Mas você precisa ter cuidado com esse Pedro. Ele tem um jeito… manipulador. Sempre teve."

A lembrança das palavras de Helena, de que Pedro sempre foi assim, ecoou em sua mente. Havia algo em Pedro que o atraía, uma intensidade que o desarmava, mas agora ele começava a ver a escuridão por trás daquela fachada carismática.

"Eu preciso falar com ele, mãe. Preciso entender o que está acontecendo. Por que ele faria isso?" A voz de Luan era carregada de uma mistura de raiva e confusão.

"Tenha cuidado, meu filho. Não se deixe levar por ele. Lembre-se de quem você é, e do que é importante." Dona Clara o soltou, seus olhos transmitindo todo o seu amor e preocupação.

Mais tarde naquele dia, Luan foi até o estúdio de Pedro. Aquele lugar, que antes representava um refúgio, um espaço de criatividade e paixão compartilhada, agora parecia um covil perigoso. Ele bateu na porta, o som ecoando no silêncio do corredor.

A porta se abriu, revelando Pedro. Ele estava com uma camiseta manchada de tinta, os cabelos levemente desalinhados, mas o olhar… o olhar era o mesmo que Luan via quando estavam juntos, intenso, envolvente. Por um instante, Luan se perdeu naquele olhar, a confusão voltando a assombrá-lo.

"Luan! Que surpresa. Pensei que não viria mais", Pedro disse, um sorriso sutil brincando em seus lábios. O sorriso que Luan costumava amar, mas que agora lhe causava arrepios.

"Precisamos conversar, Pedro", Luan disse, tentando manter a voz firme.

Pedro abriu a porta completamente, gesticulando para ele entrar. "Claro, claro. Venha, sente-se. Quer um café? Um vinho?"

Luan entrou no estúdio, o ambiente familiar, mas agora carregado de uma tensão palpável. As telas espalhadas pelo local, as cores vibrantes, tudo parecia zombar dele. "Eu não quero nada, Pedro. Eu quero a verdade."

Pedro o observou por um momento, seu sorriso desaparecendo lentamente, substituído por uma expressão mais séria. Ele se sentou em um banquinho, a poucos metros de Luan. "Verdade sobre o quê, Luan?"

"Sobre ontem à noite. Sobre o que você disse para a Helena. Sobre… sobre o que ela viu." Luan sentiu o rosto corar novamente, a humilhação de ter que falar aquilo em voz alta.

Pedro olhou para as próprias mãos, os dedos tamborilando no assento do banquinho. "Ah, a Helena. Eu sabia que ela iria surtar."

"Surtar? Ela está devastada, Pedro! E eu também. Você disse que a ama? Que tudo entre nós foi um erro? Que ama a mim?" A voz de Luan subia de tom, a raiva começando a superar a confusão.

Pedro levantou o olhar, encontrando o de Luan. Havia um misto de arrependimento e desafio em seus olhos. "Luan, você sabe que eu não a amo. E você sabe que o que aconteceu entre nós… foi real."

"Eu não o amo, Pedro! Eu não sei o que está acontecendo, mas eu não o amo! E eu nunca o beijei de propósito! Eu não me lembro de nada disso!" Luan insistiu, a frustração crescendo.

Pedro suspirou, levantando-se e caminhando até uma das telas, onde uma pintura abstrata em tons vibrantes dominava o centro. "Luan, você tem sido… tão cego. Tão ingênuo. Você acha que eu faria algo assim? Que eu usaria a Helena para te atingir?"

"Eu não sei mais o que pensar, Pedro! Você a magoou profundamente! E você me diz coisas que me deixam ainda mais confuso!" Luan respondeu, a voz embargada.

"Eu te disse a verdade, Luan! A verdade é que eu te amo! E sim, eu usei a Helena. Porque ela estava no meu caminho. Porque você estava se afastando de mim. E eu não podia te perder." As palavras de Pedro saíram com uma intensidade assustadora, uma confissão fria e calculada que gelou Luan até a medula.

Luan deu um passo para trás, o estômago revirado. "Você… você usou ela? Você a manipulou para me ter de volta?"

Pedro deu um sorriso sombrio. "Não é manipulação, Luan. É… necessidade. Você é a minha inspiração. A minha paixão. Sem você, minha arte morre. E eu… eu morro com ela."

"Isso é doentio, Pedro! Você está doente! Você não pode fazer isso com as pessoas! Você não pode brincar com os sentimentos dos outros assim!" Luan exclamou, a repulsa tomando conta dele.

"Sentimentos? Luan, você fala de sentimentos como se fossem algo fácil de descartar. E o que eu sinto por você não é um sentimento passageiro. É uma força que me consome. E sim, eu usei a Helena. Mas foi por um bem maior. O nosso bem." Pedro deu um passo em direção a Luan, seus olhos brilhando com uma obsessão que assustou Luan ainda mais.

"Não chegue perto de mim, Pedro!", Luan rosnou, recuando mais. "Eu não quero mais nada com você. Eu nunca quis. Eu estava confuso, eu estava… eu estava cego pela sua arte, pela sua intensidade, mas isso acabou. Eu percebi quem você realmente é."

"Você não percebeu nada, Luan. Você está assustado. E é natural. A verdade pode ser assustadora. Mas você vai voltar para mim. Você sempre volta." Pedro disse, com uma confiança perturbadora.

"Nunca mais. Você me assusta, Pedro. E me dá nojo." As palavras saíram com uma firmeza que surpreendeu Luan. Ele nunca se sentiu tão decidido.

Pedro o olhou, um brilho de decepção em seus olhos, mas também uma faísca de determinação. "Você acha isso agora. Mas o tempo cura tudo, Luan. E a arte… a arte sempre encontra seu caminho."

Luan se virou e saiu do estúdio, sem olhar para trás. A porta se fechou atrás dele, selando o fim de algo que ele pensava ser amor, mas que se revelou uma obsessão perigosa. Ele sabia que a batalha contra Pedro não havia acabado. Ele havia revelado uma parte sombria de si, e Luan sentia que estava no centro de um labirinto perigoso, com a figura de Pedro sempre à espreita, pronto para tecer novas teias e prender sua vítima. A lua de Recife, que antes parecia tão romântica, agora era apenas um lembrete da escuridão que se escondia sob sua beleza.

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