Sob a Lua de Recife

Capítulo 20 — A Sombra do Passado

por Enzo Cavalcante

Capítulo 20 — A Sombra do Passado

O aroma do mar, antes um convite à tranquilidade, agora parecia carregar um prenúncio de tempestade para Luan. Ele caminhava pela Orla de Boa Viagem, as ondas quebrando suavemente na areia, um ritmo que contrastava com a agitação em seu peito. Os últimos dias tinham sido um turbilhão de emoções: a revelação devastadora de Helena, a confissão fria e calculada de Pedro, a sensação de ter sido manipulado e traído.

Ele se sentia exausto, a alma pesada. A imagem de Pedro, com aquele olhar de obsessão, o assombrava constantemente. A ideia de ter sido usado, de ter machucado Helena por causa dos jogos de Pedro, o deixava nauseado. Ele tentava se agarrar às palavras de sua mãe, Dona Clara, que o incentivava a manter a calma e a buscar a verdade, mas a complexidade da situação o deixava desorientado.

Uma mensagem em seu celular o fez parar. Era de Rafael, um colega de faculdade que ele não via há algum tempo. "Luan, tudo bem? Fiquei sabendo do ocorrido com a Helena. Sinto muito. Precisamos conversar. Pensei em ir até você, mas achei melhor te encontrar para não te incomodar. Que tal um café no Leite amanhã de manhã? Por volta das 10h?"

Rafael. Um amigo genuíno, alguém que Luan sabia que poderia confiar. A ideia de conversar com ele, de ter uma perspectiva externa, pareceu um bálsamo. Ele respondeu prontamente: "Oi, Rafael. Sim, amanhã no Leite. Preciso mesmo conversar."

Enquanto voltava para casa, Luan se sentiu mais leve. A possibilidade de ter um aliado, alguém que não estivesse envolvido na teia de mentiras de Pedro, era reconfortante. Ele sabia que precisava de apoio para lidar com a situação, e Rafael sempre foi um porto seguro.

Na manhã seguinte, o café Leite, um dos mais tradicionais de Recife, estava movimentado. O aroma do café forte misturado ao cheiro de pão na chapa criava uma atmosfera acolhedora. Luan encontrou Rafael em uma mesa afastada, o sorriso caloroso dele o acolhendo.

"Luan! Que bom te ver, mesmo que as circunstâncias não sejam as melhores", disse Rafael, apertando a mão de Luan com firmeza.

"Oi, Rafael. Obrigado por vir. Preciso mesmo desabafar", Luan respondeu, sentando-se à sua frente.

Rafael pediu dois cafés e um pão de queijo, e enquanto esperavam, Luan começou a contar tudo. Ele falou sobre o beijo com Pedro, sobre a visão de Helena, sobre as palavras dele para ela, e sobre a confissão de Pedro no estúdio. Ele omitiu alguns detalhes mais íntimos, mas o essencial para que Rafael entendesse a gravidade da situação.

Rafael ouvia atentamente, o rosto sério, sem interromper. Quando Luan terminou, um longo silêncio pairou entre eles.

"Cara… isso é pesado", Rafael finalmente disse, sua voz carregada de preocupação. "O Pedro… eu sempre achei ele um cara intenso demais, um pouco obsessivo com a arte dele. Mas isso… usar a Helena desse jeito… é cruel."

"Eu sei. Eu me sinto tão mal por ela. Eu juro que não sabia que ele era capaz de algo assim. Eu sempre o vi como… como alguém com quem eu podia me conectar, compartilhar paixões." Luan suspirou, a voz embargada.

"Eu entendo. A arte dele é magnética, e ele sabe como manipular as pessoas. Mas você precisa se afastar dele, Luan. Completamente. Por você e pela Helena." Rafael pegou a mão de Luan sobre a mesa. "Se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, é só me dizer. Posso ser uma testemunha, se precisar. Ou apenas um ombro amigo."

Luan sentiu uma onda de gratidão. Ter Rafael ali, oferecendo apoio incondicional, era exatamente o que ele precisava. "Obrigado, Rafael. De verdade. Eu acho que… eu preciso de tudo isso agora."

Enquanto conversavam, Luan percebeu que Rafael parecia ter informações que Luan não tinha. Ele sabia sobre o passado de Pedro, sobre a sua reputação no meio artístico.

"Você conhece o Pedro há mais tempo que eu, não é?", Luan perguntou.

Rafael assentiu. "Conheço. Desde a faculdade. Ele sempre foi o 'gênio incompreendido'. Mas também o 'artista atormentado'. Houve histórias, boatos… sobre algumas relações que terminaram de forma um pouco… estranha."

"Que tipo de histórias?", Luan insistiu, sentindo um arrepio.

"Nada concreto. Apenas sussurros. Pessoas que se sentiram usadas, manipuladas. Ele tem um jeito de se tornar indispensável na vida das pessoas, de ser o centro do universo delas. E quando as pessoas tentam se afastar, ele… ele reage mal. De forma intensa." Rafael olhou para Luan, seus olhos transmitindo uma preocupação genuína. "Eu sempre fui cauteloso com ele, Luan. Sua arte é incrível, mas a pessoa… a pessoa é um enigma perigoso."

As palavras de Rafael confirmaram os medos de Luan. Ele estava preso em um jogo que não entendia completamente, manipulado por um homem que parecia estar disposto a tudo para tê-lo. Ele se lembrou de um antigo amor de Pedro, um rapaz chamado Tiago, que havia sumido misteriosamente da vida dele há alguns anos. Seria Tiago mais uma vítima da obsessão de Pedro?

"E o Tiago? Você lembra dele?", Luan perguntou, a voz hesitante.

Rafael franziu a testa. "Tiago? O Tiago que era o namorado do Pedro antes de você? Sim, lembro. Ele sumiu de repente, não foi? Ninguém soube para onde ele foi. A gente achou que ele tinha se mudado, ou que eles tinham terminado de forma amigável. Mas agora que você fala… com o que aconteceu com a Helena… é estranho."

A sombra do passado pairava sobre eles, escura e ameaçadora. Luan sentiu um nó na garganta. Seria possível que Pedro tivesse um histórico de manipulação e obsessão? Ele sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele precisava descobrir mais sobre o passado de Pedro.

"Rafael, eu acho que preciso ir mais fundo nisso. Preciso entender quem é o Pedro de verdade. Você se importaria de me ajudar a investigar? Talvez falar com algumas pessoas que o conheciam na época do Tiago?" Luan implorou, a urgência em sua voz.

Rafael hesitou por um momento, ponderando os riscos. Mas vendo a determinação nos olhos de Luan, e a sinceridade de seu desespero, ele concordou. "Claro, Luan. Você não está sozinho nessa. Vamos descobrir a verdade. Juntos."

O resto da manhã passou em uma névoa de planejamento e conversas. Rafael, com seus contatos e sua inteligência, tornou-se um recurso valioso para Luan. Ele prometeu tentar falar com alguns amigos em comum que poderiam ter informações sobre o desaparecimento de Tiago e as relações passadas de Pedro.

Enquanto Luan voltava para casa, a Orla de Boa Viagem parecia um palco diferente. As ondas, antes calmas, agora pareciam mais fortes, mais turbulentas, refletindo a tempestade que ele sentia em sua alma. Ele sabia que a verdade sobre Pedro seria dolorosa, mas ele estava determinado a descobri-la. A sombra do passado de Pedro era longa e obscura, e Luan temia o que eles poderiam encontrar, mas a necessidade de proteção, de proteger a si mesmo e a Helena, era maior do que o medo. A lua de Recife, observando tudo do alto, parecia esconder segredos antigos, e Luan sentiu que estava prestes a desenterrá-los, um a um.

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