Sob a Lua de Recife
Capítulo 22 — O Jogo de Sombras
por Enzo Cavalcante
Capítulo 22 — O Jogo de Sombras
A revelação sobre a obra "Tiago" e a conversa com o Sr. Elias deixaram Luan em um estado de choque e apreensão. A beleza hipnotizante da arte de Pedro, que antes o seduzia, agora parecia tingida de perigo. A ideia de que o ponto vermelho na tela pudesse representar sangue, o último vestígio de uma vida ceifada pela obsessão de Pedro, era um pensamento que o assombrava incessantemente.
Ele passava horas com Rafael, analisando cada detalhe que conseguiam descobrir sobre Tiago e os últimos dias dele antes de desaparecer. Eles conversavam com pessoas que conheciam Tiago, mas a maioria se lembrava dele como um jovem vibrante, apaixonado por Pedro, e totalmente alheio à escuridão que parecia envolver seu namorado. A única constante era a intensidade da relação com Pedro, uma paixão avassaladora que, para alguns, parecia sufocante.
"Não é possível que a polícia nunca tenha investigado a fundo o desaparecimento de Tiago", Luan desabafou, enquanto folheava antigas notícias online com Rafael.
"Na época, era tudo mais… discreto. E Pedro sempre soube como se apresentar. Um artista sensível, atormentado pela perda do amor. Quem suspeitaria dele?", Rafael respondeu, a frustração evidente em sua voz. "Mas o tempo pode ter trazido novas evidências, ou talvez novas pessoas que se sintam confortáveis para falar."
Luan sabia que precisava de algo mais concreto. As suspeitas, por mais fundadas que fossem, não eram suficientes. Ele precisava de provas. E, para isso, ele precisava confrontar Pedro novamente. Não com raiva, mas com uma estratégia.
Ele decidiu que a melhor forma de conseguir informações de Pedro seria fingir que ainda estava sob seu encanto, que a revelação sobre Helena o havia confundido, mas não o afastado completamente. Era um jogo perigoso, mas Luan sentia que era a única chance que tinha.
Ele enviou uma mensagem a Pedro, com um tom hesitante e confuso: "Pedro, eu… eu não consigo parar de pensar em tudo. O que você disse… me deixou muito confuso. Queria conversar de novo. Talvez… talvez eu tenha sido muito precipitado."
A resposta de Pedro veio quase instantaneamente, um misto de alívio e triunfo em suas palavras. "Luan! Que bom que você pensa assim. Eu sabia que você entenderia. Acontece. A paixão às vezes nos leva a caminhos inesperados. Que tal virmos ao meu estúdio amanhã à tarde? Podemos conversar com calma. Sem pressa."
O estúdio. O mesmo lugar onde Pedro confessara suas manipulações, onde a verdade fria e calculista havia se revelado. Luan sentiu um calafrio, mas sabia que era o lugar certo. Era o território de Pedro, e ele precisava enfrentá-lo ali.
No dia seguinte, Luan foi ao estúdio de Pedro com uma estratégia bem definida. Ele estava preparado para fingir, para jogar o jogo de Pedro, mas com um objetivo claro: extrair informações sobre Tiago. Ele sabia que Pedro era orgulhoso de sua arte, de sua capacidade de expressar suas emoções mais profundas através dela. Talvez, manipulando essa vaidade, Luan pudesse obter o que precisava.
Ao chegar, Pedro o recebeu com um sorriso radiante, que Luan sabia ser falso, mas que, por um momento, o fez hesitar. A intensidade do olhar de Pedro, o modo como ele o envolvia com sua atenção, ainda tinha um efeito perturbador.
"Luan! Que bom que você veio. Eu estava com saudades", Pedro disse, abraçando-o com força. Luan retribuiu o abraço com relutância, o corpo tenso.
Eles se sentaram em um sofá confortável, e Pedro serviu vinho. Luan aceitou, sabendo que precisaria de um pouco de coragem extra.
"Eu… eu pensei muito, Pedro", Luan começou, a voz cuidadosamente ensaiada para soar confusa e vulnerável. "Eu sei que você se importa comigo. E eu… eu também me importo com você. O que aconteceu com a Helena… foi um mal-entendido. Eu não quero que isso nos afaste."
Pedro sorriu, um sorriso satisfeito. "Eu sabia que você não era capaz de me deixar. O que sentimos é forte demais, Luan. É arte. É paixão. É… inevitável."
"É… é inevitável", Luan concordou, sentindo um nó na garganta. Ele tomou um gole generoso de vinho. "Sabe, eu tenho pensado muito sobre a sua arte. Especialmente sobre algumas peças que eu não entendia antes. Aquela exposição… 'Vazio e Plenitude'. Aquela tela… 'Tiago'. Ela me intriga."
O rosto de Pedro mudou sutilmente. A expressão de triunfo deu lugar a um lampejo de algo mais sombrio, uma cautela que Luan não havia visto antes. "Ah, 'Tiago'. Uma obra… complexa. De um período difícil."
"Eu me pergunto… o que você quis dizer com aquele ponto vermelho. O Sr. Elias mencionou que você disse que era o último vestígio de vida. Mas… e se não fosse de vida? E se fosse… de outra coisa?", Luan provocou, olhando diretamente nos olhos de Pedro.
Pedro ficou em silêncio por um momento, o olhar fixo em Luan. Luan podia sentir a tensão no ar, a mente de Pedro trabalhando furiosamente. Ele estava jogando um jogo perigoso, e Pedro era um mestre.
"Você está indo longe demais, Luan", Pedro disse, a voz baixa e perigosa. "Algumas coisas é melhor deixar no passado. São dores que… que ninguém deveria reviver."
"Mas eu não consigo deixar para trás, Pedro. Especialmente se isso estiver conectado com o que está acontecendo entre nós. Eu sinto que há algo que você esconde. Algo que você precisa me contar para que eu possa entender você. Para que eu possa… te amar completamente." Luan continuou o jogo, apelando para a vaidade e a necessidade de Pedro de ser compreendido.
Pedro se levantou, caminhando até a tela em que estava trabalhando, um emaranhado de cores escuras e formas abstratas. Ele pegou um pincel, mexendo a tinta com uma intensidade quase frenética.
"Você quer entender? Você quer a verdade? A verdade é que amar não é apenas criar, Luan. É possuir. É proteger. É… garantir que ninguém mais o leve para longe de você." A voz de Pedro estava carregada de uma emoção crua, mas ainda assim, fria.
Luan sentiu um calafrio. "Proteger? De quem, Pedro?"
"De todos. Daqueles que não entendem. Daqueles que querem te roubar. Tiago… ele era um fogo que me consumia. Mas ele queria ir embora. Queria ser livre. E eu… eu não podia permitir isso." A confissão saiu em um sussurro, quase inaudível, mas carregada de um peso esmagador.
Luan sentiu o estômago revirar. "Então… o que aconteceu com ele? O que você fez com ele, Pedro?"
Pedro se virou, o olhar fixo em Luan, um misto de dor, fúria e um estranho contentamento em seus olhos. "Eu o protegi, Luan. Para sempre. A tela 'Tiago'… o ponto vermelho não era o último suspiro de vida. Era o último suspiro de cor em um mundo que ele queria apagar. E eu… eu o ajudei a encontrar a paz. A paz eterna."
As palavras de Pedro caíram como pedras no silêncio do estúdio. Luan sentiu seu corpo inteiro gelar. A verdade, mais terrível do que ele jamais imaginara, havia se revelado. Pedro havia matado Tiago. Ele o havia matado por ciúmes, por obsessão, por não suportar a ideia de perdê-lo.
Luan sentiu uma onda de pânico tomar conta dele. Ele estava ali, sozinho, no covil do assassino. Ele sabia que precisava sair dali, precisava denunciar Pedro. Mas o medo o paralisou.
Pedro percebeu a mudança no rosto de Luan. O jogo havia acabado. A máscara havia caído. Ele deu um sorriso sombrio. "Você finalmente entende, não é, Luan? Você finalmente me vê como eu sou. E você… você também tem essa intensidade. Essa paixão. Você também pode ser meu. Para sempre."
Pedro começou a caminhar em direção a Luan, o olhar fixo nele, a mesma obsessão que ele havia demonstrado por Tiago agora direcionada a Luan. Luan se levantou abruptamente, o copo de vinho caindo e se espatifando no chão.
"Não, Pedro. Eu não sou como você. Eu nunca serei", Luan disse, sua voz firme apesar do medo que o consumia. Ele deu um passo para trás, buscando a saída.
"Você pode tentar fugir, Luan. Mas a arte sempre encontra seu caminho. E o amor… o amor verdadeiro… é eterno", Pedro disse, com um tom de quem sabia que estava falando a verdade.
Luan não podia mais suportar. Ele se virou e correu em direção à porta, o som dos passos de Pedro ecoando atrás dele. Ele precisava sair dali. Precisava contar a alguém. Precisava parar Pedro antes que ele fizesse com ele o que fez com Tiago. A lua de Recife, lá fora, parecia testemunhar o desenrolar de um pesadelo, um jogo de sombras onde a linha entre arte e loucura se tornara perigosamente tênue.