Sob a Lua de Recife
Capítulo 23 — A Fuga Sob a Chuva
por Enzo Cavalcante
Capítulo 23 — A Fuga Sob a Chuva
O som dos passos de Pedro se aproximando, misturado ao barulho do vinho derramado se espalhando pelo chão do estúdio, ecoava na mente de Luan como um prenúncio de desgraça. O ar, antes carregado pela intensidade da arte e pela fragrância do vinho, agora parecia sufocante, denso com o cheiro de perigo iminente. Luan sentiu um frio na espinha, um medo visceral que o impulsionou a agir.
Ele se virou e correu em direção à porta, cada músculo do seu corpo tenso em uma corrida desesperada pela vida. O estúdio, antes um espaço de criatividade e conexão, agora se transformara em uma armadilha mortal. Ele podia sentir o olhar de Pedro em suas costas, um peso opressor que o incentivava a acelerar.
"Luan! Você não pode fugir de mim!", a voz de Pedro soou atrás dele, carregada de uma fúria contida, mas um tom de quem sabia que o jogo estava longe de acabar.
Luan não respondeu. Ele agarrou a maçaneta da porta, o metal frio sob seus dedos trêmulos. Girou-a com força e a abriu bruscamente, encontrando a claridade inesperada do fim de tarde. O céu, antes nublado, agora desabava em uma chuva torrencial, como se a própria natureza estivesse chorando diante da crueldade humana.
Ele saiu para a rua, sem se importar com a tempestade que o atingia. A água fria em seu rosto era um choque bem-vindo, uma forma de se livrar da sensação de sufocamento que sentira no estúdio. Ele correu sem rumo, as ruas de Recife subitamente transformadas em rios de água escura.
"Luan! Pare!", Pedro gritou novamente, a voz distante, mas ainda assim poderosa o suficiente para fazê-lo acelerar.
Luan sabia que precisava chegar a um lugar seguro, precisava contar a alguém. Rafael. Ele precisava de Rafael. Ele olhou para o celular em seu bolso, as mãos molhadas dificultando a tarefa de ligar. Ele correu, tropeçando em alguns lugares, a adrenalina misturada ao medo correndo em suas veias.
Ele conseguiu discar o número de Rafael, a voz embargada pela corrida e pelo desespero. "Rafael! Me ajuda! Estou correndo do Pedro! Ele… ele matou o Tiago! Eu sei que ele matou!"
Do outro lado da linha, Rafael ouviu o pânico na voz de Luan. Ele reconheceu a urgência, a verdade incontestável em sua voz. "Luan! Onde você está? Me diga onde você está!"
Luan tentou descrever a rua, o bairro, mas a chuva e a confusão dificultavam. "Eu… eu não sei! Estou correndo… acho que estou perto da Praça do Carmo!"
"Fique aí! Não pare de correr! Vou chamar a polícia! E estou indo te encontrar!", Rafael respondeu, a voz firme e determinada.
Luan sentiu um fio de esperança. Ele não estava sozinho. Havia pessoas que acreditavam nele, que o ajudariam. Ele continuou correndo, a chuva agora parecendo menos hostil, mais como um véu que o protegia. Ele imaginou Pedro, lá atrás, frustrado, furioso, mas incapaz de alcançá-lo.
Ele finalmente avistou a Praça do Carmo, suas palmeiras balançando violentamente com o vento. Ele se aproximou da entrada de uma cafeteria, buscando refúgio, buscando ar. Ele se encostou na parede, ofegante, a chuva caindo sobre ele, mas sentindo um alívio imenso por ter escapado.
Minutos depois, um carro freou bruscamente ao seu lado. Era Rafael. Ele saiu do carro, o rosto marcado pela preocupação, e correu até Luan.
"Luan! Você está bem?", Rafael perguntou, abraçando-o com força.
Luan apenas assentiu, incapaz de falar. Ele estava exausto, mas aliviado. Ele estava seguro.
"Eu já chamei a polícia. Eles estão a caminho. E eu já avisei a Helena. Ela está a caminho também", Rafael disse, mantendo Luan seguro em seus braços.
A chegada da polícia foi rápida. Luan, ainda trêmulo, contou sua versão dos fatos. Ele descreveu a confissão de Pedro, a obra "Tiago", a obsessão doentia. Os policiais, ouvindo o relato com atenção, sabiam que tinham um caso sério em mãos.
Enquanto Luan era levado em segurança para um local discreto, Helena chegou, o rosto pálido e os olhos cheios de preocupação. Ao ver Luan, ela correu para abraçá-lo, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
"Luan! Graças a Deus você está bem! Eu estava tão preocupada!", ela disse, apertando-o com força.
Luan retribuiu o abraço, sentindo a força da união deles. "Eu sinto muito, Helena. Por tudo. Por ter te machucado. Por ter me envolvido com ele."
"Não diga isso. A culpa não é sua. A culpa é dele. E nós vamos provar isso", Helena disse, a voz firme, mas com a emoção transbordando.
Enquanto isso, a polícia se dirigia ao estúdio de Pedro. Eles o encontraram lá, sentado em frente à tela inacabada, o olhar perdido no vazio. Ele não ofereceu resistência. Quando os policiais o interrogaram sobre Tiago, ele apenas sorriu, um sorriso sombrio e perturbador. "Ele é meu. Para sempre."
A notícia se espalhou rapidamente pela cidade. O gênio artístico, o homem carismático, era, na verdade, um assassino. A arte de Pedro, antes admirada por sua intensidade, agora era vista com desconfiança e repulsa.
Luan, Helena e Rafael se reuniram em um café, o silêncio preenchido apenas pelo som da chuva que ainda caía lá fora. A tempestade que havia começado com a revelação de Helena, se intensificara com a confissão de Pedro, e agora, parecia estar diminuindo, deixando para trás um rastro de dor, mas também de esperança.
"Nós conseguimos, Luan", Rafael disse, com um sorriso cansado, mas vitorioso. "Você provou a verdade."
Luan olhou para Helena, para Rafael, e sentiu um misto de alívio e tristeza. Ele havia se livrado do perigo, mas a cicatriz daquela experiência, da manipulação e da mentira, ficaria para sempre. A lua de Recife, escondida atrás das nuvens de chuva, parecia agora um farol de esperança, um lembrete de que, mesmo nas noites mais escuras, a verdade sempre encontra um caminho para brilhar.