Sob a Lua de Recife
Sob a Lua de Recife
por Enzo Cavalcante
Sob a Lua de Recife
Autor: Enzo Cavalcante
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Capítulo 6 — A Sombra do Passado em Olinda
O sol implacável de Recife banhava as ladeiras de Olinda em um dourado quase sagrado. Para Lucas, no entanto, o calor parecia vir de dentro, uma febre que não era causada apenas pela temperatura tropical, mas pela presença de Theo ao seu lado. Caminhavam lado a lado, os ombros se roçando de leve a cada passo, uma proximidade que acendia faíscas em Lucas, um misto de euforia e um medo sutil e persistente. Olinda, com sua beleza barroca e suas igrejas centenárias, era um cenário perfeito para o florescer de algo novo, mas Lucas sentia que a história que se desdobrava ali era apenas um interlúdio antes de um ato mais sombrio.
"Você já veio aqui antes, Theo?", perguntou Lucas, a voz um pouco mais rouca do que o normal. Ele tentava disfarçar o nervo. Olhava para o mar azul-turquesa que se estendia à frente, um espelho do céu imaculado, mas seus olhos voltavam, quase que involuntariamente, para o rosto de Theo. O perfil dele, iluminado pelo sol, era uma obra de arte em movimento. As rugas finas ao redor dos olhos, que apareciam quando ele sorria, eram um convite silencioso.
Theo sorriu, um sorriso que alcançava seus olhos e o fazia brilhar. "Sim, muitas vezes. Minha avó morava aqui. Vínhamos com frequência quando eu era criança. Mas faz tempo. Olinda sempre me traz boas memórias, mas também… um certo peso." Ele suspirou levemente, e Lucas sentiu uma pontada de curiosidade, um desejo de saber mais sobre o que se escondia sob a superfície calma de Theo.
Eles pararam em frente à Igreja da Sé, a vista panorâmica tirando o fôlego de qualquer um. O vento fresco que soprava do Atlântico trazia o cheiro salgado do mar e o perfume adocicado das buganvílias que cobriam os muros antigos. Lucas se sentiu pequeno diante da imensidão da paisagem e da história que parecia impregnada em cada pedra.
"É lindo, não é?", disse Theo, a voz impregnada de uma nostalgia que Lucas começou a reconhecer como um traço definidor do homem. "Sinto como se cada pedacinho daqui tivesse uma história para contar. E algumas dessas histórias… prefiro que fiquem guardadas." Ele lançou um olhar evasivo para Lucas, um olhar que dizia muito, mas revelava pouco.
Lucas assentiu, sentindo a tensão sutil no ar. Era como se um véu invisível pairasse entre eles, um véu que ele desesperadamente queria rasgar. "Eu entendo. Às vezes, as memórias mais bonitas vêm com um quê de melancolia. É o preço que pagamos por sentir, eu acho." Ele se aproximou um pouco mais, o calor do corpo de Theo era quase palpável. O perfume dele, uma mistura de cítricos e algo mais amadeirado, o envolvia como um abraço.
"Você fala de sentir como se fosse algo simples", Theo comentou, desviando o olhar para um grupo de turistas que passava. "Para mim, sentir às vezes é… complicado. Um campo minado."
Lucas sentiu o estômago revirar. "Complicado como? Alguma coisa que você queira compartilhar?" Ele ousou tocar o braço de Theo, um toque rápido, quase imperceptível, mas que fez o corpo dele reagir. Um leve tremor, uma rigidez momentânea.
Theo se afastou um passo, um movimento quase imperceptível, mas que Lucas sentiu como um golpe. Ele tentou disfarçar, focando na paisagem novamente. "Não é nada. Apenas… a vida. Coisas que acontecem." A voz dele estava mais tensa.
Eles continuaram a caminhada, passando por casarões coloniais com suas fachadas coloridas e azulejos desgastados pelo tempo. Lucas tentou puxar assunto, falando sobre a música que ele estava compondo, sobre a energia vibrante de Recife que o inspirava. Theo ouvia atentamente, fazia perguntas pertinentes, mas havia uma distância em seu olhar que Lucas não conseguia decifrar. Era como se parte dele estivesse ausente, preso em algum lugar no passado.
Ao descerem a ladeira em direção ao Largo da Misericórdia, encontraram um grupo de artistas de rua tocando frevo. O ritmo contagiante tomou conta do ar, e Theo, para a surpresa de Lucas, começou a sorrir de verdade, um sorriso genuíno que iluminou todo o seu rosto. Ele até arriscou alguns passos desajeitados, rindo de si mesmo. Lucas o observava, o coração batendo forte. Era nesse Theo, o Theo que se entregava à música e à alegria, que ele se apaixonava mais a cada instante.
De repente, uma voz estridente cortou o ar, um grito que fez o corpo de Theo enrijecer instantaneamente. "Theo! Meu Deus, Theo! É você mesmo?"
Uma mulher, com cabelos cor de fogo e um vestido vibrante, avançou em direção a eles com um sorriso largo e um tanto invasivo. Lucas parou, observando a reação de Theo, que parecia ter congelado no lugar. Seu rosto perdeu toda a cor, e seus olhos se arregalaram em um misto de choque e pavor.
"Mãe?", a voz de Theo saiu como um sussurro rouco, quase inaudível.
A mulher, que era inegavelmente a mãe de Theo, o abraçou com uma força que parecia querer sufocá-lo. "Theo, meu amor! Que surpresa maravilhosa te encontrar aqui! E quem é esse seu amigo bonito?" Ela se afastou, os olhos avaliando Lucas de cima a baixo com uma intensidade que o fez se sentir desconfortável.
Lucas forçou um sorriso, sentindo o olhar penetrante da mulher sobre ele. "Sou Lucas. Prazer em conhecê-la."
"Ah, um amigo! Que bom, Theo, você precisa sair mais, se divertir um pouco!", ela disse, com um tom de reprovação disfarçada. "Você anda tão… recluso ultimamente. Aconteceu alguma coisa?" Seus olhos voltaram para Theo, e Lucas pôde ver uma linha de preocupação se formar na testa do homem.
Theo respirou fundo, tentando recuperar a compostura. "Mãe, o que você está fazendo aqui? Pensei que estivesse viajando."
"Voltei mais cedo. E estava passeando por Olinda, lembrando dos velhos tempos. E te encontrei! Que sorte a nossa!" Ela deu um tapinha no braço de Theo. "Precisamos conversar, meu filho. Sabe que a casa não anda fácil, e o… ele… não anda nada bem."
O corpo de Theo pareceu encolher. Lucas sentiu uma onda de compaixão, misturada a uma crescente apreensão. "Ele" quem? E o que significava "a casa não anda fácil"? As perguntas rodopiavam em sua mente, mas ele sabia que não era o momento certo para fazê-las. O clima havia mudado drasticamente. A alegria do frevo, a beleza de Olinda, tudo parecia ter sido ofuscado pela sombra que a chegada da mãe de Theo havia projetado.
"Eu… eu preciso ir agora, mãe", Theo disse, a voz tensa. "Tenho um compromisso." Ele olhou para Lucas, um pedido silencioso de desculpas no olhar.
"Ah, claro, meu filho. Não vou te atrasar. Mas você me liga, não é? Precisamos marcar um almoço. E você, Lucas", ela se virou para ele, o sorriso voltando com força total, "adoraria te conhecer melhor. Theo fala muito sobre os amigos dele… embora eu ache que ele poderia se abrir mais com a própria família."
Lucas sentiu um arrepio. Era como se a mãe de Theo soubesse mais do que deixava transparecer. Ou talvez fosse apenas a sua própria insegurança falando mais alto. Ele apenas assentiu, tentando manter a calma.
"Claro. Quem sabe um dia", ele respondeu, a voz firme, mas o coração acelerado.
Enquanto Theo se despedia de sua mãe com um abraço rápido e um pouco forçado, Lucas sentiu um peso no peito. Aquele encontro inesperado havia jogado uma luz fria sobre a vida de Theo, revelando camadas de complexidade e talvez até de dor que Lucas não havia imaginado. O caminho para o coração de Theo parecia ter se tornado mais tortuoso, e a lua de Recife, que antes parecia prometer um romance sereno, agora lançava sombras mais longas e intrigantes sobre o futuro deles.