O Chamado da Jurema Sagrada

O Chamado da Jurema Sagrada

por Pedro Carvalho

O Chamado da Jurema Sagrada

Autor: Pedro Carvalho

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Capítulo 1 — O Sussurro da Mata Ancestral

O sol, um disco de fogo preguiçoso, escorria por entre as folhas densas da Mata Atlântica, pintando o chão de dourado e sombra em um jogo hipnótico. O ar era espesso, carregado com o perfume úmido da terra, das flores selvagens e de algo mais, algo antigo e indomável que só os corações mais atentos conseguiam sentir. No meio daquela imensidão verde, onde o tempo parecia ter parado, vivia Isadora. Seus olhos, da cor de jabuticabas maduras, observavam o mundo com uma mistura de melancolia e uma força silenciosa, como a de uma raiz que se agarra à rocha.

Ela não era como as outras moças da pequena vila de São Benedito, aninhada à beira da mata. Enquanto elas sonhavam com bailes, com os rapazes que ostentavam camisas de seda fina e um futuro de certa tranquilidade, Isadora sentia um chamado diferente, um chamado que vinha do profundo, do inexplorado. Era o chamado da Jurema Sagrada, uma árvore lendária sobre a qual sua avó, Dona Benedita, contava histórias em sussurros ao pé da lareira. Diziam que a Jurema guardava os segredos da terra, a sabedoria dos ancestrais, e que apenas aqueles com um coração puro e um destino traçado poderiam ouvi-la.

Naquele dia, Isadora se aventurara mais fundo na mata do que jamais ousara. O sol já começava a se pôr, tingindo o céu de tons alaranjados e arroxeados, quando ela se deu conta da vastidão que a cercava. O familiar murmúrio dos pássaros deu lugar a um silêncio carregado de expectativa. Um arrepio percorreu sua espinha, não de medo, mas de uma excitação quase dolorosa. Havia algo ali, algo que a puxava, uma energia sutil que parecia vibrar em suas veias.

Ela se ajoelhou diante de uma clareira incomum, onde a luz do crepúsculo se concentrava como um holofote. No centro, uma árvore esguia e prateada se erguia em direção ao céu, com folhas de um verde tão intenso que pareciam brilhar por si só. Não era a Jurema das histórias, mas algo… próximo. A casca da árvore era lisa e fria ao toque, e quando Isadora pousou a mão nela, um choque elétrico suave a percorreu. Uma visão fugaz surgiu em sua mente: um céu estrelado, um rio de prata correndo sob a lua cheia e a silhueta de uma mulher dançando à beira d'água.

"Vovó...", murmurou Isadora, a voz embargada pela emoção.

De repente, um som rompeu o silêncio da mata. O tropel de cavalos. Eram eles. Os homens do Coronel Ramiro, o senhor de engenho cujas terras se estendiam por toda a região, e que exercia um poder absoluto sobre São Benedito. O coração de Isadora disparou. Ela sabia que não deveria estar ali, tão longe de casa, especialmente agora.

Um cavaleiro surgiu na clareira, iluminado pela luz moribunda. Era Lucas, o filho do Coronel. Jovem, de porte altivo, com os olhos azuis penetrantes que sempre a desarmavam. Ele parou abruptamente ao vê-la, a surpresa estampada em seu rosto.

"Isadora! O que faz aqui, tão tarde e tão sozinha?", a voz de Lucas era uma mistura de repreensão e preocupação.

Isadora se levantou, alisando o vestido simples de algodão. "Eu... eu me perdi um pouco, Lucas." Mentira. Ela sabia que não se perdera. Ela fora guiada.

Lucas desmontou, aproximando-se dela com passos cautelosos. O cheiro de suor e couro que emanava dele era familiar e, de alguma forma, reconfortante. "A mata não é lugar para se estar com o cair da noite. Meu pai ficaria furioso se soubesse."

"E o seu pai ficaria furioso se soubesse que você está aqui me procurando, não é mesmo?", Isadora retrucou, um leve sorriso brincando em seus lábios. Havia uma tensão entre eles, um fogo latente que nem o tempo nem a distância pareciam apagar.

Lucas a olhou nos olhos, e por um instante, a fachada de superioridade e autoridade desmoronou. "Eu... eu estava patrulhando a divisa. Vi sua casa vazia e pensei..."

"Pensou em me achar perdida na floresta, como uma donzela indefesa?", ela completou, a voz tingida de ironia, mas com um quê de ternura que não passava despercebido por ele.

Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros. "Isadora, você é teimosa. E perigosa, quando se mete em confusão." Ele estendeu a mão para ela. "Venha. Vou levá-la para casa antes que as sombras engulam tudo."

Isadora hesitou por um momento. A mão de Lucas parecia um convite para um mundo diferente, um mundo de regras e convenções que ela sentia repulsa. Mas o chamado da Jurema ainda ressoava em seu peito, uma promessa de algo maior. E, por mais que lutasse, havia uma parte dela que pertencia àquele homem, àquela terra, àquela vida que ela tentava rejeitar.

Ela aceitou a mão dele. Ao toque, um novo arrepio a percorreu. Era um toque firme, quente. Ela subiu no cavalo atrás dele, sentindo o calor de seu corpo contra o seu. O cavalo relinchou, como se sentisse a eletricidade que emanava dos dois.

Enquanto cavalgavam de volta para a vila, o silêncio entre eles era preenchido pelos sons da mata noturna e pelos batimentos acelerados de seus corações. Isadora olhava para a lua crescente que começava a despontar entre as nuvens, sentindo que aquele encontro, naquela clareira secreta, fora apenas o prelúdio de algo muito maior. A Jurema a chamava, e Lucas, com sua presença imponente e seu olhar que parecia desvendar sua alma, era parte desse chamado, para o bem ou para o mal. Ela sabia que sua vida em São Benedito estava prestes a mudar, de uma forma que ela ainda não conseguia compreender, mas que sentia em cada fibra do seu ser. O destino estava em movimento, e a mata, com seus mistérios ancestrais, era o palco principal.

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