O Chamado da Jurema Sagrada
Capítulo 2 — As Sombras do Passado e o Brilho do Futuro
por Pedro Carvalho
Capítulo 2 — As Sombras do Passado e o Brilho do Futuro
O ar na casa de Dona Benedita era sempre carregado de cheiros reconfortantes: ervas secas, fumaça de lenha e o aroma adocicado de bolos recém-assados. Mas naquela noite, sob a luz trêmula da lamparina, uma tensão palpável pairava no ambiente. Isadora, ainda sob o efeito do encontro na mata e da estranha energia que sentira, tentava disfarçar o turbilhão em sua alma.
"Você demorou, minha filha", disse Dona Benedita, a voz grave e sábia, os olhos fundos fixos em Isadora. A velha senhora, com seus cabelos brancos como a neve e um semblante que carregava as marcas de muitas histórias, possuía uma intuição aguçada, capaz de ler os pensamentos mais ocultos.
Isadora sentou-se à mesa de madeira rústica, onde um prato de mingau a esperava. "Eu me perdi, vovó. A mata é traiçoeira à noite."
Dona Benedita serviu uma xícara de chá de camomila. "A mata não trai, Isadora. Ela mostra o que precisa ser mostrado. E hoje, ela mostrou algo a você, não foi?" Seus olhos penetraram os de Isadora, como se buscassem as verdades que ela ainda não ousava verbalizar.
Isadora engoliu em seco. Como contar à avó sobre a árvore prateada, sobre a visão fugaz, sobre o toque de Lucas? Parecia um sonho febril, algo que só ela entenderia. "Eu vi... uma árvore diferente. E senti algo estranho."
Um sorriso enigmático se espalhou pelos lábios de Dona Benedita. "A Jurema tem muitos filhos, e ela fala com quem tem ouvidos para ouvir. Algumas vezes, ela se revela em visões, outras em sentimentos. E às vezes, ela nos mostra o caminho através de outras pessoas."
O coração de Isadora deu um pulo. Ela sabia que a avó se referia a Lucas. "Outras pessoas?"
"O destino, minha neta, é um rio sinuoso. E nós, com nossos desejos e nossas obrigações, somos apenas barcos à deriva. Às vezes, encontramos outros barcos no caminho, e juntos navegamos. Outras vezes, a corrente nos empurra para longe, e a solidão se torna nossa única companheira." Dona Benedita suspirou, a melancolia tingindo sua voz. "Seu avô, o pai do seu pai... ele também sentiu o chamado. A mata o abraçou, e ele se foi, em busca do que a Jurema prometia."
As palavras da avó atingiram Isadora como um golpe. Ela sabia pouco sobre seu avô paterno, apenas que ele desaparecera quando seu pai era criança, deixando um rastro de mistério e dor. "O senhor Manuel? Mas disseram que ele fugiu, que abandonou a família..."
Dona Benedita balançou a cabeça. "Fugiu? Ou foi chamado? As pessoas falam o que querem, Isadora. Mas a verdade é que ele se sentiu atraído por algo mais forte do que as amarras deste mundo. Algo que, talvez, sua linhagem ainda carregue."
Enquanto a avó falava, Isadora sentia uma vertigem, como se as paredes da cabana estivessem se dissolvendo, revelando um horizonte de possibilidades assustadoras e fascinantes. A força que sentira na mata, o toque de Lucas, as palavras da avó – tudo parecia se encaixar em um padrão ainda não revelado.
Na manhã seguinte, o sol nasceu com a promessa de um novo dia, mas a brisa que soprava pela janela trazia consigo o prenúncio de tempestade. Na praça da vila, o burburinho era intenso. Os homens do Coronel Ramiro estavam reunidos, seus cavalos relinchando impacientes. O Coronel, com seu chapéu de abas largas e um olhar que intimidava até os mais valentes, comandava a cena.
Lucas estava ao lado do pai, o rosto fechado, a postura rígida. Ele lançou um olhar para Isadora, que observava a cena de longe, escondida atrás de uma cortina. Um olhar que misturava resignação e um toque de desafio.
"O que está acontecendo, vovó?", Isadora perguntou a Dona Benedita, que se aproximara, os olhos fixos na agitação.
"O Coronel está reunindo os homens. Dizem que houve roubo de gado na fazenda vizinha. Ele vai organizar uma perseguição", respondeu Dona Benedita, a voz baixa.
Isadora sentiu um aperto no peito. Ela conhecia a fama do Coronel Ramiro. Sua crueldade era tão lendária quanto sua riqueza. E Lucas, seu filho, estava em meio a tudo isso. Ela se lembrou da noite anterior, da preocupação genuína nos olhos dele.
De repente, Lucas se afastou do pai e caminhou em direção a ela. Os olhares de todos se voltaram para a cena. O Coronel Ramiro bufou, mas não disse nada.
"Isadora", Lucas disse, a voz tensa. "Meu pai vai sair em perseguição. Ele me obrigou a ir. Não quero ir. Mas preciso ir."
"Por quê?", Isadora perguntou, a voz mal passando de um sussurro.
"É uma questão de honra para ele. E eu... eu não posso desafiá-lo diretamente. Ainda não." Ele a olhou nos olhos, e Isadora viu a angústia ali. "Mas saiba que meu coração não está nisso. E que a culpa não é sua por eu ter te encontrado ontem. Nem minha."
"Eu sei", ela respondeu, tocando suavemente o braço dele. Um gesto impulsivo, que fez o corpo de Lucas estremecer. "Eu também senti algo naquela noite, Lucas. Algo que não sei explicar."
Ele a puxou para perto, num abraço rápido, mas intenso. O cheiro de sua pele, o calor de seu corpo, a força de seus braços a envolveram. "Cuidado, Isadora. O mundo lá fora é perigoso. E as pessoas que você ama também podem se machucar."
Ele se afastou abruptamente, como se o toque tivesse sido doloroso. Voltou para junto do pai, montou em seu cavalo e partiu com o grupo, deixando Isadora com o coração aos saltos e a pele formigando. A perseguição começava, e ela sentia que, de alguma forma, também estava envolvida nela.
Enquanto os homens do Coronel desapareciam ao longe, um garoto magro e ágil, de nome João, aproximou-se de Isadora. João era um órfão que vivia de pequenos biscates na vila, e um amigo leal de Isadora, que sempre o ajudara.
"Eles se foram, Isadora", disse João, a voz baixa. "Mas eu ouvi o Coronel falando. Ele não está atrás de ladrões de gado. Ele está atrás de alguém que viu demais."
Isadora sentiu um calafrio percorrer seu corpo. "Quem, João?"
"Não sei. Mas ele disse algo sobre um homem que anda sumido, um que conhece a mata como ninguém. E que não deve ser encontrado vivo."
O sangue de Isadora gelou. A descrição lembrava vagamente as histórias sobre seu avô. Seria possível que ele ainda estivesse vivo? E que o Coronel Ramiro o caçava? As palavras da avó sobre o chamado da Jurema ecoaram em sua mente.
"João, você precisa me ajudar", Isadora disse, a determinação em sua voz ofuscando o medo. "Preciso saber quem é esse homem. Preciso ir para a mata."
O garoto olhou para ela, os olhos arregalados. "Para a mata, Isadora? É perigoso!"
"Mais perigoso é ficar parada enquanto os outros decidem o nosso destino. A Jurema me chamou, João. E agora, sinto que preciso encontrar meu avô. Preciso entender o chamado."
João, apesar do receio, assentiu. A lealdade a Isadora era inabalável. "Eu vou com você. Mas precisamos ser cuidadosos. O Coronel Ramiro tem olhos e ouvidos em toda parte."
Enquanto o sol subia no céu, pintando São Benedito com cores vibrantes, Isadora sentia que uma nova jornada estava apenas começando. Uma jornada que a levaria para as profundezas da mata, para os segredos de sua família e para o coração de um destino que ela jamais imaginara. O chamado da Jurema Sagrada se tornava cada vez mais forte, e ela não podia mais ignorá-lo.