O Chamado da Jurema Sagrada

Capítulo 3 — O Rastro na Mata e o Encontro Inesperado

por Pedro Carvalho

Capítulo 3 — O Rastro na Mata e o Encontro Inesperado

A mata se fechava ao redor de Isadora e João como um abraço sufocante. As árvores, antes amigas, agora pareciam guardiãs de segredos milenares, suas copas tão densas que mal deixavam a luz do sol penetrar. O ar estava mais frio, o silêncio mais profundo, pontuado apenas pelos sons misteriosos da vida selvagem. Isadora sentia a energia da mata pulsar em suas veias, um eco do que experimentara na clareira.

"Você tem certeza disso, Isadora?", perguntou João, a voz um pouco trêmula, enquanto desviava de um cipó espesso. Ele era ágil, mas a vastidão da floresta o intimidava.

Isadora parou, respirando fundo. O cheiro de terra molhada e musgo era forte. "Não tenho certeza de nada, João. Mas sinto que é para cá que devo ir. Algo me puxa." Ela apontou para uma trilha quase imperceptível, um leve desvio no emaranhado de folhas e raízes. "Ali. Sinto que o rastro está por ali."

João apertou o pequeno facão que carregava, herança de algum antepassado desconhecido. "Parece que alguém passou por aqui recentemente. Deixou um caminho."

Seguiram a trilha, que se tornava cada vez mais clara, como se a própria mata estivesse abrindo caminho para eles. Havia sinais de passos, galhos quebrados, folhas amassadas. Era um rastro humano, inconfundível. Mas não era um rastro de alguém perdido. Era um rastro de alguém que conhecia cada centímetro daquele lugar.

Enquanto avançavam, Isadora sentia um turbilhão de emoções. A ansiedade de encontrar seu avô se misturava com o medo do desconhecido e uma estranha sensação de pertencimento. Era como se a mata a estivesse acolhendo, reconhecendo algo nela. Ela pensou em Lucas, na urgência com que ele a advertira sobre o perigo. Será que ele sabia que o Coronel estava caçando seu avô? E por que ele, o filho do Coronel, se preocupava com ela?

"Ele não queria ir naquele dia, Isadora", disse João, como se lesse seus pensamentos. "O Lucas. Eu vi o rosto dele. Parecia que ia explodir de raiva, mas não podia."

"Ele está preso nas teias do pai, João", Isadora respondeu, a voz carregada de uma tristeza que ela não sabia de onde vinha. "Assim como eu me sinto presa em São Benedito."

De repente, um som agudo rompeu o silêncio. Um grito de pássaro. Mas era um grito incomum, quase um alerta. Seguiram na direção do som, com mais cautela. Chegaram a uma pequena ravina, com um riacho cristalino correndo em seu fundo. E ali, à beira do riacho, estava um homem.

Ele estava de costas para eles, curvado sobre a água, lavando o rosto. Seu corpo era magro, mas forte, coberto por uma pele bronzeada e marcada pelo tempo. Seus cabelos eram grisalhos e compridos, presos em um rabo de cavalo rústico. A simplicidade de suas vestes, feitas de um tecido grosso e escuro, contrastava com a imponência de sua figura.

Isadora sentiu o ar faltar em seus pulmões. Aquele homem parecia familiar. Muito familiar. Havia algo em sua postura, na forma como ele se movia, que ecoava em sua memória.

O homem se virou, alertado pelo farfalhar de folhas. Seus olhos, de um azul profundo como o céu da noite, fixaram-se neles. Eram olhos que pareciam carregar séculos de sabedoria e de dor. Olhos que Isadora já vira antes, em fotografias antigas, em histórias contadas em voz baixa.

"Vovô?", a voz de Isadora saiu como um sussurro rouco, carregado de incredulidade e esperança.

O homem a encarou, seus olhos azuis se arregalando levemente. Um lampejo de reconhecimento passou por eles, rapidamente substituído por uma cautela profunda. Ele não respondeu.

João, percebendo a tensão, deu um passo à frente. "Senhor! Precisamos de ajuda! Estamos perdidos..."

O homem ergueu uma mão, pedindo silêncio. Sua voz, quando falou, era grave e ressonante, como o som de um trovão distante. "Perdidos? Ou encontrando o que buscavam?" Ele olhou diretamente para Isadora. "Você tem a marca da Jurema em seus olhos, menina. Quem é você?"

"Eu sou Isadora. Filha de Miguel. Neta de Manuel." As palavras saíram com uma força que a surpreendeu.

Um suspiro profundo escapou dos lábios do homem. Um suspiro que carregava o peso de anos de saudade e arrependimento. Ele deu um passo hesitante em direção a ela. "Isadora... Minha pequena Isadora. Eu a reconheceria em qualquer lugar. A marca da sua mãe em seus olhos."

Ele se aproximou, e Isadora sentiu uma onda de emoção varrê-la. Era ele. Seu avô, Manuel. Aquele que todos pensavam ter abandonado a família. Aquele que o Coronel Ramiro parecia estar caçando.

Ela correu para ele, e sem pensar, o abraçou com força. O corpo magro de Manuel retribuiu o abraço, e Isadora sentiu as lágrimas rolarem livremente por seu rosto. Estava nos braços de seu avô, ali, no coração da mata, sob o olhar atento das árvores ancestrais.

"Eu pensei que nunca mais o veria", ela soluçou.

"E eu pensei que jamais encontraria o caminho de volta para casa", Manuel respondeu, a voz embargada. "Mas a Jurema... ela me chamou de volta. E agora, vejo que ela me guiou até você."

Ele a afastou gentilmente, olhando-a com um misto de amor e dor. "Sua avó, Dona Benedita... ela está bem?"

"Sim, vovô. Ela está forte. E sempre falou do senhor com carinho."

Manuel sorriu, um sorriso triste. "Eu errei, Isadora. Errei ao sair. Mas eu não fugi de vocês. Eu fui chamado. Há um caminho que a nossa família deve trilhar. Um caminho que a Jurema nos mostra. E eu... eu estava perdido, tentando entender esse caminho sozinho."

"E o Coronel Ramiro?", perguntou João, cautelosamente. "Ele está atrás do senhor?"

O rosto de Manuel endureceu. Um brilho sombrio passou por seus olhos. "Ele sabe que eu voltei. Ele sempre soube. Ele teme o que a Jurema representa. Ele teme o poder que ela pode nos dar."

"Poder?", Isadora repetiu. "Que poder, vovô?"

"O poder de proteger esta terra, Isadora. O poder de curar. O poder de ver além do véu do que os olhos comuns veem. A Jurema Sagrada não é apenas uma árvore. É um portal. E nossa família é guardiã desse portal há gerações."

Manuel olhou para Isadora com uma seriedade que a fez sentir um arrepio. "E você, minha neta, parece ter herdado essa vocação. O chamado que você sentiu... é o chamado da Jurema em você. Ela a escolheu."

O sol começava a se pôr, lançando longas sombras pela mata. Isadora olhava para seu avô, um homem misterioso e forte, guardião de segredos ancestrais. Ela se sentia em um sonho, mas a realidade era palpável. O toque de seu avô, o cheiro da mata, as palavras sobre a Jurema Sagrada – tudo era real.

De repente, o som de galhos se quebrando ecoou pela mata. Sons de cavalos. Muitos cavalos.

"Eles nos encontraram!", exclamou João, o pânico em sua voz.

Manuel se colocou na frente de Isadora e João, com uma postura defensiva. "Sabia que não teria muito tempo. O Coronel não vai descansar até me capturar. Ou me matar."

"Precisamos fugir!", disse Isadora, o coração batendo descompassado.

Manuel balançou a cabeça. "Não podemos fugir para sempre. Mas podemos lutar. E você, Isadora, precisa entender o que está acontecendo. Você precisa abraçar o chamado."

Enquanto os sons dos cavalos se aproximavam, Isadora sentiu uma nova força brotar dentro de si. A força de sua linhagem, a força da mata, a força da Jurema Sagrada. Ela não era mais apenas a moça de São Benedito. Ela era Isadora, a neta de Manuel, e tinha um destino a cumprir. A luta estava apenas começando.

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