O Chamado da Jurema Sagrada

Capítulo 4 — O Confronto na Clareira e a Revelação Sombria

por Pedro Carvalho

Capítulo 4 — O Confronto na Clareira e a Revelação Sombria

O som dos cascos ecoava pela mata, cada vez mais próximo, cada vez mais ameaçador. A clareira onde Isadora, João e Manuel se encontravam, outrora um refúgio de paz, agora se transformara em um palco de tensão prestes a explodir. Manuel, com o olhar focado, posicionou-se à frente de Isadora e João, a determinação em seu semblante contrastando com a vulnerabilidade de sua aparência magra. Ele não empunhava arma alguma, mas sua presença emanava uma força inabalável, como a da própria terra.

"Eles vieram nos buscar", disse Manuel, a voz calma, mas com um timbre que prenunciava a tempestade. "Mas a Jurema não nos deixará desamparados."

João, com os olhos arregalados, agarrou o facão com mais força. "Eles são muitos, senhor Manuel! E o Coronel Ramiro não perdoa!"

Isadora sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A figura de Lucas surgiu em sua mente, o conflito em seus olhos, a hesitação em seu abraço. Ele estaria ali? E se estivesse, a que lado ele pertenceria?

Um grupo de homens armados irrompeu na clareira, montados em cavalos robustos. No centro, montado em um alazão negro, estava o Coronel Ramiro. Seu rosto, marcado por rugas de crueldade e poder, exibia um sorriso de triunfo ao avistar Manuel. Seus olhos, frios como escamas de cobra, fixaram-se no velho.

"Manuel! Pensei que estivesse morto ou escondido nas profundezas do inferno!", a voz do Coronel era áspera, carregada de desprezo. "Mas vejo que a Jurema Sagrada, essa erva daninha que você tanto idolatra, o escondeu. E agora, finalmente, o entregou em minhas mãos."

Manuel permaneceu imóvel, um muro de serenidade diante da fúria do Coronel. "Ramiro. Você nunca entenderá. O poder da Jurema não é algo que se possa possuir ou controlar. É algo que se serve."

"Servir?", o Coronel riu, um som seco e desagradável. "Eu sirvo à lei! E a lei diz que um fugitivo como você deve ser punido! E essas crianças... o que fazem com um criminoso como ele?" Seus olhos se fixaram em Isadora e João, um brilho de ameaça em seu olhar.

"Eles estão comigo, Coronel", Isadora respondeu, a voz surpreendentemente firme. "E você não vai encostar um dedo neles." Ela se sentiu invadida por uma coragem que não sabia possuir, um fogo que a Jurema parecia ter acendido em seu peito.

O Coronel Ramiro a olhou com surpresa, depois com um desdém divertido. "Ora, ora. A neta de Manuel. Vejo que o sangue ruim corre nas suas veias. Acha que pode me desafiar, garota?"

Nesse momento, um dos homens do Coronel apontou para o outro lado da clareira. "Coronel! Mais alguém se aproxima!"

Todos os olhares se voltaram. E lá estava ele. Lucas. Montado em seu cavalo, o rosto pálido, os olhos azuis fixos em Isadora, e depois em seu pai, e então em Manuel. A luta interna em seu olhar era palpável.

"Lucas! Venha para cá, meu filho!", o Coronel Ramiro ordenou, a voz carregada de autoridade. "Mostre a esses desgraçados quem manda nesta terra!"

Lucas hesitou por um instante, seu olhar encontrando o de Isadora. Um olhar de pedido de desculpas, de desespero, e talvez, de uma promessa silenciosa. Ele desmontou, mas não se aproximou do pai. Em vez disso, caminhou lentamente em direção a Isadora e Manuel.

"Eu não vou deixar que machuque eles, pai", disse Lucas, a voz embargada, mas firme.

O Coronel Ramiro explodiu em fúria. "Como ousa, seu ingrato! Depois de tudo que fiz por você! Você se aliou a esses marginais?" Ele sacou um revólver.

"Eu não me aliei a ninguém, pai. Eu só não vou permitir que você cometa mais uma injustiça!", Lucas rebateu, ficando entre Isadora e o Coronel.

"Injustiça?", o Coronel riu amargamente. "A única injustiça aqui é você ter nascido fraco e covarde! Assim como seu avô!"

Manuel deu um passo à frente, encarando o Coronel com uma intensidade que fez os homens se encolherem. "Você fala de fraqueza, Ramiro? Sua força vem da opressão, do medo que impõe a todos. A Jurema ensina que a verdadeira força vem do coração, da proteção da natureza, da união com os ancestrais."

"Bobagens!", gritou o Coronel. "Hoje, você vai aprender o que é poder de verdade!" Ele ergueu o revólver, apontando-o para Manuel.

De repente, um uivo longo e gutural ecoou pela mata, vindo de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo. As árvores pareceram sussurrar, e uma névoa densa e prateada começou a se formar ao redor deles, emanando da própria terra. Os cavalos relincharam assustados, tentando se livrar das rédeas.

Os homens do Coronel se encolheram, o medo estampado em seus rostos. Eles conheciam as lendas. As lendas da mata que se defendia.

"A Jurema...", Manuel sussurrou, os olhos brilhando com uma luz estranha. "Ela nos protege."

A névoa se adensou, obscurecendo a visão. O Coronel Ramiro, perplexo e furioso, tentava gritar ordens, mas sua voz se perdia no turbilhão de sons da mata. Isadora sentiu uma energia poderosa envolvê-la, como um abraço quente e seguro. Ela olhou para seu avô, e viu em seus olhos a confirmação de que algo extraordinário estava acontecendo.

De repente, a névoa começou a se dissipar, e com ela, os homens do Coronel. Eles haviam sumido. Todos eles. Exceto Lucas, que ainda estava ali, atônito, olhando para o vazio. O Coronel Ramiro também desaparecera.

"Para onde eles foram?", perguntou João, maravilhado e assustado.

"Para onde a Jurema os levou", Manuel respondeu, um leve sorriso brincando em seus lábios. "Eles não estão mortos, apenas... afastados. Por enquanto." Ele se virou para Isadora. "Você viu, minha neta? A Jurema tem seu próprio jeito de justiça."

Lucas, recuperado do choque, aproximou-se de Isadora. "Eu... eu sinto muito, Isadora. Meu pai é um homem cego pela ganância."

"Eu sei, Lucas", Isadora respondeu, sentindo a raiva se dissipar, substituída por uma estranha compaixão. Ele também era uma vítima, de certa forma.

Manuel colocou uma mão no ombro de Lucas. "Você mostrou coragem hoje, rapaz. A coragem de fazer o que é certo, mesmo diante do perigo. A Jurema reconhece isso."

O sol já quase se punha, pintando o céu com cores espetaculares. A clareira estava silenciosa novamente, mas a energia da mata ainda vibrava no ar.

"Precisamos voltar para São Benedito", disse Manuel. "Dona Benedita precisa saber que estou vivo. E você, Isadora, precisa entender o seu papel. A Jurema a chamou por um motivo. E esse motivo está ligado ao futuro desta terra."

Enquanto caminhavam de volta, deixando para trás a clareira onde a justiça da mata se manifestara, Isadora sentia o peso de uma nova responsabilidade. Ela havia encontrado seu avô, testemunhado um milagre, e descoberto que seu destino estava intrinsecamente ligado à lendária Jurema Sagrada. E ao seu lado, Lucas, o filho de seu algoz, a observava com um olhar que prometia uma história ainda a ser escrita.

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