O Silêncio de Ipanema

Capítulo 14 — O Sombras de um Passado Enterrado

por Felipe Nascimento

Capítulo 14 — O Sombras de um Passado Enterrado

A noite em Ipanema parecia ter se aprofundado, as sombras dançando nas paredes do apartamento de Ana. A conversa com Tiago, embora reveladora, deixara um rastro de dúvidas e um peso ainda maior em seu coração. As confissões dele, sobre seus próprios erros e a chantagem que o forçou a cooperar com os algozes de Sofia, ecoavam em sua mente como um trovão distante. Ela sentia que estava desvendando as camadas mais profundas de um mistério obscuro, mas cada camada revelada trazia consigo mais perguntas do que respostas.

"Ele também era um peão nesse jogo sujo", Ana murmurou para si mesma, a voz embargada pela fadiga e pela angústia. A imagem de Tiago, outrora um amigo enigmático, agora se moldava em uma figura mais complexa, um homem atormentado por seus próprios demônios, forçado a tomar decisões terríveis. A promessa de ajuda dele era um fio tênue de esperança, mas Ana sabia que precisava de mais do que promessas. Precisava de fatos, de provas concretas, para desmascarar os verdadeiros culpados e, quem sabe, encontrar Sofia.

Ela voltou para o diário de Sofia, folheando as páginas com uma nova perspectiva. As anotações sobre a vida agitada de Sofia, seus encontros em bares badalados, suas amizades passageiras, agora pareciam tingidas de um perigo latente. Seria possível que Sofia, em sua busca por emoções e novas experiências, tivesse esbarrado nesse submundo de tráfico de informações e chantagem? A ideia era aterradora.

De repente, um nome escrito em uma das últimas páginas do diário chamou sua atenção. "Alexandre V." Ana não se lembrava de ter visto esse nome antes. A caligrafia era apressada, quase frenética, como se Sofia estivesse anotando algo de suma importância em um momento de urgência. Abaixo do nome, havia uma sequência de números que pareciam aleatórios, mas que Ana sentiu que poderiam ser um código.

"Alexandre V… quem é você?", Ana sussurrou, sentindo um arrepio de antecipação. Ela se lembrou das palavras de Tiago sobre codinomes. Seria esse "Alexandre V." um deles? E os números… seriam uma pista?

Ela pegou seu notebook, a mente acelerada. Precisava pesquisar sobre esse nome, sobre qualquer conexão com o mundo empresarial, com atividades ilícitas. As horas se arrastavam, e a única coisa que Ana encontrava eram inúmeras referências a um renomado empresário do ramo imobiliário, Alexandre Valério. Um homem discreto, conhecido por seus negócios lucrativos e pela sua vida privada, quase inexistente.

"Alexandre Valério… isso não pode ser coincidência", Ana pensou, a mente trabalhando a mil. Ricardo Alencar também era um magnata dos negócios. A conexão parecia cada vez mais forte. Ela se lembrou de ter visto o nome de Valério em alguns artigos sobre o mercado imobiliário carioca, mas ele sempre se manteve nas sombras, diferente de Ricardo, que era uma figura pública.

Enquanto pesquisava, Ana se deparou com um artigo de uma revista de negócios que mencionava um escândalo envolvendo Alexandre Valério há alguns anos. Um esquema de lavagem de dinheiro, boatos de envolvimento com o crime organizado, mas nada que tivesse sido comprovado ou tornado público. Ele sempre conseguia se esquivar das acusações, deixando apenas a sombra de suas atividades ilícitas pairando sobre sua reputação.

"Ele é o alvo, Ricardo é o meio", Ana concluiu, sentindo a peça se encaixar de forma sinistra. A chantagem contra Ricardo não era apenas sobre um segredo do passado dele, mas sim sobre algo que Valério queria, algo que Ricardo possuía ou podia fornecer. E Sofia, de alguma forma, se viu no meio dessa teia perigosa.

Ana olhou para a sequência de números anotada por Sofia: 314159265. De repente, um estalo em sua mente. Ela se lembrou de uma conversa antiga com Sofia, sobre a sua fascinação por matemática, sobre como ela memorizava sequências de números. E então, a verdade a atingiu como um raio.

"Pi!", Ana exclamou, o coração disparado. Os números eram os primeiros dígitos da constante matemática Pi. Sofia, com sua mente brilhante e seu senso de humor peculiar, teria deixado uma pista codificada. Mas o que esses números significavam em relação a Alexandre Valério?

Ela voltou à pesquisa sobre Valério, buscando qualquer conexão com números, códigos, ou qualquer coisa que pudesse se ligar à sequência de Pi. Nada. Era como se os números fossem um beco sem saída.

Frustrada, Ana se levantou e começou a andar pelo apartamento, a mente a mil. Teria ela interpretado mal a pista? Ou estaria o significado mais profundo do que imaginava? Ela parou em frente a uma estante de livros, seus olhos percorrendo as lombadas. Havia livros de ficção, de poesia, e alguns de história, que ela e Sofia adoravam colecionar.

Seus olhos pousaram em um livro antigo de capa dura: "Os Segredos da Cidade Maravilhosa". Era um livro que Sofia adorava, cheio de histórias sobre o Rio de Janeiro, seus mistérios e seus personagens. Ana o pegou e o abriu ao acaso. E lá estava. Uma página dedicada à história da construção do Edifício Copan, em São Paulo, projetado por Oscar Niemeyer. E junto à descrição do edifício, uma nota sobre um projeto similar que Niemeyer teria idealizado para o Rio de Janeiro, um projeto monumental que nunca chegou a ser construído, mas que se tornou lendário entre arquitetos e urbanistas. O projeto era conhecido como "O Girassol", uma torre espiralada com um design inovador, que seria construída em um local privilegiado da cidade.

Ana folheou mais algumas páginas e encontrou uma referência a um terreno, outrora pertencente a uma antiga fábrica de cigarros, que havia sido cogitado para a construção do projeto "O Girassol". O terreno, segundo o livro, ficava em uma área central da cidade, com vista para a Baía de Guanabara. E o nome da antiga fábrica? Era a "Tabacaria Alencar", a empresa que deu origem ao império de Ricardo Alencar.

"Não pode ser", Ana sussurrou, o corpo tremendo. "Sofia sabia. Ela sabia do terreno. E sabia que Valério estava interessado nele."

A sequência de Pi… o projeto "O Girassol"… o terreno da antiga fábrica de cigarros… tudo se encaixava de uma forma sinistra. Sofia, com sua inteligência aguçada, teria descoberto que Alexandre Valério estava interessado em adquirir aquele terreno, talvez para um de seus esquemas de lavagem de dinheiro, e que Ricardo, por algum motivo, se recusava a vender. E ela, em sua inocência e desejo de ajudar, teria tentado usar essa informação para alertar Ricardo ou para se proteger.

Ana voltou ao diário de Sofia. Ela sabia que precisava ir além. Precisava encontrar mais pistas sobre essa conexão entre Valério, o terreno e Ricardo. Ela se lembrou de que Sofia havia mencionado em seu diário que frequentava alguns eventos de caridade e leilões, onde figuras importantes da sociedade se reuniam. Seria possível que ela tivesse conhecido Valério nesses eventos? Ou que tivesse escutado algo sobre os interesses dele?

Ana passou horas vasculhando o diário, buscando por qualquer menção a Alexandre Valério, a leilões, a eventos de caridade, ou a qualquer conversa que pudesse ter tido com Sofia sobre negócios imobiliários. Finalmente, em uma anotação datada de algumas semanas antes de seu desaparecimento, ela encontrou:

"Reunião com R. A. e A. V. no Clube Naval. Conversa tensa sobre o terreno. R. A. inflexível. A. V. parecia irritado. Algo no ar me deixou apreensiva. Preciso investigar mais."

O Clube Naval. Um dos locais mais exclusivos do Rio de Janeiro. Era frequentado pela elite empresarial e política da cidade. Sofia, com sua curiosidade insaciável, teria se infiltrado em uma reunião onde os destinos do terreno e, possivelmente, do próprio Ricardo e dela mesma, estavam sendo decididos.

"Ela sabia o suficiente para se tornar um problema", Ana concluiu, o estômago apertado. A chantagem contra Ricardo, o interesse de Valério no terreno, o desaparecimento de Sofia… tudo parecia conectado a esse único ponto. Sofia, ao descobrir algo sobre as intenções de Valério em relação ao terreno da família Alencar, teria se tornado um alvo. E Ricardo, cego pelo seu próprio segredo e pelo medo, não teria tido a coragem de protegê-la adequadamente.

A revelação era chocante, mas também trazia um lampejo de esperança. Se Sofia sabia da reunião no Clube Naval, se ela estava investigando Valério, talvez houvesse mais pistas escondidas em seu diário, ou em seus pertences. Ana sentiu uma nova onda de determinação. Ela precisava ir ao Clube Naval. Precisava descobrir o que aconteceu naquela reunião, e se havia alguma evidência que pudesse ligar Alexandre Valério ao desaparecimento de Sofia.

O sol já havia nascido quando Ana finalmente fechou o notebook. O dia em Ipanema amanhecia com a promessa de mais revelações, e com a sombra de um passado enterrado que se recusava a permanecer esquecido. O nome de Alexandre Valério, antes uma figura discreta, agora pairava sobre a investigação como um predador silencioso. E Ana sabia que, ao se aproximar dele, ela estaria entrando em um território perigoso, onde as sombras eram profundas e os segredos podiam ser fatais. A busca por Sofia a levava cada vez mais fundo no labirinto de mentiras e ambições, e ela estava determinada a chegar ao fim, não importava o custo.

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