O Silêncio de Ipanema

Capítulo 22 — O Eco da Verdade

por Felipe Nascimento

Capítulo 22 — O Eco da Verdade

A cidade pulsava ao redor de Clara, um organismo vivo de sons e cheiros que, em outros tempos, a teriam energizado. O burburinho dos vendedores de mate na praia, o som das ondas quebrando na areia, o riso distante de crianças brincando… tudo parecia zombar de sua angústia. Elias tinha ido embora, deixando para trás apenas o eco de suas palavras evasivas e um arrepio de desconfiança que a envolvia como um manto frio. O que ele escondia? Por que o desespero em seu rosto ao mencionar os investidores?

Clara caminhou até a varanda, os olhos perdidos na imensidão azul do mar. A linha do horizonte, onde o céu e o oceano se fundiam em um abraço eterno, parecia tão inatingível quanto a verdade que ela buscava. Ela sabia que não podia confiar no médico. Ele fazia parte daquele mundo de aparências e segredos que seu pai parecia ter se envolvido cada vez mais nos últimos meses.

Decidida, ela pegou o celular. Precisava de ajuda. Alguém que pudesse olhar além da fachada polida que Elias e os outros apresentavam. Alguém que estivesse disposto a cavar, a incomodar, a desenterrar os ossos podres que se escondiam sob a beleza superficial do Rio. Seus pensamentos voaram para Marcos, o jornalista investigativo com quem seu pai havia tido um encontro tenso semanas antes. Clara se lembrava da atmosfera carregada, das palavras sussurradas, da expressão preocupada do pai ao deixar o café em que se encontraram.

Ela discou o número que seu pai havia lhe dado em um pedaço de papel guardado a sete chaves. A voz do outro lado era grave, um pouco rouca, com a impaciência natural de quem é constantemente interrompido. "Alô?"

"Senhor Marcos? Meu nome é Clara Monteiro. Sou filha do senhor Arthur Monteiro." Houve uma pausa do outro lado, um silêncio que parecia carregar um peso de reconhecimento.

"Clara. Sim, eu me lembro de você. Seu pai mencionou que você poderia entrar em contato. Sinto muito pela sua perda. Ele era um homem… interessante." A última palavra foi dita com uma entonação que sugeria mais do que dizia.

"Interessante como, senhor Marcos?", Clara perguntou, sem rodeios. A urgência em sua voz era palpável. "O senhor se encontrou com ele algumas semanas atrás. Ele parecia preocupado depois. Eu preciso saber o que aconteceu. Não acredito que ele tenha morrido acidentalmente."

O silêncio do outro lado se estendeu, carregado de uma análise cuidadosa. Clara imaginou Marcos em seu escritório, cercado por pilhas de papéis, os olhos percorrendo linhas de texto, as engrenagens do seu raciocínio girando em alta velocidade. "Seu pai me procurou com uma história bastante… peculiar, Srta. Monteiro. Ele alegava ter descoberto um esquema de corrupção em larga escala envolvendo alguns dos mais influentes empresários do país. Ele disse que tinha provas."

"Provas?", Clara repetiu, um fio de esperança se acendendo em seu peito. "Que tipo de provas? E quem eram essas pessoas?"

"Ele foi vago quanto aos detalhes exatos, o que é compreensível, dada a natureza da informação. Mas ele insinuou que envolvia contratos superfaturados, desvio de verbas públicas e que alguns nomes de peso estariam envolvidos. Ele parecia genuinamente assustado, o que me fez levá-lo a sério. Eu tinha marcado outro encontro com ele para esta semana, para ele me entregar o que tinha. Mas então… isso aconteceu." A frustração na voz de Marcos era clara.

"E o senhor Elias?", Clara perguntou, a lembrança da visita do médico voltando à sua mente. "Meu pai o chamou para um drink na noite em que morreu. O senhor Elias disse que meu pai estava tenso, mas que não havia nada de grave."

Marcos soltou uma risada seca e sem humor. "O Dr. Elias. Médico de família dos Monteiro há gerações, não é mesmo? E um homem que, ironicamente, tem fortes ligações com alguns dos nomes que seu pai mencionou em nossa conversa. A mesma rede de influência que sustenta muita coisa neste país, Clara."

O estômago de Clara se revirou. Elias. O médico de confiança, o amigo da família, o homem que assinou o atestado de óbito. Ele não era apenas um espectador, mas parte do jogo. "Ele sabia. Ele sabia o que meu pai estava prestes a fazer."

"É uma forte possibilidade", Marcos concordou. "Seu pai se sentiu traído? Ou talvez… ameaçado? Ele deu a entender que estava se sentindo cada vez mais isolado."

"Ele estava", Clara confirmou, as lembranças de um pai cada vez mais recluso, mais preocupado, inundando sua mente. "Ele sempre foi um homem de princípios. Ele não tolerava corrupção. Ele nunca aceitaria participar de algo assim."

"E é por isso que ele estava juntando provas", Marcos disse, sua voz adquirindo um tom mais sério. "Ele queria expor tudo. Ele me procurou porque sabia que eu poderia dar a ele a plataforma necessária para que a verdade viesse à tona. Mas parece que alguém não queria que essa verdade fosse dita."

"O que podemos fazer, senhor Marcos?", Clara perguntou, a voz embargada pela emoção, mas firme na resolução. "Eu não vou deixar meu pai ter morrido em vão. Eu vou descobrir quem fez isso e por quê."

"Calma, Srta. Monteiro. O desespero não nos levará a lugar nenhum. Precisamos ser estratégicos. Seu pai deixou alguma pista? Algum local onde ele pudesse ter escondido essas provas? Algum nome específico que ele tenha mencionado?"

Clara pensou intensamente. A caixa de charutos. O ritual do pai. Ele sempre foi um homem metódico, que gostava de ter tudo organizado. "Ele era muito metódico com seus charutos. Tinha uma caixa especial. Eu estou aqui agora. Vou dar uma olhada mais de perto. Talvez ele tenha deixado algo lá."

"Boa ideia", Marcos elogiou. "Procure por qualquer coisa fora do comum. Um compartimento secreto, uma anotação escondida, qualquer coisa. Enquanto isso, eu vou começar a fazer algumas sondagens. Vou reabrir alguns arquivos antigos, verificar os nomes que seu pai, indiretamente, me deu. Mas seja discreta, Clara. Se eles souberem que você está investigando, você se tornará um alvo. E, francamente, neste momento, você está mais exposta do que eu."

O aviso gelou o sangue de Clara, mas ela não vacilou. O eco da verdade, por mais doloroso que fosse, era a única coisa que poderia trazer paz ao seu coração. Ela desligou o telefone, o olhar fixo na caixa de charutos sobre a mesa. Elias não era confiável. A rede de influência era real. E seu pai, Arthur Monteiro, um homem íntegro, havia se tornado um inimigo para pessoas perigosas. A investigação de Marcos e a busca de Clara por pistas na caixa de charutos eram agora as únicas esperanças de desvendar o mistério e trazer justiça ao seu pai. O silêncio de Ipanema guardava segredos sombrios, e Clara estava determinada a fazê-los gritar.

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