O Silêncio de Ipanema

Capítulo 23 — O Labirinto de Papéis

por Felipe Nascimento

Capítulo 23 — O Labirinto de Papéis

Clara voltou para a sala, o coração batendo com uma mistura de apreensão e esperança. A caixa de charutos cubanos, um presente de seu pai, parecia agora ser a chave para desvendar a teia de mentiras que envolvia sua morte. Marcos tinha razão. Arthur Monteiro era um homem de hábitos, de rituais. E a forma como ele tratava seus charutos era quase sagrada. Talvez ele tivesse deixado algo ali, um recado, um indício para ela.

Ela se ajoelhou diante da mesa de centro, pegando a caixa com as duas mãos. A madeira era polida, com uma pátina que denunciava anos de uso. A tampa se abriu com um leve clique, revelando os charutos perfeitamente alinhados. O aroma forte e adocicado preencheu o ar, mas Clara mal o notava, seus olhos perscrutando cada detalhe. Ela retirou os charutos um por um, colocando-os cuidadosamente sobre um pano de veludo que ela encontrou em uma gaveta.

O interior da caixa era forrado com cedro, como de costume. Mas, à medida que Clara passava os dedos pela madeira, sentiu algo incomum sob um dos compartimentos. Uma irregularidade. Uma pequena saliência que não deveria estar ali. Com os dedos trêmulos, ela pressionou a área. Um leve clique soou e uma fina aba de madeira se desprendeu, revelando um pequeno compartimento secreto.

Seu coração disparou. Era isso. A prova que Marcos mencionara. Ela retirou com cuidado o pequeno invólucro de papel pardo que estava escondido ali. Estava selado com cera, com o brasão da família Monteiro gravado em relevo. O mesmo brasão que adornava os convites de casamento e os papéis de carta de seu pai.

Com as mãos ainda tremendo, ela quebrou o selo de cera. Dentro, havia uma série de documentos. Notícias de jornal recortadas, com manchetes sobre grandes obras públicas e contratos milionários. Anotações em caligrafia apressada, com números, datas e nomes que ela não reconheceu de imediato. E, o mais chocante, uma gravação em um pequeno pendrive.

Clara sentiu um frio na espinha. Seu pai havia realmente descoberto algo grave. E ele havia se preparado para isso, para o pior. Ela pegou o pendrive, olhando para ele com uma mistura de temor e determinação. O que estaria gravado ali? Seria a confissão de seus assassinos? A prova irrefutável do esquema de corrupção?

Ela decidiu que precisava da ajuda de alguém para analisar os documentos e, principalmente, para ouvir a gravação com segurança. Marcos era a pessoa certa. Ela ligou para ele imediatamente.

"Marcos? Sou eu, Clara. Eu encontrei. Na caixa de charutos do meu pai. Há documentos e um pendrive."

A voz de Marcos soou animada, mas também cautelosa. "Excelente, Clara! Você foi mais rápida do que eu imaginava. Mantenha a calma e não toque em nada além do necessário. Precisamos preservar qualquer evidência. Você está em segurança aí?"

"Estou. Mas o Elias veio aqui hoje. Ele parecia… nervoso. E ele estava com o Dr. Valente, o médico que fez a autópsia." Clara sentiu um arrepio. Elias e Valente. Juntos. Aquilo não era coincidência.

Marcos suspirou pesadamente. "Isso complica as coisas. Valente é um homem ligado a muita gente influente. Elias, sendo o médico da família, tem acesso a muitas informações. Eles podem estar trabalhando juntos para abafar o caso. Clara, você precisa sair daí. Venha para o meu escritório. Agora. Eu tenho um lugar seguro para você e para as evidências."

Clara hesitou. Sair de seu apartamento, o único lugar onde ela ainda se sentia um pouco protegida, parecia um risco. Mas ela sabia que Marcos tinha razão. O perigo era real, e eles a estavam vigiando. "Ok. Eu vou. Mas levo tudo comigo."

Ela juntou os documentos e o pendrive, guardando-os em uma bolsa discreta. Deu uma última olhada na caixa de charutos, sentindo uma pontada de dor pela perda de seu pai, mas também uma força renovada pela sua coragem. Arthur Monteiro não seria esquecido. Sua luta seria continuada.

A viagem até o escritório de Marcos, no centro da cidade, foi tensa. Clara se sentia observada a cada esquina, cada carro que passava parecia olhar para ela. Ela tentava manter a calma, respirar fundo, mas a adrenalina e o medo a consumiam. Chegou ao prédio comercial antigo, com sua fachada imponente e um ar de mistério.

O escritório de Marcos era exatamente como ela imaginava: uma bagunça organizada, com pilhas de jornais, livros e arquivos espalhados por todos os lados. Um mapa do Rio de Janeiro, com vários pontos marcados a alfinete, cobria uma das paredes. Marcos a recebeu com um sorriso acolhedor, mas seus olhos transmitiam a seriedade da situação.

"Bem-vinda, Clara. Sente-se. Você está segura aqui." Ele a conduziu a uma sala nos fundos, que parecia ser um pequeno estúdio de edição improvisado. "Aqui você terá privacidade. Vou providenciar um notebook seguro para você acessar o conteúdo do pendrive. E eu vou analisar esses documentos com calma. Tente relaxar um pouco."

Clara sentou-se, a bolsa com as evidências ainda em seu colo. Ela observou Marcos enquanto ele preparava tudo. Ele parecia um homem dedicado à sua causa, um guerreiro em uma batalha contra a corrupção.

"Senhor Marcos," ela começou, a voz baixa. "O que o senhor acha que está gravado nesse pendrive?"

Marcos parou por um instante, olhando para ela com seriedade. "Eu espero que seja a confissão. Ou, pelo menos, a prova definitiva. Seu pai mencionou que tinha gravado uma conversa comprometedora. Se for isso, teremos a cabeça de muitos deles na bandeja."

Ele se aproximou de Clara, sua expressão se tornando mais séria. "Mas temos que estar preparados para tudo. Para a possibilidade de que a gravação não seja o que esperamos. Ou de que as provas que seu pai reuniu não sejam suficientes. Este é um jogo perigoso, Clara. E você acabou de entrar nele."

Clara assentiu, sentindo o peso da responsabilidade em seus ombros. Ela pegou o notebook, os dedos pairando sobre o teclado. O medo ainda estava presente, mas agora estava misturado com uma determinação feroz. Ela não recuaria. Ela iria até o fim. Por seu pai. Pela verdade.

Enquanto ela conectava o pendrive, o som de sirenes distantes ecoou pela rua. Clara congelou. Eram para ela? Estavam sendo descobertos? Marcos a olhou, seus olhos transmitindo um aviso silencioso. O labirinto de papéis que seu pai havia deixado era apenas o começo. A verdade era um caminho perigoso, e eles estavam sendo observados. A brisa de Ipanema, que antes trazia paz, agora parecia sussurrar ameaças. O silêncio que pairava sobre a morte de seu pai estava prestes a ser quebrado, mas o que viria depois seria muito mais assustador.

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