O Silêncio de Ipanema

Capítulo 24 — O Segredo da Mansão

por Felipe Nascimento

Capítulo 24 — O Segredo da Mansão

O notebook, um modelo antigo e seguro que Marcos raramente usava, foi ligado. Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha enquanto conectava o pendrive que encontrara na caixa de charutos de seu pai. O pequeno dispositivo USB parecia um portal para o inferno, ou talvez para a redenção. O silêncio na sala era quase palpável, quebrado apenas pelo zumbido suave do aparelho e pela sua própria respiração suspensa. Marcos observava em silêncio, sua postura tensa, os olhos fixos em Clara.

"Pronta?", Marcos perguntou, sua voz um sussurro rouco.

Clara assentiu, engolindo em seco. Ela navegou pelas pastas, o coração martelando no peito. Havia alguns arquivos de áudio com nomes genéricos, como "Reunião 1", "Encontro 3". Ela sabia que precisava ter cuidado, que a ordem dos arquivos poderia ser importante, ou talvez uma distração. Escolheu o arquivo rotulado como "Conversa Final – A."

Um clique. E então, a voz de seu pai, Arthur Monteiro, preencheu a sala. Clara se encolheu em sua cadeira, a emoção tomando conta dela. Era a voz dele, tão familiar, tão cheia de vida, mas agora tingida de uma gravidade que ela nunca ouvira antes.

"Elias, você sabe que não podemos continuar com isso", Arthur dizia, a voz firme, mas com um tom de desespero contido. "O que vocês estão fazendo é criminoso. Desviar verbas públicas, superfaturar contratos… isso não é apenas errado, é um crime contra o país."

A voz de Elias respondeu, calma, quase paternal, mas com um tom subjacente de ameaça. "Arthur, meu amigo. Você está se exaltando demais. São apenas… ajustes financeiros. Coisas que acontecem no mundo dos negócios. Você não quer se prejudicar por causa disso, quer? Sua família… sua filha… você não pensaria em colocá-los em perigo, pensaria?"

O sangue de Clara gelou. Elias estava ameaçando seu pai. Aquele homem que ela conhecia como um amigo, um médico confiável, era um chantagista e cúmplice em crimes.

"Perigo?", Arthur respondeu, a voz mais forte agora. "O perigo é para aqueles que não têm mais nada a perder. Eu tenho a mim mesmo, a minha consciência. E se for preciso, eu vou expor todos vocês. Eu já coletei provas suficientes. Você, o Valente, o Dantas… todos vocês. Se algo acontecer comigo, Clara saberá onde procurar."

"Clara?", Elias riu, um som desagradável. "Arthur, você é ingênuo. Sua filha não entenderia a complexidade dessas coisas. Ela te veria como um fracassado, um homem que se meteu em encrenca e arrastou a família junto. É melhor você ficar quieto. Para o bem de todos."

A gravação continuou, com discussões acaloradas, ameaças veladas e a súplica desesperada de Arthur para que parassem. Então, um som abafado, um grito que foi rapidamente silenciado, e o som de algo pesado caindo. E depois, o silêncio. Um silêncio aterrador.

Clara desabou em lágrimas, o corpo tremendo incontrolavelmente. Marcos a segurou, transmitindo um conforto silencioso. Era isso. A prova que ela precisava. Elias e Valente. Eles a tinham matado.

"Eles a mataram, Marcos", Clara soluçou, a voz embargada. "Elias e Valente."

Marcos assentiu, sua expressão sombria. "Eu sabia que Valente estava envolvido com o Dantas. O Dantas é o mentor desse esquema. Elias era apenas um peão, mas um peão importante. Ele tinha acesso a tudo. E usou isso para se proteger e proteger os outros."

Ele pegou o pendrive, examinando os outros arquivos de áudio. "A 'Conversa Final – A' é a mais explícita. Mas essas outras podem conter mais detalhes sobre a rede de corrupção, nomes de outros envolvidos. Seu pai foi um herói, Clara. Ele tentou lutar contra eles."

Clara pegou os documentos que seu pai havia guardado. Eram recortes de jornais sobre grandes obras públicas e licitações. Ao lado de cada recorte, anotações feitas por seu pai: nomes de empresas, valores de contratos, e em muitos deles, a sigla "D.S."

"O que significa 'D.S.'?", Clara perguntou, apontando para as anotações.

Marcos franziu a testa. "D.S… pode ser a sigla de uma empresa, ou de uma pessoa. Vamos verificar."

Ele pegou alguns arquivos de seu próprio computador e começou a cruzar informações. Minutos depois, ele ergueu a cabeça, um brilho de surpresa e raiva em seus olhos. "D.S. é a sigla para 'Diretoria de Serviços'. Um órgão obscuro dentro do governo, responsável por gerenciar contratos de segurança e infraestrutura. E quem chefiava essa diretoria nos últimos anos? Um certo… Eduardo Dantas. O mesmo Dantas que seu pai mencionou."

"Eduardo Dantas", Clara repetiu, o nome soando como um veneno em sua língua. O homem por trás de tudo. O mentor.

"Exatamente", Marcos confirmou. "Ele usa Elias e Valente como seus executores. Elias se livra das testemunhas incômodas, Valente cuida da parte médica e legal para encobrir os crimes. Um sistema perfeito de impunidade."

Clara olhou para a bolsa onde guardara as evidências. Ela tinha nas mãos a prova do assassinato de seu pai e da rede de corrupção que ele combatia. Mas agora, o perigo se tornava ainda mais real. Se Dantas, Elias e Valente eram tão poderosos, o que eles fariam quando descobrissem que ela tinha essa informação?

"O que faremos agora, Marcos?", Clara perguntou, a voz firme, apesar do medo que a consumia.

Marcos fechou o notebook com um clique decidido. "Agora, Clara, vamos expor a verdade. Vamos dar a seu pai a justiça que ele merece. Precisamos entregar essas provas às autoridades. Mas não a qualquer autoridade. Precisamos ir à Polícia Federal. E faremos isso de forma que eles não possam ignorar."

Ele se levantou, a energia em seu corpo irradiando determinação. "Prepare-se, Clara. A partir de agora, nossa vida mudou. Nós nos tornamos os inimigos deles. Mas também nos tornamos a esperança de muita gente."

Enquanto saíam do escritório, Clara sentiu um olhar sobre ela. Um arrepio percorreu sua espinha. Eles estavam sendo vigiados. Dantas e seus homens já sabiam que ela tinha as provas? A mansão de Dantas, que ela avistara de longe em algumas ocasiões, com sua arquitetura imponente e muros altos, parecia agora um símbolo de tudo que estava errado naquele país. O silêncio de Ipanema estava quebrado, mas o eco da verdade trazia consigo a promessa de uma batalha épica. E Clara Monteiro estava pronta para lutar.

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