O Silêncio de Ipanema

O Silêncio de Ipanema

por Felipe Nascimento

O Silêncio de Ipanema

Autor: Felipe Nascimento

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Capítulo 7 — A Sombra na Vitrine

O sol da tarde em Ipanema, antes um abraço dourado, agora parecia uma luz fria e implacável, refletindo nas vitrines polished das lojas de grife da Visconde de Pirajá. Helena, com o coração martelando contra as costelas como um pássaro aprisionado, sentia cada raio de sol como um holofote sobre sua culpa. A imagem do corpo de Rafael, inerte na praia, não saía de sua mente, um filme macabro repetindo-se em loop. As palavras de Tiago, a promessa velada de vingança, ecoavam em seus ouvidos, distorcendo a paisagem bucólica que sempre amou.

Ela se apressou, como se o próprio tempo estivesse correndo para alcançá-la. Os sapatos de salto, antes um símbolo de sua sofisticação, agora pareciam grilhões, prendendo-a a essa realidade cruel. Ela precisava de respostas. Precisava entender o que levou Rafael àquela tragédia, e mais ainda, o que Tiago sabia. A confiança que um dia depositara em Rafael, agora se transformara em desconfiança, e a atração que sentia por Tiago, em um medo crescente.

Ao passar pela Galeria Ipanema, uma vitrine chama sua atenção. Não era uma loja de roupas ou joias, mas uma galeria de arte com exposições contemporâneas. Um quadro em particular, com tons escuros e abstratos, parecia puxá-la para dentro. A curiosidade, apesar do seu pânico, falou mais alto. Ela entrou, o som do sino delicado anunciando sua chegada. O ar condicionado gelado trouxe um alívio momentâneo, contrastando com o suor frio que escorria em suas costas.

O curador, um homem elegante e de fala mansa chamado Arthur, aproximou-se com um sorriso profissional. "Boa tarde, senhora. Posso ajudá-la a encontrar algo?"

Helena tentou organizar seus pensamentos, mas as palavras pareciam se embaralhar. "Eu… eu estava apenas olhando. Gosto deste quadro." Ela gesticulou, sem realmente ver a obra. Sua mente estava longe, nas ondas que lambiam a areia onde Rafael jazia.

"Uma peça fascinante, não é?", Arthur concordou, seus olhos brilhando com paixão pela arte. "O artista explora a dualidade da alma humana, a luz e a escuridão que coexistem em cada um de nós."

A dualidade. Era exatamente isso que Helena sentia. A luz de sua vida, Rafael, agora envolta na escuridão da morte. E a escuridão que habitava em Tiago, prometendo mais sombras. "Essa dualidade… às vezes, ela pode ser muito destrutiva", ela murmurou, mais para si mesma do que para Arthur.

Ele a olhou com uma expressão de leve surpresa, mas logo voltou ao seu tom profissional. "A arte, assim como a vida, pode nos confrontar com verdades incômodas, senhora. O que a traz a Ipanema hoje? Uma visita à cidade?"

Helena hesitou. Contar a um estranho sobre a morte do marido e as suspeitas sobre o amante seria um desabafo, mas também um risco. Tiago poderia ter olhos e ouvidos por toda parte. "Eu… eu moro aqui. Só estava… passeando."

Enquanto falava, seus olhos vagaram pela galeria. E então, ela viu. Preso em um canto, quase escondido, havia um pequeno objeto. Uma luneta antiga, de latão polido, repousava sobre um pedestal. Não era uma peça de arte, parecia mais um item de colecionador. Algo nela a incomodou. Uma sensação de familiaridade, somada a um pressentimento sombrio.

"E essa luneta?", ela perguntou, mudando de assunto abruptamente. "É parte da exposição?"

Arthur seguiu seu olhar. "Ah, essa peça. Não, não está à venda. Pertence a um amigo meu, um colecionador apaixonado por antiguidades. Ele a deixou aqui temporariamente. Dizem que tem uma história interessante."

"Que tipo de história?", Helena pressionou, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.

Arthur deu de ombros, com um sorriso enigmático. "Histórias de espionagem, de segredos. Ele diz que essa luneta já foi usada para observar o mar em busca de… inícios de tempestade. Ou talvez, de navios não desejados." Ele riu suavemente. "Pura fantasia, claro."

Mas Helena não riu. A mente dela explodiu em um turbilhão de possibilidades. Rafael, o que ele fazia naquela noite? E a mensagem de Tiago, "vi tudo"? Viu o quê? Visto de onde? A luneta. A possibilidade a atingiu com a força de um soco. E se Tiago estivesse observando? E se ele tivesse visto algo que a envolvia diretamente?

"O seu amigo colecionador… qual o nome dele?", Helena perguntou, sua voz embargada.

Arthur a olhou com mais atenção. Havia algo na intensidade do seu olhar que o desarmou. "Ele se chama… Ricardo. Ricardo Alencar."

Ricardo Alencar. O nome ressoou em sua mente como um sino fúnebre. Ricardo Alencar era um renomado empresário, conhecido por seus investimentos em imóveis e, secretamente, por seus contatos no submundo. Rafael o conhecia. Eles tiveram alguns negócios juntos. Negócios que terminaram mal.

O pânico se intensificou. A luneta, a praia, a mensagem de Tiago. Tudo parecia se encaixar de uma maneira aterrorizante. Ela precisava sair dali. Precisava pensar.

"Obrigada pela sua atenção", ela disse, forçando um sorriso, e se retirou rapidamente da galeria, deixando Arthur com um olhar perplexo.

Do lado de fora, o barulho da rua parecia amplificado. Carros buzinavam, pessoas riam, mas Helena só conseguia ouvir o eco de sua própria respiração acelerada. Ela se dirigiu ao seu carro, estacionado a poucas quadras dali. As mãos tremiam enquanto ela pegava as chaves. O volante parecia escorregadio sob seus dedos.

Ao ligar o motor, ela olhou para a vitrine da galeria onde a luneta estava exposta. E então, por um instante fugaz, ela a viu. Uma silhueta escura, observando da escuridão da galeria. Uma sombra que parecia se desvanecer assim que ela focou o olhar.

Era Tiago? Ou era apenas sua imaginação atormentada? O medo se misturou à raiva. Se Tiago sabia de algo, se ele estava envolvido, ela não o perdoaria. Mas como provar? Como desvendar essa teia de mentiras e segredos que parecia envolver Rafael e, agora, também a ela?

Ela deu partida no carro e acelerou pela Avenida Atlântica, as ondas de Ipanema passando como um borrão. A beleza da praia, antes um refúgio, agora parecia um palco cruel para a tragédia. Ela sentiu um nó na garganta. A certeza de que sua vida, antes tão clara, agora estava imersa em uma escuridão que ela mal conseguia começar a compreender. A luneta. O colecionador. A sombra na vitrine. A verdade estava ali, escondida em algum lugar, e Helena estava determinada a encontrá-la, mesmo que isso a levasse para os abismos mais sombrios de Ipanema.

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