O Silêncio de Ipanema
Capítulo 9 — A Farsa de Tiago
por Felipe Nascimento
Capítulo 9 — A Farsa de Tiago
O amanhecer em Ipanema desdobrava-se com a suavidade de sempre, mas para Helena, cada raio de sol parecia penetrar em sua alma com a ferocidade de um interrogatório. O diário de Rafael, escondido sob o travesseiro, era um lembrete constante da teia de mentiras em que ela estava imersa. As palavras de Rafael, as suas próprias dúvidas, as acusações veladas de Tiago – tudo se misturava em um pesadelo do qual ela não conseguia despertar.
Ela precisava confrontar Tiago. Não com raiva, mas com a frieza calculada de quem busca a verdade. Ele a havia procurado na noite anterior, uma aparição sinistra na penumbra do seu apartamento, com palavras que soavam como consolo, mas que escondiam um tom de ameaça. "Helena, você precisa de alguém com quem contar. Alguém que a entenda." Mas Helena agora desconfiava de cada palavra dele.
Ela ligou para ele, sua voz firme, ocultando o tremor interno. "Tiago, precisamos conversar. Agora. Aqui no meu apartamento."
Houve uma pausa do outro lado da linha. "Claro, meu amor. Estou a caminho." A familiaridade em seu tom, a forma como ele a chamava de "meu amor", antes um bálsamo para sua alma solitária, agora soava como uma armadilha.
Enquanto esperava, Helena preparou o café, suas mãos habilidosas executando a rotina mecanicamente. Ela colocou o diário de Rafael sobre a mesa da sala, visível, mas inalcançável para um olhar casual. Ela não o revelaria, mas sua presença era um lembrete silencioso do que estava em jogo.
Tiago chegou com um sorriso que não alcançava seus olhos. Ele usava um terno impecável, um contraste gritante com a angústia que emanava dele. O perfume caro que ele usava parecia sufocante.
"Helena, meu amor", ele disse, abraçando-a com uma força que a fez recuar levemente. "Você parece tão abatida. Eu sinto muito por tudo isso."
Ela se afastou, os olhos fixos nos dele. "Tiago, eu preciso que você seja honesto comigo. Completamente honesto."
Ele a olhou com uma expressão de surpresa calculada. "Claro, Helena. Sempre fui. O que você quer saber?"
"Você estava na praia na noite em que Rafael morreu. Você viu alguma coisa?"
Tiago sorriu, um sorriso torto que não a convenceu. "Eu o vi, Helena. Eu o vi… eu o vi com outra pessoa. Na verdade, eu o vi… você sabe." Ele fez uma pausa, como se esperasse que ela completasse a frase.
Helena sentiu um aperto no peito. Ele estava mentindo. Ou, pelo menos, distorcendo a verdade. "O que você quer dizer com 'você sabe'?"
"Eu vi Rafael… em uma situação comprometedora. Eu não posso entrar em detalhes, mas ele não estava sozinho. Havia alguém com ele. E isso me fez pensar… talvez ele estivesse te traindo, Helena. Talvez ele estivesse se afastando de você."
O jogo de Tiago era cruel. Ele jogava com a insegurança dela, com a dor da perda, manipulando as informações para que se encaixassem em sua narrativa. Ele sabia que Rafael estava envolvido com Ricardo Alencar. Ele sabia que Rafael estava em perigo. E ele estava usando isso para se aproximar dela, para se apresentar como o "salvador".
"E você acredita nisso?", Helena perguntou, sua voz carregada de descrença. "Você acredita que Rafael estava me traindo?"
"Helena, eu vi com meus próprios olhos", ele insistiu, dando um passo em sua direção. "E eu me sinto tão mal por você. Você merece mais do que isso. Merece alguém que a ame de verdade." Ele tocou seu rosto, e ela não se afastou, mas sentiu um asco crescente.
"Você esteve no escritório de Rafael ontem à noite", ela disse, mudando de assunto abruptamente. "Como você sabia que eu estaria lá?"
O sorriso de Tiago vacilou por um instante. "Eu… eu apenas tive um pressentimento. Eu sabia que você estaria procurando respostas. E eu queria estar lá para você."
Uma mentira descarada. Ele sabia. Ele sabia que ela estava buscando algo. Ele sabia que o diário estava lá. Ou ele sabia que ela o encontraria.
"Você falou com Rafael sobre mim?", Helena perguntou, seus olhos fixos nos dele, tentando decifrar as verdades escondidas em seu olhar.
"Não, Helena. Nunca. Eu não queria criar problemas entre vocês."
"Você me disse que o viu em uma situação comprometedora. Você estava me acusando de algo, não estava, Tiago? Você estava me acusando de ter algo a ver com a morte dele."
Tiago deu um passo para trás, como se ela tivesse o atingido com um golpe. "Helena, como você pode pensar isso? Eu nunca a acusaria. Eu te amo."
"Amor?", Helena riu, um som seco e sem alegria. "Você ama a quem, Tiago? A mim, ou a ideia de ter tudo o que Rafael tinha? O poder, o dinheiro, a influência… talvez até a mim."
A máscara de Tiago caiu. Seus olhos se estreitaram, e uma frieza gélida tomou conta de seu rosto. "Você está sendo irracional, Helena. A dor a está consumindo."
"A dor me fez ver a verdade, Tiago. A verdade sobre você. Você não é o amigo leal que sempre fingiu ser. Você está usando a morte de Rafael para se aproximar de mim, para se aproximar do que ele deixou."
"Isso é um absurdo!", ele exclamou, sua voz elevando-se. "Eu fui seu amigo desde criança! Eu o admirava!"
"Você o admirava? Ou você o invejava? Você o via como um rival, não era? E quando ele começou a se envolver com Ricardo Alencar, você viu sua chance." Helena se aproximou dele, sua voz baixa e firme. "Você sabia sobre os negócios de Rafael com Alencar. Você sabia que ele estava em perigo. E você não fez nada para ajudá-lo. Pelo contrário, você o empurrou para o abismo."
Tiago a olhou com ódio nos olhos. A farsa havia acabado. "Você não sabe de nada, Helena. Você é cega. Rafael era um homem fraco. Ele se deixou corromper."
"E você não?", Helena retrucou. "Você sabia que ele estava sendo chantageado. Você sabia que ele estava prestes a perder tudo. E você estava lá, com a sua luneta, observando tudo. Você estava na praia, não estava? Você viu Rafael morrer."
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de uma verdade inegável. Tiago não negou. Seus olhos brilhavam com uma mistura de raiva e algo que parecia… satisfação.
"Ele mereceu", Tiago disse, sua voz um rosnado. "Ele teve tudo e jogou fora. Ele era um tolo. E você, Helena, também é uma tola. Acreditando que ele a amava."
Helena sentiu um nó na garganta. As palavras de Tiago, por mais cruéis que fossem, ecoavam as próprias dúvidas que a assombravam. Mas ela não podia ceder. Ela precisava saber mais.
"E você?", ela perguntou, sua voz embargada pela emoção. "O que você ganha com isso, Tiago? O que você ganha com a morte de Rafael?"
Tiago deu um passo em sua direção, seu olhar agora predador. "Eu ganho você, Helena. E tudo o que ele deixou. Eu sempre quis você. E agora, você está livre. E eu estou aqui para cuidar de você."
Ele tentou abraçá-la novamente, mas Helena o empurrou com toda a sua força. "Saia daqui, Tiago! Saia da minha casa agora!"
Ele a olhou, um misto de surpresa e fúria em seu rosto. "Você vai se arrepender disso, Helena. Você vai se arrepender de me rejeitar."
Ele se virou e saiu, batendo a porta com força atrás de si. O som ecoou no apartamento, deixando Helena tremendo, mas com uma clareza recém-descoberta. Tiago era o inimigo. Ele estava manipulando-a, usando a morte de Rafael para se aproximar dela e, possivelmente, para se apossar do império de seu marido.
Ela olhou para o diário de Rafael sobre a mesa. A verdade era mais complexa e perigosa do que ela imaginava. Rafael estava envolvido com Ricardo Alencar. Tiago estava envolvido. E agora, ela estava no centro de tudo, uma peça em um jogo mortal.
A brisa do mar entrou pela janela aberta, trazendo consigo o cheiro de sal e de perigo. Ipanema, antes seu paraíso, agora parecia um labirinto escuro e traiçoeiro. Ela sabia que Tiago não desistiria. Ele voltaria. E ela precisava estar preparada. A farsa havia acabado, e a guerra estava apenas começando.