O Último Acordo de Sofia
Capítulo 10 — A Verdade Escondida no Livro
por Beatriz Mendes
Capítulo 10 — A Verdade Escondida no Livro
O silêncio tenso no escritório de Arthur Silveira era quebrado apenas pela respiração acelerada de Sofia e Daniel. Ricardo Monteverde, com seu sorriso cruel e seus capangas flanqueando-o, parecia um predador no auge de seu poder. A armadilha havia se fechado, e Sofia sentia o desespero começar a se insinuar, frio e pegajoso.
"Eu não tenho nada para você, Ricardo", disse Sofia, a voz firme, tentando mascarar o tremor que percorria seu corpo. Ela agarrou o livro com mais força, como se fosse um escudo.
Ricardo deu um passo à frente, o olhar fixo em suas mãos. "Ah, sim. O livro. Uma lembrança de um velho amigo. E o que há dentro dele, Sofia? Algum segredo valioso que o Dr. Silveira achou prudente esconder de mim?" Ele olhou para os capangas. "Verifiquem a Sra. Almeida. Com cuidado."
Um dos homens avançou em direção a Sofia. Daniel se interpôs. "Deixe ela em paz!"
O capanga empurrou Daniel com força. Ele tropeçou, mas se recompôs, pronto para defender Sofia. A cena se transformava rapidamente em um confronto físico.
"Chega!", gritou Sofia, a voz ecoando com uma fúria repentina. Ela não podia deixar que eles a machucassem. E ela não podia permitir que Ricardo saísse impune. Em um movimento rápido, ela abriu o livro, folheando as páginas com uma velocidade impressionante. Ricardo a observava com curiosidade, o sorriso um pouco diminuído, mas ainda confiante.
"O que você está procurando, Sofia?", perguntou ele. "Talvez eu possa te ajudar a encontrar."
Sofia ignorou-o. Ela lembrava das palavras de Daniel: "Há algo nele que ele quer que você encontre." Onde poderia estar? Em uma página específica? Em uma anotação? Ela folheou, as mãos tremendo, a mente correndo. Seus olhos pousaram em uma página com uma ilustração detalhada de um mapa antigo do litoral brasileiro. Algo chamou sua atenção. Uma pequena dobra em uma das margens.
Com os dedos ágeis, ela desdobrou a margem. Ali, quase imperceptível, havia uma pequena gravação a laser, um código minúsculo que ela não reconheceu. Mas abaixo dela, uma sequência de números e letras. Uma senha?
"O que é isso?", perguntou Ricardo, aproximando-se, a curiosidade superando sua arrogância.
Sofia não respondeu. Ela olhou para Daniel, um brilho de esperança em seus olhos. "Daniel, você se lembra de...?"
Daniel a olhou, confuso. "Lembro de quê, Sofia?"
"Daquele código que o seu pai usava para o cofre? O que ele nos mostrou uma vez, quando éramos crianças?"
Daniel franziu a testa, tentando se lembrar. A imagem de um cofre antigo, de um pai orgulhoso mostrando seus segredos, passou por sua mente. "Sim... sim, eu lembro. Era algo como..." Ele parou, a mente buscando a memória. "Era uma combinação de números e letras. Ele disse que era um código secreto que só ele e Arthur sabiam."
Ricardo observava a troca de olhares, a impaciência crescendo. "Do que vocês estão falando? Me digam o que é isso!"
Sofia sabia que tinha pouco tempo. Se Ricardo conseguisse colocar as mãos naquele código, seria o fim. "É o código, Ricardo. O código do cofre do meu pai. Um cofre que ele guardava os segredos mais importantes da Almeida Corp. Segredos que você tentou roubar, mas que nunca encontrou."
Ricardo ficou pálido. Ele sabia da existência de um cofre, mas nunca havia descoberto sua localização ou sua senha. E o pai de Sofia, o homem que ele havia levado à beira da morte, era conhecido por ser extremamente reservado.
"Impossível", murmurou Ricardo. "Seu pai nunca confiaria em você com isso."
"Ele confiou", disse Sofia, um sorriso triunfante começando a se formar em seus lábios. "Ele me contou tudo. E Arthur Silveira, seu leal amigo, me ajudou a encontrar a chave. E agora, eu tenho o código."
Ela olhou para os capangas. "O que vocês estão esperando? Se não querem acabar como o Arthur Silveira, talvez seja melhor pensar duas vezes antes de me machucar."
Ricardo cerrou os punhos. Ele estava perdendo o controle. A garota que ele havia subestimado estava se tornando uma ameaça real. Ele havia subestimado a inteligência dela, a sua coragem, e a sua determinação.
"Vocês dois", disse Ricardo aos seus homens, a voz tensa. "Tragam a Sra. Almeida e o Sr. Montenegro para a minha sala. Eu quero ver esse cofre."
Sofia sabia que seguir Ricardo era arriscado, mas era a única chance que ela tinha. Se ela pudesse acessar o cofre, ela teria as provas de que precisava. E talvez, apenas talvez, ela pudesse virar o jogo contra ele.
Enquanto eram conduzidos para a sala de Ricardo, Sofia lançou um olhar para Daniel. Ele a olhou de volta, um misto de medo e admiração em seus olhos. Eles estavam juntos nisso. A leoa e o amigo de infância, unidos pela busca da verdade e pela vingança.
Chegaram à sala de Ricardo. Era luxuosa, mas escura, com cortinas pesadas bloqueando a luz do sol. No centro, havia uma mesa de reunião, e em um canto, escondido por um painel de madeira, estava ele: o cofre. Um cofre antigo, com uma combinação complexa.
"Abra", ordenou Ricardo, os olhos fixos no cofre.
Sofia se aproximou, o livro em suas mãos. Ela digitou a senha, as mãos firmes, a mente clara. A combinação era longa e complexa, mas ela a memorizara. Cada letra, cada número. O som de cliques ecoou na sala.
Um clique alto e satisfatório soou. A porta do cofre se abriu.
Lá dentro, não havia ouro ou joias. Havia documentos. Fardos de documentos. Contratos, gravações, e-mails. E um pequeno caderno de capa preta.
Sofia pegou o caderno. Era o diário de seu pai. Ela o folheou, as lágrimas começando a brotar em seus olhos. Ali estavam seus pensamentos, suas angústias, seus medos. E a verdade crua sobre a chantagem de Ricardo. Havia também detalhes sobre os negócios escusos de Ricardo, provas irrefutáveis de seus crimes.
"Isso é tudo", disse Sofia, a voz embargada pela emoção. "Isso é a prova de tudo o que você fez. De como você destruiu meu pai. De como você roubou nosso império."
Ricardo avançou, o rosto contorcido de fúria. "Isso não significa nada! Eu sou Ricardo Monteverde! Ninguém pode me tocar!"
"Você está enganado", disse Sofia, levantando o diário. "A partir de agora, você não é mais o poderoso Ricardo Monteverde. Você é um criminoso. E eu vou garantir que todos saibam disso."
De repente, a porta do escritório se abriu com estrondo. A polícia, liderada pelo delegado que Sofia havia contatado secretamente, invadiu a sala. Daniel, que havia conseguido alertar as autoridades discretamente, sorriu para Sofia.
Ricardo Monteverde, pego de surpresa, tentou fugir, mas foi detido pelos policiais. Seus capangas foram imobilizados. A armadilha havia se voltado contra ele.
Sofia observou Ricardo ser levado, algemado, sua arrogância substituída por um desespero patético. Ela olhou para Daniel, seus olhos encontrando-se. A jornada havia sido longa e dolorosa, mas a verdade havia vindo à tona. E a vingança, finalmente, estava ao seu alcance.
Ela segurou o diário de seu pai com força. O último acordo de Sofia não era apenas sobre recuperar o que era seu. Era sobre honrar a memória de seu pai e garantir que a justiça prevalecesse. E naquele momento, sob as luzes frias da delegacia, ela sabia que havia cumprido sua promessa.