O Último Acordo de Sofia

O Último Acordo de Sofia

por Beatriz Mendes

O Último Acordo de Sofia

Autor: Beatriz Mendes

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Capítulo 11 — O Espelho Quebrado da Alma

O sol da manhã, inclemente, invadia o quarto de Sofia, pintando listras douradas sobre o lençol amarrotado. Mas a luz não trazia o calor reconfortante de sempre, apenas escancarava a desordem que reinava não só no ambiente, mas, principalmente, na sua alma. Os olhos verdes, outrora brilhantes de esperança e determinação, agora refletiam um cansaço profundo, manchado pela dor e pela perplexidade. O livro que desvelara o segredo de Ricardo, a prova irrefutável de suas mentiras, jazia aberto na mesinha de cabeceira, como um espectro a assombrá-la.

Cada página virada era uma facada. As palavras que ele escrevera, de próprio punho, detalhando a teia de enganos que tecera para se aproximar dela, para seduzi-la, para, em última instância, explorar a fragilidade de sua família, eram um veneno lento a corroer seu coração. Aquele Ricardo, o homem que ela acreditara amar, o homem que lhe jurara amor eterno sob o céu estrelado de Paraty, era uma construção, uma fachada meticulosamente elaborada. E ela, a pobre Sofia, fora a marionete principal de seu espetáculo macabro.

A lembrança do Café Girassol, da conversa com a senhora Helena, da fragilidade em seus olhos ao revelar a verdade sobre o passado de Ricardo, parecia um sonho distante e cruel. Helena, com sua voz embargada, lhe entregara o livro, um volume antigo de poesias que pertencia à sua falecida filha, Clara, a primeira vítima de Ricardo, a quem ele prometera um futuro que nunca chegou. E Sofia, em sua ingenuidade, pensou que era um presente, uma despedida. Ah, que doce ilusão!

O livro não era um presente. Era um legado, um grito silencioso de uma alma torturada, um aviso. As cartas escondidas entre as páginas, os desabafos febris, a confissão de um amor impossível e de uma culpa esmagadora, tudo ali contido, ecoava o tormento de Clara. E agora, ecoava o dela também. Aquele homem que ela conhecia… quem era ele, afinal? O que restava de verdade em suas palavras, em seus gestos, em seus beijos?

Um soluço irrompeu, um som rouco que quebrou o silêncio do quarto. Sofia se levantou, os pés descalços tocando o carpete frio. Caminhou até a janela, o corpo trêmulo como uma folha ao vento. A cidade lá fora parecia indiferente à sua dor, seus prédios altos e modernos, um testemunho do progresso implacável que ela, de alguma forma, se sentia incapaz de acompanhar.

Ela se viu no reflexo da vidraça. O rosto pálido, os olhos fundos, os cabelos despenteados. Não era a Sofia de antes. Algo se partira dentro dela, algo irreparável. Era como olhar para um espelho quebrado, onde cada fragmento distorcia a imagem, mostrando apenas pedaços de uma realidade dolorosa.

O telefone tocou, estridente, arrancando-a de seus pensamentos sombrios. O display mostrava o nome dele: Ricardo. Um arrepio percorreu sua espinha. Ela quase o jogou longe, o nojo e a raiva borbulhando em seu interior. Mas, em vez disso, atendeu, a voz embargada e fria como o gelo.

“Sofia? Meu amor, finalmente. Eu tentei ligar ontem, mas você não atendeu. Está tudo bem? Senti sua falta.”

A voz dele, suave e preocupada, parecia zombar dela. Como ele podia, depois de tudo? Como ele podia fingir tão bem?

“Estou bem, Ricardo. Só… um pouco cansada.” A mentira saiu fácil, uma nova habilidade que ela adquiria dolorosamente.

“Cansada? De quê? De pensar em nós? De sonhar com o nosso futuro? Eu tenho tantos planos para nós, meu amor. A viagem para a Itália, o casamento…”

Ele continuou a falar, a enumerar promessas vazias, enquanto Sofia o ouvia com uma calma mortal. Cada palavra dele era uma confirmação do abismo que os separava. Ela não sentia mais nada por ele além de uma dor profunda e uma determinação crescente.

“Ricardo,” ela o interrompeu, a voz mais firme agora, um prenúncio da tempestade que se formava. “Preciso que você venha aqui.”

“Claro, meu amor. Em dez minutos estou aí. O que aconteceu? Parece… diferente.” Ele percebera algo, a mudança em sua voz, a frieza que ela agora exalava.

“Sim, Ricardo. Eu mudei. E você vai entender o porquê muito em breve.”

Ela desligou antes que ele pudesse responder, o coração martelando no peito. A armadilha estava armada. Ela não seria mais a vítima. Ela seria a caçadora. O livro de Clara estava ali, a prova do crime. E agora, era hora de expor o criminoso. A dor se transformara em fogo, e esse fogo a impulsionava. Ela respirou fundo, sentindo a força retornar a suas veias. Era hora de acabar com aquilo. Era hora de confrontá-lo. A Sofia que ele conheceu já não existia mais. A nova Sofia estava pronta para a batalha.

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