O Último Acordo de Sofia
Capítulo 14 — A Sombra de Miguel
por Beatriz Mendes
Capítulo 14 — A Sombra de Miguel
A noite caiu sobre a cidade, trazendo consigo um véu de mistério e um arrepio que não vinha apenas do frio. Sofia, com a mente fervilhando de planos e preocupações, sentiu uma inquietação crescente. A conversa com Dr. Almeida e sua mãe havia solidificado sua determinação, mas também a deixara mais exposta. Ricardo sabia que ela sabia, e isso o tornava ainda mais perigoso.
Ela precisava de mais informações, de uma perspectiva externa, talvez até de um aliado inesperado. Seus pensamentos voltaram para Miguel, o homem enigmático que a abordara no Café Girassol. Ele a observara, a ajudara, e parecia ter um conhecimento peculiar sobre Ricardo e seus negócios. Havia algo nele que a intrigava e a assustava ao mesmo tempo.
Decidiu procurá-lo. Era um risco, ela sabia, mas a necessidade de entender a extensão do “Projeto Fênix” e a verdadeira natureza de Ricardo a impulsionava. Ela não sabia onde encontrá-lo, mas lembrou-se de um pequeno bar de jazz que ele mencionara de passagem, um lugar discreto nos confins do bairro antigo.
O bar era escuro e esfumaçado, as notas melancólicas de um saxofone preenchendo o ambiente. As pessoas ali pareciam reclusas, perdidas em seus próprios mundos. Sofia sentou-se em um canto, o coração batendo descompassado, enquanto escaneava os rostos na penumbra. E então ela o viu. Miguel, sentado sozinho em uma mesa afastada, um copo de uísque à sua frente, o olhar perdido na distância.
Ela respirou fundo e caminhou em sua direção, o som de seus saltos ecoando no assoalho de madeira. Ele ergueu os olhos quando ela se aproximou, um lampejo de surpresa seguido por um leve sorriso, quase imperceptível.
“Sofia. Que coincidência nos encontrarmos aqui.” A voz dele era grave e calma, como o som do jazz que os cercava.
Sofia sentou-se à sua frente, o olhar direto e sem rodeios. “Não é coincidência, Miguel. Eu precisava falar com você. Você parece saber coisas sobre Ricardo Monteiro que eu não sei.”
Ele tomou um gole de seu uísque, os olhos fixos nos dela, analisando-a. “E o que a faz pensar isso?”
“Você estava no Café Girassol. Você me observou. E você me deu o livro de Clara. Você sabia que eu o encontraria. Por quê?”
Miguel deu um pequeno suspiro, como se estivesse prestes a revelar um segredo guardado a sete chaves. “Digamos que eu tenho meus próprios motivos para querer ver Ricardo Monteiro desmoronar. Ele… ele tirou muito de mim.”
“Tirou o quê?” Sofia insistiu, a curiosidade misturada com a urgência.
“O meu futuro. O meu nome. A minha paz.” Ele fez uma pausa, seus olhos adquirindo um brilho melancólico. “Trabalhei para ele há muitos anos. Fui um dos arquitetos do império dele. Mas quando vi a crueldade com que ele operava, a forma como ele esmagava as pessoas para subir, eu… eu quis sair. Ele não permitiu. E me arruinou.”
Sofia sentiu um arrepio de compreensão. A história se repetia. Ricardo era um homem sem escrúpulos, capaz de destruir quem quer que se opusesse a ele.
“Ele está armando algo com o nosso acordo, não está?” Sofia perguntou, a voz baixa. “O Projeto Fênix. O que é isso?”
Miguel hesitou por um momento, sua expressão se tornando sombria. “O Projeto Fênix é… o plano mestre de Ricardo. Ele usa empresas em dificuldades, como a sua família, para obter controle total. Ele insere cláusulas ocultas nos acordos, juros exorbitantes, e quando a empresa não consegue pagar, ele a assume por uma fração do seu valor real. Ele então desmantela, vende os ativos e lucra imensamente. É um esquema de predação financeira. Clara descobriu isso, tentou detê-lo, e ele a silenciou.”
A revelação foi um golpe para Sofia. A crueldade de Ricardo era ainda maior do que ela imaginava. Clara não fora apenas uma vítima de seus jogos amorosos, mas de seus planos de negócios devastadores.
“Ele quer a nossa empresa,” Sofia disse, a voz embargada pela emoção. “Ele vai nos arruinar.”
“Não se você puder provar o esquema dele,” Miguel respondeu. “Clara deixou pistas. As cartas, os documentos que ela guardava. Ela sabia que ele era perigoso. Eu a ajudei a esconder algumas coisas, na esperança de que um dia alguém pudesse usá-las contra ele.”
“Você sabia sobre o livro?” Sofia perguntou, surpresa.
Miguel assentiu. “Eu sabia que Clara o havia deixado em um lugar seguro. Eu não sabia que ela o daria a você, mas esperava que alguém com coragem o encontrasse. E você, Sofia, provou ser essa pessoa.”
Um silêncio pesado se instalou entre eles, pontuado pela música suave do saxofone. Sofia sentiu um misto de gratidão e desconfiança. Ele estava ajudando-a, mas quais eram suas verdadeiras intenções?
“Por que me ajudar agora, Miguel?” ela perguntou, direta. “Você disse que ele o arruinou. Por que não agiu antes?”
“Porque eu estava com medo. Porque ele é poderoso. Mas ver você, enfrentar ele assim… me deu coragem. E porque eu devo isso a Clara. E a todos os outros que ele prejudicou. Eu quero vingança, Sofia. Uma vingança limpa, através da justiça.”
A palavra “vingança” ecoou em Sofia. Era um sentimento que ela agora compreendia intimamente.
“Eu também quero justiça,” ela disse, firme. “Mas não sei por onde começar. Ricardo é astuto. Ele cobre seus rastros muito bem.”
“Eu posso ajudar,” Miguel ofereceu. “Eu conheço os métodos dele. As brechas que ele usa. Se você me der acesso aos documentos que Clara deixou e aos que você conseguiu, posso te ajudar a montar o caso. Podemos expor o Projeto Fênix e prendê-lo.”
Sofia o olhou, avaliando a sinceridade em seus olhos. Havia dor ali, e uma determinação que espelhava a dela. Era arriscado confiar nele, mas ela não tinha outra opção.
“Eu preciso ter certeza, Miguel. Que você não está jogando dos dois lados.”
Ele sorriu, um sorriso genuíno desta vez, que suavizou as linhas de seu rosto cansado. “Sofia, eu perdi tudo para ele. Não tenho mais nada a perder. E tudo a ganhar se ele for detido. Pense em Clara. Pense em sua família. Faça a escolha certa.”
A menção de Clara e de sua família foi o que a convenceu. Ela pegou sua bolsa e tirou de dentro algumas fotos das cartas de Clara e uma cópia digitalizada de um documento que Ricardo havia enviado para sua família, contendo cláusulas suspeitas.
“Isso é tudo o que tenho por enquanto,” ela disse, colocando as fotos e o pendrive na mesa. “O resto está seguro. Preciso que você analise. E me diga o que podemos fazer.”
Miguel pegou os materiais com cuidado, seus dedos roçando os dela. Um toque elétrico, carregado de promessas e perigos.
“Eu vou fazer isso, Sofia. E vou te ajudar a derrubar Ricardo Monteiro. Ele não vai se safar dessa vez.”
Enquanto saía do bar, as notas do saxofone a acompanhavam, uma melodia agridoce que parecia embalar a sua nova jornada. A sombra de Miguel se estendia, uma aliança improvável, mas talvez necessária, na luta contra um inimigo implacável.