O Último Acordo de Sofia

Capítulo 17 — O Ninho da Serpente

por Beatriz Mendes

Capítulo 17 — O Ninho da Serpente

A noite envolvia a cidade em seu manto escuro, mas na cobertura de Ricardo, uma luz fria e incansável iluminava a cena. Sofia, com os cabelos presos de forma despretensiosa e um olhar que queimava mais do que a bebida em sua mão, folheava pilhas de documentos. Ao seu lado, Ricardo observava com atenção, a testa franzida em concentração, enquanto Helena, com sua habitual elegância, organizava a informação em um quadro branco estrategicamente posicionado.

“Eu não entendo como ele conseguiu fazer tudo isso sem levantar suspeitas”, Sofia murmurou, a voz rouca pela exaustão e pela frustração. Havia dias que ela e Ricardo passavam imersos naquele labirinto de números, contratos e assinaturas. Cada pista levava a outra, cada revelação abria um novo abismo de complexidade.

“Ele era o seu braço direito, Sofia. O seu confidente”, Ricardo disse, passando a mão pelos papéis com cuidado. “Você confiava nele implicitamente. Ele sabia exatamente quais botões apertar, quais brechas explorar. A ‘família’ que ele construiu com você era a sua fachada perfeita.”

Helena apontou para um nome escrito em vermelho no quadro. “Este é o advogado. Matias Torres. Ele é conhecido por ser um ‘resolvedor’. Trabalha nas sombras, longe dos holofotes, e tem uma rede de contatos impressionante. Dizem que ele já desmantelou empresas inteiras para os seus clientes sem deixar rastros.”

“E o pai de Miguel?”, Sofia perguntou, a raiva voltando a subir em sua garganta. “O Sr. Almeida? Ele não pode ter ficado alheio a tudo isso.”

“O Sr. Almeida é um tubarão. Ele sempre viu a empresa como um meio para um fim, para enriquecer ainda mais a sua própria dinastia. Se ele sabia, certamente aprovou. Miguel sempre foi o seu preferido, o herdeiro destinado a continuar o legado. Para ele, qualquer método que garanta o poder e o dinheiro é válido”, Ricardo explicou, a voz carregada de desprezo. “Eles são uma parceria perigosa.”

Sofia bateu com a mão na mesa, um som seco que ecoou na sala. “Mas há algo que ele não contava. Ele não contava com a minha resiliência. Ele não contava com a ajuda de vocês. Ele achou que eu me quebraria. Mas eu não sou feita de vidro, Ricardo. Sou feita de aço.”

Helena sorriu, um sorriso genuíno que há muito não aparecia em seu rosto. “Nós sabíamos disso, Sofia. Você sempre foi a mais forte de nós duas. Mesmo quando parecia que tudo estava perdido, havia uma força em você que sempre te fez levantar.”

“E eu vou precisar de toda essa força”, Sofia respondeu, a voz séria. “Olhem isso.” Ela apontou para um contrato de compra e venda, um dos muitos que Miguel usou para transferir ativos da empresa. “Esta assinatura… é a minha. Mas eu nunca vi este contrato. Nunca assinei nada parecido.”

“Procuração falsa”, Ricardo deduziu, a mandíbula tensa. “Ele te enganou para assinar uma procuração geral, com cláusulas que você não leu, ou que ele explicou de forma superficial. E com essa procuração, ele pôde agir em seu nome, como se fosse você.”

“Mas há um problema”, Helena interveio, a testa franzida. “Para que essa procuração fosse válida em transações de tamanha magnitude, ela precisaria ser registrada em cartório e ter a assinatura de uma testemunha. E eu não vejo nenhuma testemunha qualificada nesses documentos.”

Um lampejo de esperança surgiu nos olhos de Sofia. “Testemunha… você tem certeza, Helena?”

“Tenho. A lei é clara quanto a isso. Ele precisaria de alguém para dar fé. A menos que ele tenha falsificado essa parte também.”

“Ou subornado alguém”, Ricardo completou, o pensamento sombrio. “Um oficial de cartório, um advogado de registro… A corrupção, infelizmente, é uma moeda corrente no mundo deles.”

Sofia sentou-se, um suspiro escapando de seus lábios. A esperança, por mais tênue que fosse, era um fio que ela precisava segurar. “Precisamos investigar os registros de todos os cartórios onde esses documentos foram supostamente registrados. Precisamos encontrar quem foi essa ‘testemunha’. E se for alguém que ele subornou, temos que descobrir quem e por quê.”

A partir daquele momento, a cobertura de Ricardo se transformou em uma espécie de quartel-general. Cada um tinha uma tarefa. Ricardo, com seus contatos e influência, começou a sondar o círculo de Matias Torres, buscando qualquer fraqueza, qualquer vazamento de informação. Helena, com sua mente analítica e atenção aos detalhes, mergulhou nos registros financeiros, buscando anomalias, desvios ocultos, qualquer rastro que Miguel pudesse ter deixado. E Sofia, impulsionada pela fúria e pela necessidade de justiça, focou na busca pela testemunha, em desvendar a identidade da pessoa que, com sua assinatura, validou a ruína dela.

Horas se transformaram em dias. O sol nasceu e se pôs incontáveis vezes. O cansaço era palpável, mas a determinação de Sofia era um fogo que não se apagava. Ela revisava cada documento com uma lupa, imaginando Miguel, sorrindo, acreditando que a tinha vencido. A imagem dele, que antes trazia dor, agora alimentava sua força.

“Encontrei algo”, Helena disse em uma madrugada, a voz exausta, mas com um tom de triunfo contido. Ela apontou para uma planilha. “Este advogado, Matias Torres, tem um histórico de representação para uma offshore. E essa offshore… é a mesma que aparece como compradora em três das transações mais significativas que Miguel realizou. Ele não apenas facilitou, ele é parte do esquema.”

“Mas a offshore é apenas uma empresa de fachada. Não nos diz quem está por trás”, Sofia ressaltou, o cérebro ainda em pleno funcionamento.

“Eu sei. Mas a ligação é forte. E há mais”, Helena continuou, apontando para outra linha. “O registro da procuração geral, aquela que você mencionou, Sofia, que validou as transações mais importantes, foi feito no Cartório Central. E a testemunha… é um certo ‘João Silva’.”

O nome soou comum, quase banal. João Silva. Quem poderia ser esse João Silva? Um laranja? Um funcionário de baixo escalão? Um homem comum arrastado para um esquema criminoso?

“João Silva…”, Sofia repetiu, tentando memorizar o nome. “Ele é a chave. Precisamos encontrá-lo. Ele pode ser a testemunha que vai quebrar Miguel.”

Ricardo, que estava do outro lado da sala, conferindo informações em seu laptop, levantou a cabeça. “João Silva… Esse nome me soa vagamente familiar. Vou verificar meus contatos. Talvez eu tenha alguma ligação com o mundo dos negócios menos… lícitos. Às vezes, esses esquemas envolvem pessoas que transitam em diferentes círculos.”

A esperança, antes um fio, agora se tornava uma corda mais robusta. A descoberta da testemunha, João Silva, e a ligação de Matias Torres com a offshore, eram rachaduras no muro de proteção de Miguel. O ninho da serpente começava a ser exposto, e Sofia estava pronta para atacar. A batalha pela sua empresa, pela sua reputação e pela sua dignidade estava apenas começando, e ela não cederia um centímetro. A noite era longa, mas o amanhecer, ela sentia, traria consigo a promessa de justiça.

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