O Último Acordo de Sofia
Capítulo 9 — O Segredo na Livraria Antiga
por Beatriz Mendes
Capítulo 9 — O Segredo na Livraria Antiga
O aroma de papel antigo e couro envelhecido pairava no ar da livraria "O Saber Perdido", um refúgio silencioso em meio ao caos urbano de Pinheiros. Sofia havia seguido a pista de Daniel, guiada por uma intuição que raramente a enganava. Ela sabia que ele estava em busca de algo, e a menção de Arthur Silveira, o ex-advogado de seu pai, a levava a crer que a verdade estava mais perto do que ela imaginava.
Ela encontrou Daniel em um canto isolado, cercado por pilhas de livros empoeirados. Ele estava absorto em um volume grosso e encadernado, a testa franzida em concentração. Ao vê-la, seus olhos se arregalaram de surpresa, mas um lampejo de alívio também cruzou seu rosto.
"Sofia", ele sussurrou, fechando o livro com cuidado. "O que você está fazendo aqui?"
"Estou procurando a verdade, Daniel. E você parece ser a única pessoa disposta a me ajudar a encontrá-la." Ela olhou ao redor. "O que é este lugar? E quem é Arthur Silveira?"
Daniel hesitou por um momento, olhando em volta para ter certeza de que estavam sozinhos. "Este lugar é um dos meus refúgios. E Arthur Silveira... ele foi o advogado de confiança do seu pai. O único que ficou do lado dele até o fim. Ele tem um conhecimento profundo sobre tudo o que aconteceu com a Almeida Corp. E eu tenho conversado com ele."
"Conversado? E o que ele disse?", a voz de Sofia era ansiosa. Ela sentia que estava no limiar de uma descoberta dolorosa.
"Ele está coletando provas, Sofia. Documentos, gravações, testemunhos. Coisas que o Ricardo enterrou. Ele acredita que o Ricardo forjou a falência e a morte do seu pai para tomar tudo. Ele tem trabalhado nisso por anos. Em segredo." Daniel suspirou. "O problema é que o Ricardo é muito poderoso. E ele sabe que Silveira tem algo. Ele já tentou intimidá-lo. E agora, eu acho que ele sabe que eu também estou envolvido."
O nome de Ricardo Monteverde, sussurrado naquele ambiente silencioso, soou como uma ameaça. Sofia sentiu um arrepio na espinha. Ela sabia que Ricardo era implacável, mas a extensão de sua crueldade a assustava.
"O que o Ricardo fez?", ela perguntou, a voz quase inaudível.
"Ele chantageou seu pai. Usando um segredo antigo. Um que poderia destruir a reputação dele e, consequentemente, a empresa. Seu pai, que era um homem orgulhoso e que prezava mais a honra do que tudo, se sentiu encurralado. Ele não viu outra saída. Ele... ele se suicidou."
As palavras de Daniel ecoaram na livraria, perfurando Sofia como lâminas de gelo. A imagem de seu pai, forte e resiliente, se desfez em sua mente, substituída por uma figura frágil e desesperada. A raiva borbulhou dentro dela, uma fúria que ameaçava consumi-la.
"Eu preciso das provas, Daniel. Eu preciso ver com meus próprios olhos. Onde está Arthur Silveira?"
"Ele está em seu escritório, mas é perigoso. O Ricardo está vigiando todos os passos dele. Eu sugeri que ele se encontrasse com você em um lugar mais seguro. Um lugar onde o Ricardo não o esperaria." Daniel apontou para um dos livros que estava em sua mesa. "Este livro. É uma história sobre os primeiros exploradores do Brasil. O autor era um velho amigo de Silveira. Ele disse que se algo acontecesse com ele, você deveria procurar este livro. Há algo nele que ele quer que você encontre."
Sofia pegou o livro. Era pesado, as páginas amareladas e frágeis. Ao abri-lo, um pequeno envelope caiu de dentro. Dentro, um cartão de visitas. O nome na frente: Dr. Arthur Silveira. O endereço era de um escritório no centro da cidade, um local que Sofia reconheceu como um prédio comercial antigo, mas respeitável.
"Ele quer que eu vá lá?", ela perguntou, a voz embargada.
"Sim. Ele sabe que você virá. Ele disse para você ir sozinha. E para ter cuidado. Ele tem informações que podem mudar tudo."
Sofia assentiu. Ela sabia que estava entrando em um território perigoso. Ricardo Monteverde era um predador astuto, e ela estava se aproximando de sua toca. Mas a imagem de seu pai, a dor de sua mãe, a humilhação de sua família, tudo isso a impulsionava. Ela não podia recuar.
"Eu vou. Mas você vem comigo, Daniel."
Daniel hesitou. "Sofia, é arriscado. Se o Ricardo descobrir que eu estou te ajudando..."
"É por isso que precisamos de provas. Para acabar com ele de vez. Você se arrepende de ter me procurado, Daniel? Você se arrepende de ter me contado a verdade?"
Daniel a encarou, seus olhos castanhos cheios de uma mistura de medo e determinação. "Não. Eu não me arrependo. Eu só me arrependo de ter sido tão covarde."
Enquanto saíam da livraria, Sofia sentiu o peso do livro em suas mãos, um símbolo da verdade que ela buscava. A cidade de São Paulo, com suas sombras e seus segredos, se estendia diante dela. Ela estava pronta para enfrentar qualquer coisa.
Chegaram ao escritório de Arthur Silveira. Era um andar inteiro de um prédio histórico, com a fachada imponente e janelas altas que davam para a Praça da Sé. A recepção estava vazia, a quietude incomum. Um bilhete colado na porta principal dizia: "Para Sofia. O escritório principal está no final do corredor. Por favor, entre."
A porta estava destrancada. O escritório era elegante, mas parecia ter sido revirado. Documentos espalhados, papéis rasgados, um vaso de porcelana quebrado no chão. Era um cenário de luta.
"Dr. Silveira?", Sofia chamou, a voz ecoando no silêncio.
Nenhuma resposta.
Daniel, visivelmente apreensivo, avançou para o centro da sala. "Sofia, isso não parece bom."
De repente, um barulho veio de trás de uma estante de livros. Sofia e Daniel se viraram, os corações acelerados. Um homem emergiu das sombras. Ele usava um terno escuro, impecável, e tinha um sorriso frio e calculista no rosto. Era Ricardo Monteverde.
"Ora, ora, Sra. Almeida", disse Ricardo, a voz suave, mas cheia de escárnio. "Que surpresa agradável. Você veio buscar algo, não é mesmo? E você, Daniel. Tão leal. Tão prestativo."
Sofia sentiu o sangue gelar nas veias. Era uma armadilha. Ela sabia que era uma armadilha, mas a esperança de encontrar Arthur Silveira a cegara.
"Onde está Arthur Silveira, Ricardo?", ela exigiu, tentando manter a voz firme.
Ricardo riu, um som desagradável. "O Dr. Silveira... ele teve um contratempo. Ele se recusou a colaborar. Uma pena. Ele era um homem de princípios, assim como seu pai. Mas princípios não pagam as contas, não é mesmo?"
Ele se aproximou de Sofia, um brilho perigoso em seus olhos. "Você veio atrás de provas, Sofia. Provas que poderiam, talvez, me prejudicar. Mas você veio ao lugar errado. E na hora errada."
Ele fez um gesto para a porta. Dois homens corpulentos, com expressões severas, entraram no escritório. Eles eram seguranças de Ricardo.
"O acordo ainda está de pé, Sofia", disse Ricardo, o sorriso se alargando. "Você me entrega o que quer que o Dr. Silveira tenha lhe dado, e eu considero o seu pedido de perdão. Caso contrário..." Ele deu de ombros. "Você e seu amigo terão um destino muito desagradável."
Sofia olhou para Daniel, depois para Ricardo. A verdade estava tão perto, mas agora parecia inatingível. Ela apertou o livro em suas mãos. O autor daquele livro, o amigo de Silveira. Havia algo ali. Algo que Ricardo não esperava. Ela sabia que tinha que lutar.