O Sopro da Matinta
O Sopro da Matinta
por Stella Freitas
O Sopro da Matinta
Por Stella Freitas
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Capítulo 11 — A Sombra que Sussurra no Escuro
A noite em Altamira era um manto pesado, tecida com o aroma úmido da floresta e o murmúrio constante do rio. A luz fraca da lua, filtrada pelas copas densas das árvores, criava um jogo de sombras dançantes nas paredes rústicas da casa de Clara. Ela estava ali, encolhida na poltrona de vime, o corpo tenso como a corda de um arco prestes a se partir. O silêncio da casa, antes reconfortante, agora parecia prenhe de algo mais, algo que se esgueirava nas frestas e se arrastava pelos cantos.
Desde o encontro com o velho Elias, as coisas haviam mudado. A sensação de ser observada, que antes era apenas um arrepio fugaz, agora se tornara uma presença constante, um peso invisível sobre seus ombros. Ela tentava se convencer de que era apenas a ansiedade, o estresse de lidar com a herança inesperada, a responsabilidade de um lugar que ela mal conhecia. Mas o medo, ah, o medo era mais insidioso. Ele se instalava em sua garganta, roubando-lhe o ar, fazendo seu coração disparar em um ritmo descompassado.
Seu olhar vagueava pela sala, pousando nas fotografias em preto e branco que adornavam a lareira. Rostos desconhecidos, sorrisos congelados no tempo. Sua avó, Dona Cotinha, uma mulher de olhar firme e sorriso gentil. Seu avô, um homem de semblante sério, com as mãos calejadas pelo trabalho na terra. Ela sentia uma pontada de saudade por pessoas que nunca conheceu, por uma vida que lhe fora negada.
Um ruído sutil a sobressaltou. Um arrastar leve no telhado, como se patas de animais estivessem caminhando por ali. Mas não eram animais comuns. Havia uma cadência, uma inteligência naquele som que a fez prender a respiração. Elias havia falado de "espíritos da mata", de "encantados". Ela se recusava a acreditar, mas a linha entre o racional e o irracional parecia se esvanecer a cada noite que passava.
De repente, uma corrente de ar gelado varreu a sala, apagando a vela que iluminava um canto escuro. As sombras se alongaram, dançando com uma malevolência crescente. Clara se levantou, as mãos tremendo. Ela precisava de luz, de se sentir segura. Caminhou até a janela e afastou a cortina grossa. Do lado de fora, a escuridão era quase absoluta, quebrada apenas por alguns pontos de luz bruxuleante.
Foi então que ela viu. Algo se moveu nas árvores, na orla da floresta. Uma silhueta esguia, de contornos indefinidos, que parecia se fundir com a vegetação. Por um instante, ela pensou ter visto olhos brilhantes, um par de orbes vermelhos que a fitavam com uma intensidade aterradora. Mas em um piscar de olhos, a figura desapareceu, engolida pela escuridão.
Um grito sufocado escapou de seus lábios. Ela recuou da janela, o corpo colado à parede fria. O coração batia descompassado contra as costelas, como um pássaro aprisionado. Elias. Ele sabia. Ele a havia avisado. O que era aquilo? Uma alucinação? Um animal selvagem? Ou… o que ele chamara de "a Matinta"?
Ela se lembrou das palavras dele, ditas com uma gravidade sombria: "Há coisas que a gente não vê, menina, mas que sente. O sopro da Matinta é um aviso. Ela vem para quem perturba o silêncio dos antigos."
O silêncio dos antigos. Ela estava perturbando? A casa, a terra, tudo aquilo era dela agora. A sensação de invasão, de ser uma intrusa em sua própria vida, era palpável. Ela não sabia nada sobre essa terra, sobre suas histórias.
Um novo ruído. Desta vez, mais próximo. Um bater suave na porta dos fundos. Clara congelou. Quem estaria ali a essa hora da noite? Elias? Ela esperava por ele, mas a ideia de abrir a porta para qualquer um naquele estado de pânico a aterrorizava.
Os batidos se repetiram, mais insistentes. Clara respirou fundo, tentando controlar o medo. Caminhou lentamente em direção à porta, os passos ecoando no silêncio opressor. Chegou à porta e hesitou. Podia ouvir a respiração acelerada no lado de fora, um sopro quente e úmido que parecia atravessar a madeira.
"Quem está aí?", chamou, a voz trêmula.
Um murmúrio respondeu, ininteligível, um som gutural que não parecia humano. Clara sentiu o pavor subir pela espinha. Ela recuou, as mãos buscando algo para se defender. Encontrou um atiçador de lareira, o metal frio e pesado em suas mãos.
"Vão embora!", gritou, a voz um pouco mais firme.
Os batidos cessaram abruptamente. Um silêncio ainda mais denso tomou conta da noite. Clara ficou ali, encostada na porta, o atiçador em punho, o corpo tenso, esperando. O ar parecia pesado, carregado de expectativas. Ela sentiu um arrepio que não era de frio. Era a sensação de que algo a havia tocado, um sopro gélido que a fez fechar os olhos com força.
Quando os abriu, nada havia mudado. A porta estava fechada, a noite continuava escura. Mas a sensação de perigo latente permanecia. Ela sabia que aquela noite havia sido apenas o começo. A Matinta, quer fosse um espírito, uma lenda, ou algo ainda mais inexplicável, havia lhe mostrado que não estava sozinha em Altamira. E que sua presença ali era sentida, e talvez, não bem-vinda.
Ela passou o resto da noite sentada na poltrona, o atiçador ao lado, os olhos fixos na escuridão, ouvindo cada som, cada sussurro do vento, cada batida de seu próprio coração assustado. A casa de sua avó, que deveria ser um refúgio, agora parecia uma armadilha. O legado de Dona Cotinha trazia consigo não apenas a terra e a fortuna, mas também um fardo sombrio, um sopro de mistério que pairava sobre sua vida.
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