Cap. 13 / 21

O Sopro da Matinta

Capítulo 13 — O Chamado na Floresta Sombria

por Stella Freitas

Capítulo 13 — O Chamado na Floresta Sombria

Os dias em Altamira se desdobravam em uma rotina incomum para Clara. O trabalho na fazenda era árduo, mas ela o encarava com uma determinação renovada. Cada tarefa, cada contato com a terra, parecia conectá-la mais a este lugar estranho e ao legado de sua avó. As noites, no entanto, ainda eram um desafio. O medo da Matinta, embora menos paralisante, ainda se manifestava em sussurros do vento, em sombras que pareciam se alongar mais do que o normal.

Ela conversava frequentemente com Elias, buscando respostas e orientação. O velho trabalhador se tornara uma figura paternal, um guardião das tradições e dos segredos de Altamira. Ele lhe contava mais sobre Dona Cotinha, sobre sua força, sua sabedoria e sua profunda ligação com os mistérios da região.

"Sua avó tinha um dom, Clara", disse Elias um dia, enquanto eles trabalhavam no campo. "Ela via o que os outros não viam. Ouvia o que os outros não ouviam. E respeitava. Esse é o segredo. Respeitar as forças que nos cercam."

"Mas a Matinta… ela parece tão assustadora", respondeu Clara, com a voz embargada.

"Toda força primordial pode ser assustadora para quem não a compreende. O fogo queima, a água afoga. Mas são essenciais. A Matinta é a guardiã. Ela não quer fazer mal, ela quer que você entenda seu lugar. Que respeite o equilíbrio."

Naquela tarde, enquanto Clara inspecionava um dos limites da propriedade, ela ouviu um som. Um som diferente dos murmúrios habituais da floresta. Era um canto. Um canto melancólico e hipnotizante, que parecia vir das profundezas da mata. A melodia era estranha, ancestral, e despertava nela uma mistura de fascínio e apreensão.

Ela parou, o corpo imóvel, tentando identificar a origem do som. Parecia vir de uma área mais densa da floresta, um lugar que Elias a advertira para evitar. A curiosidade, no entanto, era mais forte que o medo. Impulsionada por uma força que ela não entendia, Clara começou a caminhar na direção do canto.

À medida que se aprofundava na mata, a luz do sol diminuía, filtrada por uma copa tão densa que criava um crepúsculo perene. O ar ficou mais úmido, o cheiro de terra e folhas em decomposição mais intenso. Os sons da floresta pareciam mais distantes, abafados pelo canto que se tornava mais claro, mais envolvente.

O canto não era cantado por uma voz humana. Era algo mais etéreo, mais puro, com uma qualidade que parecia ecoar a própria alma da floresta. Clara sentiu uma tontura leve, como se estivesse sendo atraída por uma força invisível.

De repente, ela chegou a uma clareira. No centro, um tronco de árvore antigo, retorcido e coberto de musgo, parecia exalar uma aura peculiar. E ali, sentada sobre o tronco, com os olhos fechados, estava uma figura. Parecia uma mulher, mas sua pele tinha um tom levemente esverdeado, seus cabelos longos e negros pareciam emaranhados com cipós e flores silvestres. Ela usava um vestido feito de folhas e musgo, e seus pés não tocavam o chão.

Era uma criatura de beleza selvagem e assustadora. E era dela que emanava o canto hipnotizante.

Clara ficou paralisada, sem saber o que fazer. A criatura abriu os olhos. Eram grandes, profundos, da cor de esmeraldas. Ela olhou diretamente para Clara, e um sorriso sutil curvou seus lábios.

"Você veio", disse a criatura, sua voz melodiosa como o canto que Clara ouvira. "Eu sabia que viria."

"Quem… quem é você?", gaguejou Clara, a voz mal saindo.

"Eu sou a guardiã deste lugar. Um dos muitos espíritos que habitam esta mata. Chamam-me de Iara. Ou de Mãe D'água, dependendo da lenda."

Clara sentiu um arrepio. Elias falara das lendas do rio, dos encantados. Era isso?

"Eu… eu ouvi seu canto", disse Clara.

"Ele a chamou, não foi? A energia desta terra é forte, Clara. E o seu sangue, o sangue de Dona Cotinha, responde a ela. Você carrega a marca da linhagem, a conexão que sua avó tinha."

"Minha avó… ela conhecia você?", perguntou Clara, a esperança florescendo em seu peito.

"Conhecia. E a respeitava. Ela vinha aqui para pedir conselhos, para pedir proteção. Ela entendia o sopro. E sabia como acalmar os espíritos. Você também pode, Clara."

"Mas eu não sei como! Eu tenho medo. A Matinta… ela tem me assustado."

Iara riu suavemente, um som que parecia o murmúrio de um riacho. "A Matinta é apenas um alerta. Ela sente que algo novo está chegando, que um ciclo está mudando. Ela quer ver se você está pronta. Se você tem a força para carregar este legado."

"Legado? Que legado?", perguntou Clara, ansiosa.

"O legado de proteger esta terra. De manter o equilíbrio. Sua avó era a guardiã. E agora, o fardo recai sobre você. Mas você não está sozinha."

Iara estendeu uma mão esguia em direção a Clara. Da ponta de seus dedos, brotou uma luz suave e verde, que dançou no ar.

"Eu posso te ensinar, Clara. Posso te mostrar os caminhos. Mas você precisa se abrir. Precisa acreditar. Precisa enfrentar seus medos."

Clara olhou para a mão de Iara, para a luz que emanava dela. Era um convite, uma promessa. A imagem de sua avó sorrindo, guiando-a, voltou à sua mente. O medo ainda estava ali, mas agora havia algo mais: uma centelha de coragem, uma vontade de entender, de se conectar com o que ela era.

"Eu quero aprender", disse Clara, sua voz firme, surpreendendo a si mesma. "Eu quero entender."

Iara sorriu, um sorriso que iluminou a clareira. "Então venha, Clara. A floresta tem muito a lhe ensinar. E o rio, também. Mas lembre-se, o conhecimento tem um preço. E a proteção, um sacrifício."

O canto de Iara recomeçou, mas desta vez, não era melancólico. Era um canto de força, de resiliência, de sabedoria ancestral. Clara sentiu a energia da floresta a envolver, o sopro da Matinta se dissipando, substituído por uma sensação de pertencimento. Ela sabia que a partir daquele momento, sua vida em Altamira seria marcada por um caminho de descobertas, de magia e de responsabilidades que ela estava apenas começando a compreender. O chamado na floresta sombria a havia encontrado, e ela estava respondendo.

---

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%