O Sopro da Matinta
Capítulo 15 — O Reflexo na Água Negra
por Stella Freitas
Capítulo 15 — O Reflexo na Água Negra
A revelação contida no diário de sua mãe lançou uma nova luz sobre o passado de Clara e sobre a turbulência que a levou a deixar Altamira anos atrás. A busca de seu pai por fortuna, a desaprovação de sua mãe em relação a seus métodos, e a consequente tensão que pairava sobre a casa, tudo isso se encaixava como peças de um quebra-cabeça doloroso. A herança da fazenda, que antes parecia uma benção inesperada, agora se apresentava como um chamado para confrontar não apenas os mistérios sobrenaturais de Altamira, mas também as sombras de sua própria família.
Clara sentia-se dividida entre a gratidão pela força que descobria dentro de si e o peso da responsabilidade que esse novo entendimento trazia. Iara a orientava com sabedoria, ensinando-lhe sobre a importância do equilíbrio, sobre como canalizar a energia da terra e como usar os dons que ela herdara de sua avó. Elias, com sua sabedoria terrena, a ajudava a manter os pés no chão, a entender a linguagem dos animais, o ciclo das colheitas e a força silenciosa que reside na perseverança.
Uma tarde, enquanto Clara cuidava de um pequeno pomar nos fundos da propriedade, ela sentiu um chamado diferente. Não era o canto hipnótico de Iara, nem o sussurro ameaçador da Matinta. Era um chamado mais sutil, vindo das profundezas do rio.
Ela caminhou até a margem, a água escura refletindo o céu nublado. A sensação era de urgência, de algo que precisava ser visto, compreendido. Elias a encontrara ali, observando a correnteza com uma expressão de profunda concentração.
"O rio chama, Elias", disse Clara, sua voz baixa e reflexiva.
Elias assentiu, seus olhos experientes acompanhando o fluxo da água. "Ele sempre chama aqueles que têm o sangue de Altamira nas veias. Sua avó ouvia o rio como se fosse uma pessoa. Ele conta histórias, menina. Histórias que o tempo não apaga."
Motivada por uma intuição poderosa, Clara decidiu que precisava mergulhar nesse chamado. Ela se lembrou de uma velha canoa de madeira, enferrujada e esquecida no galpão de equipamentos. Com a ajuda de Elias, ela a limpou e remou para o meio do rio, afastando-se da margem.
A canoa deslizava suavemente sobre a água, que parecia mais densa, mais escura, à medida que ela se afastava. O silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelo suave chapinhar da água contra o casco da canoa. As árvores projetavam sombras longas e distorcidas na superfície, criando um cenário quase místico.
De repente, a canoa parou. Não por um obstáculo físico, mas como se uma força invisível a detivesse. Clara olhou ao redor, confusa. A água à sua frente parecia se agitar, formando um redemoinho sutil.
E então, ela viu. No fundo do rio, a água escura começou a clarear, revelando algo que parecia estar semi-submerso. Era uma estrutura antiga, de pedra escura, coberta de algas e musgo. E em seu centro, havia algo que brilhava com uma luz fraca e pulsante.
Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era um artefato antigo, imerso nas águas escuras, guardando um segredo. A luz pulsante parecia chamá-la, convidando-a a desvendar seu mistério.
Ela se ajoelhou na canoa, estendendo a mão em direção à água. A sensação era de uma energia poderosa, antiga, que emanava do objeto submerso. Ela sentiu a presença de sua avó, uma energia reconfortante, que a impulsionava a ir adiante.
"É uma pedra dos encantados, Clara", disse Elias, sua voz vindo da margem, embora ele estivesse a uma boa distância. "Dizem que ela guarda o poder da terra e do rio. Sua avó a protegia. E falava com ela."
Clara mergulhou a mão na água fria, aproximando-se do brilho. A água parecia resistir, como se tentasse afastá-la. Mas Clara persistiu, a conexão com sua avó e com a terra a impulsionando.
Finalmente, seus dedos tocaram a superfície lisa e fria da pedra. No instante em que ela a tocou, uma onda de energia a percorreu. Imagens e sensações inundaram sua mente: a força da terra em erupção, a correnteza poderosa do rio, o murmúrio de vozes antigas, e a sabedoria de sua avó, ensinando-a a canalizar essa energia.
Ela viu, em flashes vívidos, seu pai negociando com figuras sombrias na beira do rio, vendendo algo que lhe era sagrado em troca de prosperidade terrena. Viu sua mãe tentando impedi-lo, sua angústia estampada no rosto. E viu Dona Cotinha, sua avó, realizando um ritual à beira do rio, cercando a pedra com uma barreira de proteção, tentando salvaguardar o legado da família e da terra.
A pedra parecia vibrar em sua mão, como se estivesse reagindo à sua presença, ao seu sangue. Clara compreendeu. Seu pai havia tentado corromper o poder da terra, buscando ganhos egoístas, e isso havia perturbado o equilíbrio, atraindo a atenção da Matinta e das sombras. Sua avó havia lutado para proteger esse poder, e agora, o dever recaía sobre ela.
Com a mão ainda sobre a pedra, Clara sentiu uma força ancestral fluir através dela. Era a força da terra, do rio, de seus antepassados. Ela fechou os olhos, concentrando-se. O canto que Iara lhe ensinara ecoou em sua mente. Ela começou a entoá-lo, sua voz ganhando força, misturando-se ao murmúrio do rio.
A luz pulsante da pedra se intensificou, e a água ao redor dela começou a se agitar violentamente. Clara sentiu a energia se concentrar em suas mãos, fluindo para a pedra, reforçando a barreira protetora que sua avó havia criado. As sombras que antes pairavam sobre a terra pareciam recuar, como se repelidas pela força renovada.
Quando a luz diminuiu e a água se acalmou, Clara retirou a mão. A pedra no fundo do rio ainda brilhava, mas com uma luz mais estável, mais serena. Ela sentiu que havia cumprido uma parte de seu destino, que havia honrado a memória de sua avó e protegido o legado da família.
Remando de volta para a margem, Clara sentiu uma profunda paz. O peso de seu passado não havia desaparecido, mas agora ela sabia como lidar com ele. Ela havia encontrado a força em si mesma, no sangue que corria em suas veias e na sabedoria ancestral que a cercava. Altamira, com seus mistérios e seus perigos, não era mais um lugar de medo, mas um lugar de pertencimento. E o sopro da Matinta, agora, era apenas um lembrete da necessidade de manter o equilíbrio, de respeitar os segredos da terra e de honrar o legado de sua avó. O reflexo na água negra não era mais de uma estranha, mas de uma guardiã.