O Sopro da Matinta
O Sopro da Matinta
por Stella Freitas
O Sopro da Matinta
Capítulo 16 — A Revelação no Olho da Tempestade
A fúria do temporal não era apenas do céu. Em Lara, a tempestade era interna, um vendaval de emoções que ameaçava destruir tudo em seu caminho. Sentada à beira do leito de Márcio, cujo corpo repousava inerte, pálido sob a luz fraca da vela, ela sentia a força vital dele esvair-se como areia entre os dedos. As palavras sussurradas pela velha curandeira, Dona Zélia, ecoavam em sua mente como trovões: "A Matinta te escolheu, menina. E para te proteger, ela precisa que você se torne o que ela é."
Aquela premonição, tão enigmática quanto assustadora, pairava sobre Lara como as nuvens carregadas que cobriam o céu lá fora. O que significava ser "o que ela é"? Uma guardiã? Uma entidade sombria? Uma força da natureza? A floresta, antes um refúgio, tornara-se um labirinto de mistérios, e Márcio, o amor de sua vida, o epicentro de um perigo que ela ainda não compreendia completamente.
O som de passos apressados na varanda a fez erguer a cabeça. Era Tiago, o olhar preocupado espelhando o seu. Ele trazia um pequeno embrulho de pano.
"Lara, você precisa descansar", disse ele, a voz rouca pela preocupação e pelo frio que emanava da noite. "Dona Zélia mandou isso. Um chá para acalmar os nervos. E disse que o estado de Márcio é… delicado."
Lara aceitou o chá com mãos trêmulas, o vapor quente beijando seu rosto. "Delicado? Tiago, ele está morrendo. E eu sinto que sou a única que pode fazer algo, mas não sei o quê."
Tiago sentou-se ao lado dela, um braço protetor envolvendo seus ombros. "Nós vamos descobrir. Juntos. Você não está sozinha nisso." Ele a apertou mais forte, como se quisesse transferir sua força para ela. "Essa floresta guarda segredos antigos, Lara. E o que aconteceu com Márcio, tem a ver com eles. Com a Matinta."
A menção do nome trouxe um arrepio gélido pela espinha de Lara. Ela se lembrava dos olhos fixos de Dona Zélia, da convicção em sua voz. "Ela disse que eu preciso me tornar o que ela é. O que isso quer dizer, Tiago? Ela quer que eu vire… uma bruxa? Uma criatura da noite?" A pergunta saiu num sussurro quase inaudível, misturado ao uivo do vento.
Tiago olhou-a nos olhos, a seriedade em seu semblante assustando-a ainda mais. "Dona Zélia fala em metáforas, Lara. Ela quer dizer que você precisa despertar uma força dentro de si. Uma força que a floresta te oferece. Uma força que a Matinta representa." Ele hesitou, buscando as palavras certas. "Às vezes, para combater o mal, é preciso abraçar uma parte dele. Para entender, é preciso sentir. A Matinta é uma guardiã, Lara. Uma força ancestral que protege este lugar. Talvez ela veja em você uma nova guardiã."
Lara sentiu uma onda de desespero. Abraçar o mal? Tornar-se algo que ela temia desde criança? "Mas eu não quero isso, Tiago! Eu só quero o Márcio de volta, saudável, como antes. Eu não quero ser um monstro!" Lágrimas quentes rolaram por seu rosto, misturando-se ao chá que ela ainda segurava.
"Você não é um monstro, Lara. E não vai se tornar um", disse Tiago com firmeza, levantando seu queixo para que ela o olhasse. "A Matinta não é só escuridão. Ela é poder, é sabedoria, é a própria essência da floresta. Ela é a vingança contra quem a desrespeita, mas também é a protetora dos inocentes. Você vai aprender a controlar essa força, a usá-la para o bem. Para salvar Márcio."
A chuva batia com força na vidraça, cada gota um lembrete da urgência da situação. A noite parecia não ter fim, e o destino de Márcio, e talvez de Lara, estava em jogo. De repente, um brilho tênue surgiu nos olhos de Márcio. Um movimento sutil de seus dedos.
"Márcio!", Lara exclamou, quase caindo do banco.
Tiago se aproximou, o coração disparado. "Ele está voltando?"
Um suspiro fraco escapou dos lábios de Márcio. Seus olhos se abriram um pouco, focando Lara com dificuldade. "Lara…", a voz era um fio, quase inaudível. "A… a floresta… ela me chamou…"
Ele tossiu, um som seco e doloroso. Lara segurou sua mão com mais força, sentindo o leve tremor que percorria o corpo dele. "Não fale, Márcio. Descanse. Estamos aqui com você."
"A Matinta…", ele murmurou, os olhos começando a se fechar novamente. "Ela… ela protege… mas cobra…"
O corpo de Márcio relaxou, a respiração tornando-se mais superficial. Um silêncio pesado pairou no quarto, interrompido apenas pelo rugido do vento. Lara olhou para Tiago, o desespero voltando com força total.
"Cobrar o quê, Tiago? O que ele quis dizer com 'cobra'?", perguntou ela, a voz embargada.
Tiago olhou para Márcio, a testa franzida em profunda concentração. Ele se lembrou das lendas, das histórias que sua avó contava sobre pactos antigos com as forças da natureza, sobre o equilíbrio que a Matinta mantinha. "A Matinta não dá nada de graça, Lara. Ela protege, mas exige algo em troca. Um dever. Um sacrifício. A energia que ela canaliza para proteger alguém, ela retira de outra fonte. Talvez Márcio tenha se colocado em perigo ao tentar desvendar algo que não devia, e a Matinta o salvou, mas agora ele lhe deve algo."
Lara sentiu um calafrio. "E o que eu tenho a ver com isso? Por que ela me escolheu?"
"Porque você é a conexão dele, Lara. O amor de vocês é um laço forte. A energia que nutre a vida dele, a força que o mantém aqui… está ligada a você. E a Matinta, ao sentir esse laço, pode ter visto em você a pessoa capaz de honrar o que Márcio deve."
A tempestade lá fora atingiu seu ápice. Um raio iluminou o quarto, projetando sombras fantasmagóricas nas paredes. Lara olhou para o rosto sereno, porém frágil de Márcio, e um sentimento de determinação, tão forte quanto o medo, a invadiu. Ela não seria mais uma vítima do destino. Ela lutaria. Por Márcio. Por ela. Por essa floresta que agora parecia abraçá-la com suas garras sombrias.
"Eu vou aceitar, Tiago", disse Lara, a voz firme, ecoando na quietude do quarto. "Eu vou aprender o que a Matinta quer. Eu vou me tornar o que ela precisa que eu me torne. Eu não vou deixar Márcio morrer." A tempestade em seu coração começava a encontrar uma nova direção, uma fúria contida, pronta para explodir. Ela sentia, em algum lugar nas profundezas de sua alma, o sopro gélido e poderoso da Matinta, chamando-a para um destino que ela estava começando a aceitar.