Cap. 17 / 21

O Sopro da Matinta

Capítulo 17 — O Sussurro das Raízes Ancestrais

por Stella Freitas

Capítulo 17 — O Sussurro das Raízes Ancestrais

O sol da manhã, tímido após a tempestade noturna, lançava feixes de luz através das folhas molhadas da floresta. O ar estava carregado com o aroma de terra úmida e folhas em decomposição, um perfume selvagem que agora parecia estranhamente reconfortante para Lara. Márcio ainda dormia, sua respiração mais regular, mas a palidez persistia, um lembrete constante do perigo que os espreitava. Lara, por outro lado, mal havia fechado os olhos. A noite fora uma vigília de angústia, mas também de uma estranha clareza. A decisão estava tomada.

Ela se levantou da cadeira improvisada ao lado da cama de Márcio e caminhou até a janela. O céu estava límpido, o azul profundo contrastando com o verde intenso da mata. A floresta parecia ter renascido com a chuva, vibrante e cheia de vida. Mas Lara sabia que, por baixo dessa beleza aparente, residiam forças antigas e poderosas, e ela precisava compreendê-las.

Tiago a encontrou na cozinha, preparando um café forte. Seus olhos estavam vermelhos, marcados pela falta de sono, mas sua postura era resoluta.

"Você está bem?", perguntou Tiago, a preocupação ainda presente em seu tom.

Lara o encarou, um brilho diferente em seus olhos. "Eu estou decidida, Tiago. Eu preciso ir falar com Dona Zélia. Agora."

Tiago assentiu, sem surpresa. Ele sabia que Lara não recuaria. "Eu vou com você."

Enquanto caminhavam pela trilha sinuosa que levava à pequena cabana de Dona Zélia, Lara sentia a floresta a observar. Cada farfalhar de folhas, cada canto de pássaro, parecia carregar uma mensagem. Ela se concentrava, tentando captar as nuances, os sussurros que antes lhe passavam despercebidos. Era como se um véu tivesse sido retirado de seus sentidos, permitindo-lhe perceber uma dimensão oculta da natureza.

Chegaram à cabana de Dona Zélia. O cheiro de ervas secas e incenso pairava no ar. A velha curandeira estava sentada em sua rede, os olhos penetrantes fixos em Lara.

"Eu sabia que você viria", disse ela, a voz grave, mas acolhedora. "O chamado da Matinta ressoa forte em você, menina."

Lara sentou-se em um banquinho de madeira rústica. "Dona Zélia, eu preciso entender. O que a Matinta quer de mim? Por que Márcio… por que ele está assim?"

Dona Zélia sorriu, um sorriso enigmático que não alcançava seus olhos. "O que a Matinta quer… ela quer equilíbrio, Lara. Ela é a guardiã dos segredos ancestrais desta terra. Ela protege a vida, mas também exige respeito. Márcio, em sua ânsia por conhecimento, talvez tenha perturbado um lugar sagrado, desrespeitado um pacto antigo. A Matinta o salvou, pois viu nele uma centelha de inocência, uma boa intenção. Mas toda dádiva tem um preço."

"E qual é o preço?", perguntou Lara, a voz firme.

"Sua força, Lara. Sua energia vital. A Matinta se alimenta da essência daqueles que ela protege. E para que Márcio se recupere completamente, ele precisará ceder parte de sua força para ela, em troca da cura. Mas essa força… ela precisa ser canalizada. E você, Lara, é a ponte."

Lara engoliu em seco. "Eu? Como eu posso ser a ponte?"

"Você precisa se conectar com a Matinta, Lara. Precisa sentir a floresta, entender seus ritmos, suas necessidades. A Matinta não é um ser de maldade, mas uma força primordial. Ela exige devoção, compreensão. Ela te escolheu porque seu amor por Márcio é puro e forte. É essa força que ela utilizará para restaurá-lo. Mas você terá que aprender a oferecer o que ela precisa, sem se perder."

Tiago interveio: "E como ela aprende isso, Dona Zélia?"

"A floresta é o templo dela, Tiago. E as raízes ancestrais guardam a sabedoria. Lara, você precisa ir mais fundo. Não apenas observar, mas sentir. Sinta a pulsação da terra sob seus pés. Ouça o sussurro das árvores. A Matinta se manifesta nas sombras, nos ventos, na água que corre. Ela te guiará se você se permitir."

Dona Zélia se levantou e pegou um pequeno amuleto de sementes e penas. "Isso te ajudará a sintonizar seus sentidos. Leve-o consigo. Quando sentir o chamado, não hesite. Vá para o coração da floresta. A Matinta te mostrará o caminho."

Lara pegou o amuleto, sentindo um leve calor irradiar dele. "Obrigada, Dona Zélia. Eu farei o que for preciso."

Ao saírem da cabana, o sol já estava alto. O dia estava quente, mas Lara sentia um frio peculiar percorrer sua espinha. Ela olhou para Tiago.

"Eu preciso ir agora, Tiago. Para a floresta. Sinto que é o momento."

Tiago segurou sua mão. "Eu vou com você."

"Não", disse Lara, com a voz suave, mas decidida. "Dona Zélia disse que a Matinta me guiará. Eu preciso fazer isso sozinha. Você precisa ficar com Márcio. Cuidar dele."

Tiago hesitou, a relutância evidente em seus olhos. Mas ele conhecia Lara o suficiente para saber que, quando ela tomava uma decisão, era impossível fazê-la mudar de ideia. "Tudo bem. Mas prometa que voltará. E que terá cuidado."

"Eu prometo", disse Lara, apertando a mão dele. "E eu vou voltar. Com a força que Márcio precisa."

Ela se virou e adentrou a floresta, o amuleto apertado na palma da mão. A cada passo, a densidade da mata aumentava, as sombras se adensavam. Ela fechou os olhos, respirando fundo, concentrando-se no amuleto, no sussurro das folhas, no murmúrio da terra. Ela sentiu uma energia sutil começar a vibrar ao seu redor, um chamado silencioso que a atraía para o interior, para o âmago daquele reino verde. Era o sopro da Matinta, um convite para um mundo de mistérios, onde o amor e o perigo se entrelaçavam como cipós na escuridão.

Lara caminhou por horas, guiada por uma intuição crescente, uma força invisível que a puxava. A floresta parecia se transformar ao seu redor. As árvores se tornavam mais antigas, suas copas imponentes e sombrias. O silêncio era profundo, quebrado apenas pelo som de seus próprios passos e pela batida acelerada de seu coração. Ela sentia a presença da Matinta cada vez mais forte, uma energia que a envolvia, mas não a sufocava. Era como se a floresta estivesse viva, respirando com ela.

Chegou a uma clareira, onde um antigo tronco retorcido se erguia em meio a raízes expostas que pareciam serpentes adormecidas. Um riacho de água cristalina corria suavemente por ali. A luz do sol, filtrada pelas copas das árvores, criava um jogo de sombras dançantes no chão. Era um lugar de beleza serena, mas com uma aura palpável de poder ancestral. Lara sabia que estava no lugar certo.

Ela se ajoelhou ao lado do riacho, mergulhando as mãos na água fria. Fechou os olhos e concentrou-se na sensação. Podia sentir a vida pulsando na água, nas pedras, na terra. E então, veio. Um sussurro. Não era um som que seus ouvidos podiam ouvir, mas sim uma vibração que ressoava em sua alma.

"Você busca poder, menina", a voz era antiga, profunda, como o murmúrio de raízes milenares. "Você busca salvar o seu amado. Mas o poder exige responsabilidade. A vida exige sacrifício."

Lara sentiu um arrepio. A voz era inconfundível. Era a Matinta.

"Eu estou disposta a fazer o que for preciso", respondeu Lara, sua voz ecoando na quietude. "Eu aceito o seu chamado. Eu quero salvar Márcio."

"O amor é uma força poderosa", a voz continuou. "Mas ele também pode ser uma fraqueza. A Matinta não se compadece. Ela age. Para curar Márcio, você precisará lhe oferecer algo. Uma parte de sua energia. Uma conexão. Você precisará se doar."

"E o que eu receberei em troca?", perguntou Lara, o coração apertado.

"Força para curá-lo. Sabedoria para protegê-lo. E a promessa de que a vida que você restaura, a Matinta não esquecerá. Você se tornará uma guardiã, Lara. Uma extensão da minha vontade, para proteger este lugar e aqueles que nele vivem com respeito."

A ideia de se tornar uma guardiã, uma extensão da Matinta, era assustadora, mas também tentadora. Ela sentia o poder da floresta fluindo através dela, uma energia crua e indomável. A promessa de salvar Márcio era a âncora que a mantinha firme.

"Eu aceito", disse Lara, com firmeza. "Eu me conecto a você. Eu me torno o que você precisa que eu me torne."

Uma luz dourada e etérea emanou das raízes ao redor, envolvendo Lara. Ela sentiu uma corrente de energia percorrer todo o seu corpo, uma sensação intensa e avassaladora, mas não dolorosa. Era como se cada célula de seu ser estivesse sendo reescrita, infundida com a força ancestral da floresta. Seus sentidos se aguçaram de forma inimaginável. Podia sentir o cheiro das flores a quilômetros de distância, ouvir o bater das asas de um inseto na copa de uma árvore.

Quando a luz diminuiu, Lara sentiu uma mudança profunda dentro de si. Não era mais apenas Lara. Era Lara e a floresta. Uma fusão de forças. Ela olhou para suas mãos, que agora pareciam irradiar uma leve luminescência. O medo ainda estava presente, mas agora era acompanhado por uma determinação férrea e uma confiança recém-descoberta. Ela sabia que o caminho seria árduo, mas estava pronta. A Matinta havia sussurrado, e Lara havia respondido. O pacto estava selado.

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