Cap. 19 / 21

O Sopro da Matinta

Capítulo 19 — Os Fragmentos do Passado

por Stella Freitas

Capítulo 19 — Os Fragmentos do Passado

A noite que se seguiu à intervenção de Lara na vila foi marcada por um silêncio estranho, quase reverente. A floresta parecia ter recuperado sua paz, e os habitantes, ainda abalados, sentiam um alívio palpável. Márcio, agora mais estável, mas ainda fraco, dormia profundamente. Lara, exausta, mas com a mente vigilante, sentava-se ao lado dele, sentindo a energia da Matinta fluir sutilmente entre eles, nutrindo a cura dele.

Tiago, que permaneceu ao lado de Márcio, observava Lara com um olhar que misturava admiração e uma ponta de preocupação. "Você foi incrível hoje, Lara. Salvou a todos. Mas… você parece tão… diferente. Como se não fosse mais apenas você."

Lara sorriu fracamente, acariciando a mão de Márcio. "Eu não sou apenas eu, Tiago. Eu sou também a floresta. A Matinta me deu sua força. Mas ela também me deu uma responsabilidade. E eu sinto que ainda há muito a ser desvendado sobre o que aconteceu com Márcio."

Na manhã seguinte, Márcio acordou. Seus olhos se abriram lentamente, encontrando os de Lara. Havia confusão, mas também um brilho de reconhecimento.

"Lara…", sua voz era rouca, mas mais forte do que nos dias anteriores. "O que… o que aconteceu?"

"Você está se recuperando, Márcio", disse Lara, emocionada, apertando sua mão. "Você esteve muito mal, mas agora está melhor. A Matinta me ajudou."

Márcio tentou se sentar, apoiado por Tiago. A lembrança do que o levou àquela condição parecia retornar em fragmentos. "A floresta… eu me perdi. Tentei encontrar… aquele lugar. A cachoeira escura."

Lara e Tiago se entreolharam. A cachoeira escura. Era ali que Márcio havia se aventurado, o local proibido das lendas.

"Por que você foi até lá, Márcio?", perguntou Lara, a voz suave.

Márcio fechou os olhos, buscando as palavras. "Eu… eu ouvi um chamado. Uma melodia… que me atraía. Eu precisava saber o que era. Eu senti que estava ligado a mim." Ele olhou para Lara, a intensidade retornando aos seus olhos. "E eu vi você lá, Lara. No reflexo da água. Mas você parecia… diferente. Mais antiga. E então… tudo ficou escuro."

Lara sentiu um arrepio. O reflexo na água negra. Ela já havia visto aquilo. A imagem de si mesma, mais velha, com um olhar enigmático. Era a Matinta, mostrando-lhe seu futuro, seu destino.

"Márcio", disse Lara, com cautela. "O que você viu na água… não era eu. Era… um reflexo do meu futuro. O que a Matinta me mostrou."

Márcio a olhou, a confusão se misturando com uma crescente compreensão. "O meu chamado… a melodia… era você? Ou a Matinta?"

"Eu não sei, Márcio. Talvez fosse a Matinta, te testando. Ou te chamando. Ela me escolheu para ser uma guardiã. Para proteger este lugar." Lara respirou fundo. "E você foi pego no meio disso tudo."

Tiago, que observava a conversa com atenção, interveio. "Lara, se a Matinta te escolheu, talvez ela saiba mais sobre o que aconteceu com você, Márcio. Talvez ela possa te dar as respostas que você busca."

Márcio assentiu, a esperança acendendo em seus olhos. "Eu preciso saber, Lara. Eu sinto que essa melodia, essa busca… é uma parte de mim que eu não conhecia."

Lara sabia o que precisava ser feito. A conexão com a Matinta era forte agora. Ela sentia o pulso da floresta, e sabia que poderia se comunicar com a entidade novamente. Ela não poderia levar Márcio até a cachoeira escura ainda, pois ele estava fraco. Mas talvez pudesse chamá-la.

Naquela noite, sob o céu estrelado, Lara e Tiago levaram Márcio para a clareira onde ela havia feito o pacto. Ele estava apoiado em Tiago, mas seus olhos brilhavam com determinação. Lara se ajoelhou, sentindo a terra sob seus pés. Fechou os olhos e concentrou-se.

"Matinta!", chamou, sua voz ecoando suavemente na noite. "Eu te chamo novamente. Precisamos de respostas. Márcio precisa entender o que o atraiu até você."

O vento começou a soprar, mais forte do que antes. As árvores pareciam se curvar em reverência. Uma luz etérea, a mesma que a envolveu no pacto, começou a emanar do solo, formando um círculo ao redor deles.

"Você busca conhecimento, Lara", a voz da Matinta ressoou, profunda e antiga. "Você busca a verdade. E a verdade está nas raízes do tempo."

A luz se intensificou, e no centro do círculo, imagens começaram a se formar. Eram fragmentos do passado, cenas que pareciam vir de um sonho. Lara viu a si mesma, mais jovem, brincando na floresta com um menino que ela não reconhecia. Ele tinha cabelos escuros e olhos penetrantes. Eles riam, exploravam, e pareciam ter uma conexão especial com a natureza.

Márcio olhava para as imagens com espanto. "Quem é esse menino?", perguntou, a voz embargada.

"Ele é parte da sua história, Márcio", respondeu a Matinta. "Uma história esquecida, que a floresta guarda. Ele era um guardião, como você será. Ele tinha o dom de ouvir os sussurros da terra."

As imagens mudaram. Agora, Lara via uma figura sombria, um homem com o rosto obscurecido, confrontando o menino. Havia uma luta, um grito de dor, e então, o menino desaparecia, levado pela escuridão. Lara sentiu uma pontada de dor no peito, como se estivesse revivendo aquele momento.

"O que aconteceu com ele?", perguntou Lara, a voz trêmula.

"Ele foi corrompido", disse a Matinta. "A escuridão o atraiu, seduziu sua alma. Ele se perdeu. E a floresta chorou sua perda."

Uma nova imagem surgiu: a mesma cachoeira escura que Márcio visitou. Mas desta vez, ele não estava sozinho. Ele estava sendo guiado por alguém, uma figura sombria que sussurrava em seu ouvido. E então, Lara viu o rosto do homem que o guiava. Um rosto frio, calculista, que ela reconheceu de um pesadelo distante.

"É ele", sussurrou Lara. "O homem que me assombrava. O homem que perturbou a paz da floresta."

Márcio olhou para a imagem, o horror crescendo em seus olhos. "Ele… ele me usou. A melodia que eu ouvi… era um eco dele. Um chamado para me atrair."

"A escuridão sempre busca novas almas para corromper", disse a Matinta. "Ela viu em você, Márcio, uma centelha de luz, uma conexão com os antigos guardiões. Ela tentou te desviar do caminho. Mas o seu amor por Lara, e a conexão dela com a floresta, a protegeram."

Lara sentiu uma raiva fria percorrer seu corpo. O homem que a assombrava, que roubou a paz de sua família, estava agora manipulando Márcio. Ela não permitiria.

"Eu não vou deixar ele vencer", disse Lara, a voz firme. "Eu sou a guardiã agora. E eu vou proteger a todos nós."

A luz etérea começou a diminuir, as imagens do passado se desfazendo. O vento amainou, e a calma retornou à clareira. Márcio respirou fundo, a compreensão em seus olhos agora mais clara.

"Então é por isso", murmurou ele. "Eu não era apenas um invasor. Eu era um eco de alguém que se perdeu. E você, Lara… você é a luz que pode me guiar de volta."

Lara o abraçou, sentindo a fragilidade em seus braços, mas também a força que começava a ressurgir. "Nós vamos passar por isso juntos, Márcio. Nós dois. E juntos, vamos enfrentar a escuridão."

A noite parecia ter revelado seus segredos mais profundos, mas também tinha acendido uma nova chama de esperança. A história de Márcio estava intrinsecamente ligada à história de Lara e à história da floresta. E agora, como guardiã, Lara estava pronta para escrever o próximo capítulo, um capítulo de coragem, de sacrifício e de amor inabalável.

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