O Sopro da Matinta
Capítulo 20 — O Coração da Floresta em Chamas
por Stella Freitas
Capítulo 20 — O Coração da Floresta em Chamas
O sol nascia preguiçosamente, pintando o céu com tons de laranja e rosa. A vila, ainda sob o efeito do susto da noite anterior, começava a despertar para um novo dia. Lara, sentada à beira da cama de Márcio, sentia a energia que emanava dele ser mais forte, mais vibrante. A cura progredia, mas a sombra da ameaça pairava no ar.
Márcio a olhou com gratidão e preocupação. "Você acha que ele vai tentar de novo, Lara? Aquele homem… a escuridão que o cerca."
"Ele vai", respondeu Lara, a voz firme. "A Matinta me mostrou. Ele não desistirá. Ele quer a floresta. Quer o poder que ela guarda. E ele usará qualquer um que puder para conseguir."
Tiago entrou no quarto, trazendo uma bandeja com pão fresco e café. "Dona Zélia mandou dizer que o estado de Márcio está melhorando. E que precisamos estar atentos. Ela sente uma perturbação se aproximando."
"Ele sabe que eu estou aqui agora", disse Lara, olhando para a floresta pela janela. "Ele sabe que eu sou a guardiã. E ele virá atrás de mim. Ou de Márcio."
A ameaça iminente pairava sobre eles como uma nuvem de tempestade. Lara sabia que não podia mais se esconder. A força que a Matinta lhe dera não era apenas para proteger, mas para confrontar.
Ela se levantou, a determinação em seus olhos. "Eu preciso ir até o coração da floresta. Onde a Matinta é mais forte. Onde posso pedir sua ajuda total."
"Você vai sozinha?", perguntou Tiago, apreensivo.
"Não", disse Márcio, surpreendendo a todos. Ele se sentou na cama, o corpo ainda fraco, mas o espírito forte. "Eu vou com você, Lara. Eu sou parte disso agora. Eu preciso enfrentar o que me trouxe até aqui."
Lara olhou para ele, o amor transbordando em seu peito. Ela sabia que ele ainda não estava totalmente recuperado, mas também sabia que sua presença ao seu lado seria um conforto e uma força. "Tudo bem, Márcio. Mas você precisa descansar quando eu pedir. E não se arrisque."
Tiago assentiu. "Eu ficarei aqui, cuidando de tudo. Mas eu confio em vocês."
Lara e Márcio, apoiados um no outro, adentraram a floresta. A cada passo, Lara sentia a energia da Matinta se intensificar, a floresta respondendo à sua presença. Os animais pareciam observá-los com curiosidade e respeito. O ar estava carregado com uma tensão palpável, como se a própria natureza estivesse prendendo a respiração.
Chegaram a uma área mais densa, onde as árvores eram imponentes e antigas, suas copas formando um teto quase impenetrável de verde. O chão estava coberto de musgo espesso, e um silêncio profundo reinava. Era ali, no centro da floresta, que Lara sentia a presença da Matinta mais forte.
Lara fechou os olhos, concentrando-se na energia que a envolvia. "Matinta!", chamou, sua voz ressoando com a autoridade de uma guardiã. "Eu te chamo! A escuridão se aproxima! Ele virá atrás de nós!"
O vento começou a soprar, forte e frio, levantando folhas secas e galhos. As árvores se retorciam, como se estivessem em agonia. Lara sentiu uma onda de energia sombria emanando de longe, se aproximando. O homem, o mesmo das visões, estava vindo.
"Ele está perto", disse Márcio, a voz tensa.
De repente, a terra tremeu. As árvores ao redor começaram a incendiar, não com fogo comum, mas com uma chama escura, etérea, que consumia a vida sem deixar vestígios de cinzas. O ar ficou sufocante, carregado com um cheiro de enxofre e desespero.
"Não!", gritou Lara. "Matinta! O que é isso? Por que a floresta está queimando?"
A voz da Matinta ressoou, carregada de dor e desespero. "Ele corrompeu o coração da floresta, Lara! Ele está usando o poder da escuridão para destruir o que há de mais sagrado!"
Lara olhou ao redor, horrorizada. A floresta, seu santuário, seu lugar de poder, estava se consumindo em chamas sombrias. A energia que a envolvia agora era de angústia, de dor.
"Nós precisamos pará-lo!", disse Márcio, levantando-se com dificuldade. "Onde ele está?"
"Ele está no antigo altar, Lara", respondeu a Matinta. "Onde a energia da floresta é mais pura. Ele busca dominar essa energia, corrompê-la completamente!"
Lara sentiu a raiva e a determinação tomarem conta dela. Ela não permitiria que aquele homem destruísse a floresta. Ela era a guardiã agora.
"Márcio, você precisa ficar aqui", disse Lara, o olhar fixo na direção onde a Matinta indicou. "Você está fraco. Eu vou. Eu enfrentarei ele."
"Não, Lara!", protestou Márcio. "Eu vou com você!"
"É muito perigoso", insistiu Lara. "A força dele é imensa. Eu sou mais forte agora. Eu posso fazer isso." Ela tocou o rosto de Márcio, um último beijo em seus lábios. "Fique aqui. Proteja o que puder. E espere por mim."
Com o coração apertado, Lara correu em direção ao antigo altar. As chamas sombrias dançavam ao seu redor, ameaçando consumi-la. A energia da Matinta, embora dilacerada pela dor, pulsava em suas veias, dando-lhe força.
Chegou ao altar, um círculo de pedras antigas no centro de uma clareira. O homem estava lá, de costas para ela, com as mãos erguidas em direção ao centro do altar, de onde emanava uma luz branca e pura, a essência da floresta. Ele murmurava palavras de poder, sua voz ecoando com uma maldade sinistra.
"Você não pode fazer isso!", gritou Lara, sua voz ressoando com a força da Matinta.
O homem se virou lentamente. Seu rosto era o mesmo das visões de Lara, um rosto pálido, com olhos vazios e frios. Um sorriso cruel se formou em seus lábios.
"A guardiã", disse ele, a voz zombeteira. "Uma garotinha protegida pela floresta. Você acha que pode me deter?"
"Eu sou mais do que uma garotinha", respondeu Lara, erguendo as mãos. A energia da Matinta emana dela, formando uma aura protetora. "Eu sou a vontade da floresta. E ela não se curvará à sua escuridão."
Uma batalha de energias começou. O homem lançava raios de escuridão, que Lara desviava com seu escudo de luz. As chamas sombrias se intensificavam, tentando consumi-la. Mas Lara resistia, lembrando-se de Márcio, da floresta, de tudo que amava.
"Você é fraca!", gritou o homem, intensificando seu ataque.
Lara sentiu sua energia diminuir. As chamas sombrias estavam se aproximando, ameaçando engoli-la. Ela olhou para Márcio, que observava tudo com desespero. E então, ela sentiu. A força da Matinta não era apenas dela. Era de todos que amavam e protegiam a floresta.
Ela estendeu as mãos, não para atacar, mas para se conectar. Ela sentiu a energia de Márcio, a preocupação de Tiago, o amor de sua família, a força de Dona Zélia. E ela sentiu a Matinta, lutando ao seu lado, mesmo em sua dor.
"Você não está sozinho, escuridão!", gritou Lara, sua voz agora carregada com a força de todos eles. "Você não pode vencer o amor! Você não pode vencer a vida!"
Uma luz branca e poderosa explodiu do centro do altar, envolvendo o homem. Ele gritou, sua forma se distorcendo, a escuridão que o cercava recuando. As chamas sombrias começaram a se apagar, substituídas por uma luz suave e curadora.
O homem, enfraquecido e derrotado, caiu de joelhos. Seu corpo começou a se dissipar, transformando-se em pó, levado pelo vento. A escuridão que ele representava foi expulsa da floresta.
Lara, exausta, mas vitoriosa, sentiu a energia da Matinta a abraçar. A floresta, ferida, mas não destruída, começou a se curar. As árvores pararam de queimar, e uma nova luz, mais pura e forte, começou a emanar do altar.
Márcio correu até ela, abraçando-a com força. "Você conseguiu, Lara! Você conseguiu!"
Lara o abraçou de volta, sentindo a paz retornar à floresta. A batalha havia acabado. A escuridão fora vencida. E ela, Lara, a garota que amava a floresta, havia se tornado a guardiã que ela precisava. O sopro da Matinta agora era um sussurro de esperança, um convite para um futuro onde o amor e a natureza, juntos, prevaleceriam.