O Sopro da Matinta
O Sopro da Matinta
por Stella Freitas
O Sopro da Matinta
Autor: Stella Freitas
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Capítulo 21 — O Preço da Visão
O crepitar das chamas ainda ecoava em seus ouvidos, uma melodia macabra que dançava com o cheiro acre da fumaça. Helena se ajoelhou, a terra úmida e fria sob seus joelhos, o suor escorrendo em finos filetes por seu rosto marcado pela fuligem. A visão, tão vívida e aterradora, a deixara sem fôlego. A floresta, seu lar, seu refúgio, em chamas. Não apenas árvores e folhas, mas um fogo que consumia a própria essência da vida, alimentado por uma maldade ancestral que ela mal conseguia compreender.
Lágrimas quentes borraram sua visão, mas não eram apenas de tristeza. Havia raiva borbulhando em seu peito, uma fúria que se misturava ao desespero. Aquela visão não era um simples pesadelo; era um aviso, um grito de socorro da floresta que ela jurara proteger. A Guardiã, como a velha Iara a chamara, sentia o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros como uma montanha.
“Não!”, sussurrou, a voz rouca e embargada. Levantou a mão trêmula, como se pudesse deter o avanço do fogo com um gesto. A memória da jovem figura em chamas, os olhos suplicantes, o grito silenciado… Aquilo a assombrava. Quem era ela? E por que a floresta a mostrava em meio à destruição?
Ao seu lado, Samuel a observava com a preocupação estampada no rosto. A aura de Helena, que antes brilhava com uma força serena, agora era turbulenta, como um céu prestes a desabar. Ele sentiu o aperto em seu próprio peito, a dor que emanava dela como ondas.
“Helena… o que você viu?”, perguntou, a voz suave, tentando não assustá-la. Aquele vislumbre do futuro, aquela visão que a deixara em tal estado, ele sabia que não era uma brincadeira do destino. Era algo profundo, algo que a ligava ainda mais àquela floresta que parecia conspirar para desvendá-la.
Ela se virou para ele, os olhos ainda brilhando com a intensidade da visão. “Fogo, Samuel. Um fogo que queima tudo. E uma… uma menina. Ela estava lá, no meio das chamas. Pedindo ajuda.” A voz falhou. “Ela parecia… familiar.”
Samuel se aproximou, colocando uma mão reconfortante em seu ombro. Sentiu a tensão em seus músculos, a fragilidade sob a força recém-descoberta. “Uma menina? Quem poderia ser?”
“Eu não sei. Mas a floresta está gritando, Samuel. Ela está em perigo. E eu… eu acho que eu sou a única que pode impedi-la.” A convicção em sua voz era palpável. A Guardiã não era mais apenas a mulher que amava a natureza; era a sua defensora, a sua voz.
“Mas como? Como você pode impedir um fogo que nem mesmo começou?” Samuel tentava encontrar uma lógica, mas a situação já ultrapassava os limites do racional. A floresta, com seus mistérios e seus poderes, parecia ditar as regras.
“Eu não sei. Ainda não sei. Mas preciso descobrir. Preciso entender quem era aquela menina, por que ela estava ali, e o que causa essa destruição.” Helena se levantou, a determinação renovada, apesar da exaustão que a consumia. Ela sentiu a floresta vibrar ao seu redor, uma energia antiga e poderosa que a impelia para frente.
“E para isso?”, Samuel perguntou, apreensivo. Ele sabia que Helena, quando movida por um propósito, era implacável.
“Para isso, preciso voltar. Preciso mergulhar nas profundezas da floresta, encontrar as raízes ancestrais que sentem tudo. A velha Iara me disse que elas guardam segredos que nem mesmo o tempo pode apagar.” Helena olhou para a imensidão verde que se estendia diante deles, um labirinto de mistérios e perigos. A visão a assombrava, mas também a impulsionava.
“Voltar? Helena, você acabou de sair de lá e viu… aquilo. Não acha perigoso demais?” Samuel tentou argumentar, mas sabia que não adiantaria. A força que a impulsionava era maior do que qualquer medo.
“É o preço da visão, Samuel. É o preço de ser a Guardiã. A floresta me mostrou o perigo, agora ela me guiará para a solução.” Ela apertou a mão dele, os olhos fixos nos dele, buscando compreensão. “Você virá comigo?”
Samuel não hesitou. Olhou para Helena, para a coragem que emanava dela, para a força que ela encontrava em si mesma. Ele a amava, e amá-la significava estar ao seu lado, em todos os caminhos, por mais sombrios que fossem. “Sempre”, respondeu, sua voz firme, um reflexo da promessa em seu olhar.
Enquanto se preparavam para adentrar novamente a mata, o ar parecia vibrar com uma energia latente. A floresta, com seus segredos e seus perigos, estava prestes a revelar mais de seus véus para a Guardiã e seu companheiro. O crepitar das chamas, agora um eco distante, parecia um prenúncio do que viria. A visão da menina em chamas era um fardo, mas também um farol, guiando-os para um destino incerto, mas inevitável.
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era medo, mas uma espécie de reconhecimento, como se as raízes ancestrais estivessem chamando seu nome. A visão a tinha marcado, a tinha transformado. Ela não era mais apenas Helena, a mulher que amava a floresta. Ela era a Guardiã, e seu caminho agora estava traçado nas profundezas da mata, em busca da verdade que poderia salvar tudo, ou condená-la para sempre. O preço da visão era alto, mas ela estava disposta a pagá-lo.