Cap. 22 / 21

O Sopro da Matinta

Capítulo 22 — O Labirinto de Memórias

por Stella Freitas

Capítulo 22 — O Labirinto de Memórias

O lusco-fusco tingia a floresta de tons sombrios, lançando sombras dançantes que pareciam ganhar vida própria. Cada passo de Helena e Samuel ecoava no silêncio denso, um contraste perturbador com a agitação que tomava conta da Guardiã. A visão da menina em chamas, a urgência em seus olhos, a sensação de familiaridade – tudo isso a impulsionava, mas também a consumia. A floresta, antes um refúgio de paz, agora se apresentava como um enigma complexo, repleto de ecos do passado e presságios do futuro.

“Você tem certeza que é por aqui, Helena?”, Samuel perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. Ele acompanhava cada movimento dela, a apreensão roendo suas entranhas. A energia da floresta estava diferente, mais pesada, como se estivesse retendo a respiração.

Helena fechou os olhos por um instante, buscando a conexão que a velha Iara lhe ensinara. O vento que soprava entre as árvores parecia carregar sussurros antigos, vozes distantes que tentavam lhe falar em uma língua esquecida. “Eu sinto… sinto as raízes chamando. Há algo aqui, Samuel. Algo que precisamos encontrar.”

Ela apontou para uma formação rochosa peculiar, coberta por musgos que brilhavam com um tom esverdeado incomum sob a luz fraca. Uma fenda estreita se abria na rocha, mal visível entre a vegetação densa. Parecia um portal para um mundo oculto. “É por ali. É onde elas guardam as memórias.”

Samuel assentiu, confiando em sua intuição, em sua ligação cada vez mais profunda com a floresta. Ele sabia que Helena estava no caminho certo, mesmo que os perigos fossem imensuráveis. Segurou a mão dela com firmeza, um gesto silencioso de apoio.

Ao atravessarem a fenda, a temperatura caiu abruptamente. O ar ficou rarefeito, carregado de uma umidade que parecia vir de séculos de esquecimento. A rocha se abriu em uma caverna natural, cujas paredes pareciam pulsar com uma luz tênue e etérea. Não eram cristais, nem fungos bioluminescentes, mas algo mais… orgânico, vibrante. Pareciam veias pulsantes de um ser adormecido.

“Isso… isso é incrível”, murmurou Samuel, seus olhos arregalados de espanto. Ele já vira a beleza da floresta em sua forma mais selvagem, mas aquilo era diferente. Era uma beleza primordial, quase assustadora.

Helena sentiu a energia fluir por suas veias, um reconhecimento profundo e arrebatador. Era como se cada célula de seu corpo estivesse se conectando com a própria essência da terra. As paredes da caverna pareciam contar histórias, imagens efêmeras surgindo e desaparecendo em seus contornos. Ela viu fragmentos de vidas passadas, de rituais ancestrais, de seres que habitavam a floresta muito antes dos humanos.

“As raízes… elas são memória viva”, explicou Helena, a voz embargada pela emoção. Ela se aproximou de uma parede, tocando a superfície fria e pulsante. Uma torrente de imagens a atingiu: uma mulher com cabelos longos e negros, em pé diante de um fogo sagrado, entoando cantos em uma língua desconhecida; uma criança brincando entre as árvores, seus olhos brilhando com uma luz inocente; uma batalha feroz, homens e criaturas míticas lutando sob a luz da lua.

“Quem é essa menina, Samuel?”, Helena perguntou de repente, focando em uma imagem recorrente: uma menina com traços delicados, pele bronzeada e olhos incrivelmente expressivos. A mesma menina da visão do fogo.

Samuel se aproximou, observando a imagem. Havia algo familiar nela, algo que ele não conseguia identificar. “Eu não sei, Helena. Mas ela parece… tão real. Como se estivesse viva aqui.”

Enquanto Helena se aprofundava nas memórias da floresta, a visão do fogo se intensificava. Ela viu a menina cercada pelas chamas, o desespero em seu rosto se transformando em uma aceitação sombria. E então, uma figura sombria, envolta em uma aura de escuridão, se aproximava dela, estendendo a mão. A figura parecia sussurrar algo, e a menina, hesitante, parecia responder.

“Não!”, Helena exclamou, afastando-se da parede, o coração disparado. “Ela não pode… ela não pode ceder a isso.”

“Ceder ao quê?”, Samuel perguntou, preocupado com a intensidade de sua reação.

“Essa figura… é a escuridão que a floresta teme. É a força que quer consumi-la. E ela está… tentada.” Helena sentiu uma onda de pânico. A menina da visão não era apenas uma vítima; ela era uma peça central em um jogo muito maior.

“Mas por quê? Por que ela seria tentada pela escuridão?”, Samuel questionou, tentando entender a lógica por trás de tanta tragédia.

“Eu não sei. Mas as raízes… elas mostram que essa menina é importante. Ela tem uma ligação com a floresta, uma ligação antiga. E a escuridão quer explorar isso, corromper isso.” Helena sentiu um peso no peito. A semelhança da menina com alguém que ela conhecia, ou que já conheceu, a atormentava.

Ela voltou a tocar a parede, buscando mais respostas. Viu a menina correndo pela floresta, seus olhos cheios de medo, mas também de determinação. Viu-a em momentos de alegria, rindo sob o sol, brincando com animais que agora só existiam em lendas. E em um lampejo rápido, viu um rosto que a fez congelar. Um rosto que ela conhecia. Um rosto que pertencia a alguém que ela acreditava ter perdido para sempre.

“Não pode ser…”, sussurrou, os olhos marejados. A imagem era fugaz, mas inconfundível. A menina era… sua mãe. Jovem.

Samuel a olhou, sentindo a mudança brusca em sua energia. “Helena? O que foi? O que você viu?”

Ela ergueu o olhar para ele, os olhos cheios de uma dor profunda e de uma revelação chocante. “Era ela, Samuel. Era a minha mãe. A minha mãe quando era menina. E ela… ela estava vivendo o que eu vi no futuro. As chamas… a escuridão… tudo.”

A revelação pairou no ar como uma névoa densa. A visão do fogo não era apenas um prenúncio do futuro; era um eco do passado, um ciclo que parecia se repetir. A Guardiã, agora entendendo a profundidade de sua linhagem, sentiu o peso do seu destino se intensificar. A luta não era apenas pela floresta; era pela sua própria história, pela sua própria família.

“Mas se ela passou por isso… o que aconteceu com ela?”, perguntou Samuel, a voz embargada. Ele sabia o quão profundo era o amor de Helena por sua mãe, e a ideia de que ela tivesse sofrido algo tão terrível era devastadora.

Helena balançou a cabeça lentamente, as lágrimas rolando por seu rosto. “Eu não sei. As memórias são fragmentadas. Mas se a visão que eu tive é um reflexo do que aconteceu com ela, então… então a escuridão venceu. E se a escuridão venceu com ela, ela pode vencer comigo.”

O silêncio na caverna tornou-se opressivo. A beleza primordial do lugar agora parecia um palco para um drama ancestral, um drama que envolvia Helena de uma forma inescapável. As raízes ancestrais haviam revelado a verdade, mas essa verdade trazia consigo um fardo ainda maior. A luta pela floresta se tornara uma luta pela sua própria existência, pela sua própria alma. O labirinto de memórias a havia levado a um lugar de profunda desorientação e de um medo primordial, mas também de uma resolução inabalável. Ela não permitiria que o destino de sua mãe se repetisse.

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