Cap. 23 / 21

O Sopro da Matinta

Capítulo 23 — O Guardião Sombrio

por Stella Freitas

Capítulo 23 — O Guardião Sombrio

O ar na caverna ancestral parecia ter se tornado mais denso, o silêncio quebrado apenas pelos soluços contidos de Helena e pela respiração pesada de Samuel. A revelação de que a menina nas visões era sua própria mãe, jovem e vulnerável, atingiu Helena com a força de um golpe físico. A floresta, que ela amava e jurara proteger, estava ligada a um sofrimento que atravessava gerações, a uma batalha que parecia eterna.

“Se minha mãe… se ela passou por isso e a escuridão a atingiu… então ela se perdeu para sempre?”, Helena sussurrou, a voz embargada pela dor e pela incredulidade. A imagem da menina cercada pelas chamas, agora associada ao rosto familiar de sua mãe, era um tormento. A força que a envolvia, a mesma que ela sentiu ao ver a visão do futuro, parecia zombar dela.

Samuel a abraçou com força, sentindo a fragilidade que ela tentava esconder sob a armadura da Guardiã. “Eu não sei, Helena. Mas você é diferente. Você é a Guardiã. Você tem a força da floresta em você.” Ele tentava reafirmar a crença que ambos partilhavam, mas a sombra da dúvida pairava pesada.

Helena se afastou do abraço, os olhos fixos em um ponto na parede da caverna, onde uma figura sombria parecia se materializar das sombras. Não era uma imagem das memórias, mas algo… presente. Uma aura fria e malevolente emanava dela, um presságio do mal que a floresta sempre temeu.

“Ele está aqui”, Helena disse, a voz tensa. “O Guardião Sombrio.”

Samuel se posicionou instintivamente à frente de Helena, os punhos cerrados. Ele podia sentir a presença perturbadora, a energia corrupta que emanava da figura. Era diferente de qualquer coisa que ele já sentira, uma força antiga e faminta.

A figura, um homem alto e esguio, com olhos que pareciam buracos negros e uma pele pálida como a de um cadáver, deu um passo à frente. Um sorriso fino e cruel brincou em seus lábios. Sua voz, quando falou, era um sussurro rouco, que ecoava na caverna como um raspão em pedra.

“Interessante… a pequena Guardiã encontra seu passado em meu domínio.” A figura parecia se deleitar com o desespero que via nos olhos de Helena. “Você tem a força de sua linhagem, isso é inegável. Mas a força pode ser corrompida, não é mesmo?”

Helena sentiu um arrepio de ódio percorrer seu corpo. “O que você fez com a minha mãe?”, ela exigiu, a voz firme apesar do medo que tentava se instalar.

O Guardião Sombrio riu, um som seco e sem humor. “Sua mãe… ah, ela foi uma alma interessante. Tão cheia de potencial, tão disposta a se curvar à escuridão quando a dor a consumiu. Ela fez uma escolha, Helena. Uma escolha que você parece relutar em fazer.”

“Eu nunca farei uma escolha como a dela!”, Helena retrucou, a fúria tomando o lugar da dor.

“Ah, mas você o fará. A dor é uma mestra severa. E quando a floresta que você tanto ama se voltar contra você, quando aqueles que você ama a abandonarem… você vai me procurar. Você vai me implorar por alívio.” A figura deu mais um passo à frente, a aura escura se intensificando. “Eu sou o Guardião Sombrio, Helena. Eu sou a sombra que caminha ao lado da luz. E a sua luz… ela está prestes a ser testada como nunca antes.”

Samuel se moveu, tentando atacar o Guardião, mas algo o deteve. Uma força invisível o empurrou para trás, fazendo-o tropeçar. Era como se a própria caverna estivesse se tornando um inimigo.

“Não se intrometa, mortal”, sibilou o Guardião Sombrio, seus olhos negros fixos em Samuel. “Este é um jogo entre a linhagem da Guardiã e a escuridão. Você é apenas um peão neste tabuleiro.”

Helena sentiu a floresta em seu interior se agitar, uma força primitiva respondendo à presença do Guardião. A energia que a conectava às raízes ancestrais agora se transformava em um escudo protetor. Ela sentiu a presença de sua mãe, não como um fantasma, mas como uma energia residual, um eco de sua alma que lutava contra a corrupção.

“Você não vai me corromper”, Helena declarou, erguendo a mão. A energia ao seu redor começou a brilhar com uma luz verde esmeralda, a cor da floresta em seu auge. “Você pode ter tentado com minha mãe, mas comigo será diferente. Eu sou a Guardiã, e eu escolho a luz.”

O Guardião Sombrio parecia surpreso com a força que emanava dela. Um lampejo de algo que poderia ser medo passou por seus olhos, rapidamente substituído por uma malevolência ainda maior. “Tão confiante… mas a confiança se esvai quando o desespero se instala. Eu posso esperar. Eu sempre espero.”

Com um movimento rápido e fluido, o Guardião Sombrio se dissolveu nas sombras, deixando para trás apenas o frio e a sensação de um mal que espreitava. O silêncio que se seguiu era pesado, carregado com a ameaça implícita.

Helena caiu de joelhos, a energia que a sustentava a abandonando. A luta contra o Guardião Sombrio, mesmo que breve, a deixara exausta. Samuel correu até ela, ajudando-a a se levantar.

“Ele se foi… por enquanto”, disse Samuel, a voz trêmula. “Mas ele voltará, não é?”

Helena assentiu, abraçando-o com força. “Ele voltará. Ele sempre volta. Ele é a sombra que acompanha a luz.” Ela olhou para a parede da caverna, onde as memórias de sua mãe ainda pulsavam. “Ele tentou corromper minha mãe, e eu o vi. Mas ela resistiu, de alguma forma. Ela não se entregou completamente. E eu… eu vou lutar para que ela não tenha sofrido em vão.”

A visão do fogo, a revelação de sua mãe como a vítima, o confronto com o Guardião Sombrio – tudo isso a empurrava para um caminho de incertezas e perigos. Mas também acendia nela uma chama de determinação. Ela não era apenas a Guardiã; ela era a filha de uma mulher que lutou contra as trevas e, de alguma forma, sobreviveu. Agora, Helena precisava entender como sua mãe havia resistido, e usar esse conhecimento para enfrentar o mal que ameaçava consumir tudo.

O caminho adiante era sombrio e incerto, mas Helena sabia que não estava sozinha. A floresta, com suas memórias e sua força, estava com ela. E Samuel, com seu amor e sua lealdade inabaláveis, era seu porto seguro. A luta pela luz havia começado, e Helena estava pronta para travá-la, mesmo que o preço fosse sua própria alma. O Guardião Sombrio havia revelado suas intenções, e agora Helena sabia que a batalha final estava apenas começando.

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